De Coreia a Quintal: os riscos estruturais no atual formato da Vila Rubim

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Prefeitura de Vitória e Crea-ES julgam que não há risco iminente de desastre, enquanto MPES pede interdição imediata do local 

Por Alberto Borém

Fachada do Mercado de Peixes da Vila Rubim 
Foto: Alberto Borém

O Mercado da Vila Rubim nasceu muito antes de ser construído. A ideia de ter um comércio a céu aberto no meio da capital do Espírito Santo não era novidade quando a Vila Rubim recebeu os galpões. Antes disso, outro local do Centro de Vitória havia sido marcado pelo fluxo econômico, em destaque pela proximidade com o Porto de Vitória. Em 93 anos, passando pelas alcunhas de Coreia, Cidade de Palha e agora Quintal, o Mercado da Vila Rubim se transforma de acordo com as mudanças da cidade, às vezes na contramão do que imaginam os moradores e comerciantes. As alterações também ocorrem no interior dos estabelecimentos comerciais. Um dos galpões, segundo laudo da Defesa Civil Estadual e do Corpo de Bombeiros, oferece riscos de desabamento e incêndio. O diagnóstico é contestado pela Prefeitura de Vitória. 

Enquanto a administração municipal aponta que a reforma pode ser feita com os trabalhadores dentro do mercado, os laudos indicam uma necessidade de interdição dos três andares do prédio. Acima do térreo, onde funciona o comércio de peixes, há moradias consideradas irregulares. 

O Ministério Público do Espírito Santo, por sua vez, recomendou a interdição imediata da edificação. Por meio de uma Ação Civil Pública – instrumento previsto em Constituição que prevê a proteção de interesses coletivos – o MPES notificou a prefeitura para que afastasse o risco iminente de incêndio e colapso da estrutura. 

De acordo com a decisão da Justiça, após formalização do MPES, o município deverá apresentar, no prazo de 90 dias, um plano que garanta o funcionamento seguro do Mercado de Peixes da Vila Rubim, atendendo a todos os requisitos formais previstos em lei. A decisão estabelece o prazo de 30 dias para que todo o prédio seja desocupado. Um local seguro deve ser disponibilizado pela prefeitura para funcionamento do comércio. 

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, o Crea-ES, sugere que haja demolição de uma obra construída de maneira irregular, localizada acima do mercado. O órgão afirma que não há risco iminente de desastre.

Mercado de Peixes da Vila Rubim, em Vitória 
Foto: Alberto Borém

Enquanto os órgãos responsáveis debatem qual é a melhor solução para garantir segurança e evitar prejuízos econômicos, após o pedido de interdição do Ministério Público, o Mercado da Vila Rubim segue seu funcionamento normal. 

O Mercado de Peixes é separado por mais de 30 cabines, os chamados boxes, de tamanho padrão. Ali a autonomia está para a venda, não para a mudança ou reforma dos ambientes. É proibido que qualquer um dos comerciantes promova alguma alteração ou intervenção naquele espaço. O edifício administrado pela Prefeitura de Vitória é histórico, mas sofre com a descontinuidade de planejamentos. 

Em um tamanho quadrado, ocupado por peças brancas de azulejo, com paredes da mesma cor, assim é o local de trabalho dos peixeiros. Alguns chegaram ao Mercado da Vila Rubim há pouco tempo. Outros estão ali há 55 anos, como é o caso de Edson Costa, que começou a trabalhar no Centro de Vitória aos 13 anos de idade.

Sob um teto formado por PVC da cor branca, os peixeiros dizem confiar que a estrutura não oferece riscos suficientes para uma saída imediata. Eles têm como base a avaliação do Crea-ES. Em laudo enviado à Prefeitura de Vitória, o conselho constatou que não há risco iminente de desastre, mas observou a necessidade de intervenções no local. O Crea-ES destacou a questão hidráulica, além da parte elétrica e estruturas expostas. 

Teto de PVC do mercado apresenta buracos 
Foto: Alberto Borém

Segundo o presidente da Associação de Comércio de Pescados da Vila Rubim, Mário Almeida, o sonho de todos os peixeiros é ter um ambiente de trabalho adequado. Perguntado sobre o risco de incêndio e desabamento, Mário disse que não pode fazer afirmações técnicas e lembrou do conflito entre as defesas civis municipal e estadual. Esta determina que o ambiente deva ser desocupado, enquanto o município vê possibilidade de reforma sem retirada dos peixeiros.

“Temos segurança que o prédio não vai cair. Não vou dizer isso tecnicamente, já que os laudos apontam problemas. Há um conflito entre as defesas civis municipal e estadual. Um diz que não tem risco de cair, outro diz que pode cair. Não tenho capacidade de avaliar tecnicamente, mas olhamos e parece estar seguro. Parece, mas não sabemos o que pode acontecer”, disse em conversa com a reportagem. 

Apesar da vontade de permanecer no local, o presidente da Associação do Comércio de Pescados, que trabalha há cerca de 30 anos na Vila Rubim, destaca a necessidade de melhorias no ambiente da peixaria. 

“Queremos ficar dentro do imóvel, mas entendemos que há necessidade de fazer melhorias. Se for possível fazer as obras com os peixeiros dentro, tudo bem. Se houver necessidade de sair para fazer a reforma, tudo bem também.” 

Caso os peixeiros tenham que sair do tradicional mercado, seria necessário um outro local para funcionamento do comércio. A Prefeitura de Vitória ainda não definiu qual local seria escolhido. 

