O “novo normal” para os estudantes que vivem longe da universidade

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Como a aprovação do ensino híbrido impacta os estudantes que moram distante da Universidade 

Por Daniela Salgado, Dirlan Junior, Izabela Toscano e José Tarcísio Ribeiro

Mural da Ufes, Campus Goiabeiras/ Foto: Laura Gomes

Mudanças e adaptações fazem parte da rotina dos estudantes que retornam às dependências da Ufes para o próximo semestre letivo, em especial aos que moram longe dos campi de onde estudam. Na última sexta-feira (3), o Conselho Universitário aprovou a migração para a fase 3 do plano de contingência, em que são permitidas atividades em formato híbrido (remoto mais presencial).

A estudante de Jornalismo da Ufes do campus Goiabeiras Stella Sampaio retornou à casa dos pais em Linhares logo no início da pandemia e agora, com a aprovação do híbrido, não vê possibilidade de acompanhar as aulas de maneira presencial:

Stella Sampaio/ Foto: acervo pessoal

“Agora não teria como eu voltar porque eu precisei trabalhar e organizar outras áreas da vida que não daria para conciliar. Então eu precisaria trancar a faculdade por um ou dois semestres até conseguir reorganizar a vida e ter condições de morar em Vitória pra poder estudar integralmente”.

As mudanças ocasionadas pela pandemia se manifestam também nas questões emocionais. Sampaio precisou de ajuda psicológica e fala que ao recomeçar a terapia, percebeu como essas mudanças bruscas advindas do contexto atual impactaram na sua maneira de lidar com o cotidiano: “Depois da experiência do ensino remoto e de permanecer por mais tempo em casa, várias coisas foram surgindo, dentre elas, a fobia social e essa dificuldade em lidar com as mudanças rápidas e repentinas”, destacou.

Matheus Valentim/ Foto: acervo pessoal.

Matheus Valentim, estudante de Ciências da Computação em São Mateus, diz que o maior motivo de preocupação do retorno às aulas presenciais é a incerteza do momento atual. Valentim é de Manhuaçú, interior de Minas Gerais, a 383 quilômetros de distância da cidade do campus. “As mudanças sociais e financeiras afetam a nossa emoção, porque é um momento de muita incerteza. E como a maioria dos estudantes depende de auxílio da família ou da universidade, esse momento incerto reflete na gente. A gente não sabe o que vai acontecer”.

A mestranda em Comunicação e Territorialidades na UFES, Karolyne Gomes, é moradora de Colatina e enxerga como uma verdadeira contramão a possível volta ao sistema de ensino presencial híbrido – sem um bom planejamento prévio. ‘’Hoje, eu moro em Colatina, região Noroeste do estado e trabalho aqui. Fica a 3 horas de Vitória indo de ônibus, o que fica inviável a ida e a volta, mesmo que poucas vezes na semana’’. Além da não praticidade pelo caminho, Karolyne pontua com bons olhos o modelo à distância. ‘’A adaptação não foi fácil, mas foi ótimo para conseguir aproveitar coisas novas. Por exemplo, consegui pegar uma matéria na UFF (Universidade Federal Fluminense) que seria impossível se fosse presencial’’, relata a estudante. 

Programas da Universidade

Segundo o último relatório de gestão produzido pela Ufes, o corpo discente da universidade é formado por um