MERCADO DE PÉ HÁ 93 ANOS 

A construção da ideia de mercado teve início em 1928, quando o Mercado da Capixaba foi construído na Avenida Jerônimo Monteiro, Centro de Vitória. À época, era chamado de Coreia. Com relatos de prostituição e violência, o nome dado era

uma clara referência ao conflito entre as Coreias do Sul e do Norte. A mudança de endereço, quando chegou ao local onde atualmente está, ocorreu na década de 1960. Foi nesse período que o mercado ganhou status de aberto. Não apenas peixes, mas temperos, artigos religiosos e diversas manifestações culturais eram oferecidas ali. 

Construção do mercado, em 1964 
Foto: Arquivo Instituto Jones dos Santos Neves

Para o professor de história Luciano Ribeiro, um mercado aberto é um mercado mais democrático. Ele também é professor de geografia e elabora uma dissertação de mestrado acerca do Mercado da Vila Rubim. O professor explica que o formato do comércio acompanha as outras transformações da cidade e do desenvolvimento de outros municípios.

“Um mercado aberto é um mercado mais democrático. Um mercado que nos reporta a um tempo das feiras medievais, do movimento, o encontro entre as pessoas que conversam. Há espaço para o lúdico. É o local onde há um barulho, pessoas falando, modo de vender que é peculiar.”

O que era um mercado aberto, chamado de Cidade da Palha, foi tomando outro rumo, de acordo com Luciano Ribeiro, a partir da década de 1990. Foi um período em que houve investimento em municípios vizinhos. Além disso, o professor aponta a criação de shoppings e galerias como responsável direto por tirar a centralidade do Mercado da Vila Rubim. O bairro localizado no centro foi uma das primeiras favelas da cidade, conta o professor. 

Interior do Mercado de Peixes 
Foto: Alberto Borém

“Com o processo de desenvolvimento industrial, Vitória perde o poder de ser o único e mais importante centro da Região Metropolitana. Durante a década de 90, há o surgimento do Shopping Vitória, desenvolvimento da Praia do Canto, construção de galerias na Reta da Penha. O fluxo econômico vai nessa direção, enquanto a região do Centro de Vitória vai perdendo a centralidade. A descentralização também é consequência da falta de investimento do poder público no centro da cidade”, afirma. 

A mudança na cara do Mercado da Vila Rubim passou não apenas por planejamento ou falta dele. O local também sofreu com incêndios. Durante os mais de 90 anos, os fatos e histórias do lugar foram contados pelo jornalismo. Muito reproduzido pelos jornais impressos, os problemas da Vila Rubim eram quase incontáveis. A insegurança, o cheiro de lixo e o risco de incêndio. 

Edição do jornal A Gazeta em 1993 mostra a situação da Vila Rubim, no Centro de Vitória
Foto: Arquivo Instituto Jones dos Santos Neves

O professor de história aponta que o mercado atualmente tenta copiar determinadas características de lojas de shoppings e galerias. Luciano Ribeiro explica que o êxito obtido pela nova modalidade de mercado também provocou mudanças na Vila Rubim. Ele cita uma imposição de ordem, o que teria tirado o caráter popular do ambiente. 

MERCADO VIROU QUINTAL 

A inauguração do atual Mercado da Vila Rubim aconteceu em 1969. Mas foi em 2018 que o comércio ganhou cara de Quintal. O comércio recebeu painéis artísticos produzidos pelo grupo Cidade Quintal. Intitulado de “Nossa Vila”, as artes são coloridas e lembram o que é o Mercado da Vila Rubim. 

Uma das idealizadoras do grupo Cidade Quintal, que existe há mais de cinco anos, a designer Juliana Lisboa conta que a Vila Rubim foi o primeiro local escolhido na cidade de Vitória para a intervenção. Antes disso, outros trabalhos haviam sido feitos, mas com menor contato com a população local.

Painel da Vila Rubim valoriza a comunidade 
Foto: Alberto Borém

“Quando finalizamos o primeiro trabalho, no Tancredão, sentimos necessidade de ter contato com a comunidade, com o local que recebe o trabalho. Na Vila Rubim fizemos diferente, ao invés de começar no escritório, iniciamos o trabalho na cidade. A gente foi em uma abordagem de aprender com as pessoas sobre o lugar. Isso reverberou bastante no resultado, como os painéis se conectaram aos que vivem na Vila Rubim”, detalha. 

O grupo Cidade Quintal está sediado no Centro da capital. Juliana Lisboa ressalta que as produções procuram refletir o que acontece na comunidade. Ela entende que pinturas como a da Vila Rubim promovem destaque ao que já há de positivo no ambiente. 

“Não costumamos usar o termo revitalizar, sobretudo em um espaço como a Vila Rubim, que não precisa de uma vida nova. A vida já existe lá, é muito movimentada. O que há é uma falta de atenção por parte do poder público. O nome disso não é revitalização, a demanda é por atenção mesmo.” 

Parte de fora do Mercado de Peixes, na Vila Rubim 
Foto: Alberto Borém

A designer afirma que a criação dos painéis não procura esconder os riscos de desabamento e incêndio, que foram apontados pela Defesa Civil Estadual e viraram alvo do MPES. A arte foi feita por meio de um edital do município, mas que não era direcionado ao Mercado da Vila Rubim. Portanto, apesar de financiado pelo município, o edital não indicava um local específico para realização da pintura.

LINHA DO TEMPO

  • 1551 – Cidade de Vitória é fundada
  • 1926 – Construção do Mercado da Capixaba, na Avenida Jerônimo Monteiro
  • 1969 – Inauguração dos três galpões no Mercado da Vila Rubim
  • 1994 – O primeiro incêndio de grandes proporções na Vila Rubim
  • 2010 – Segundo incêndio de grandes proporções na Vila Rubim
  • 2018 – Vila Rubim recebe painéis do Cidade Quintal

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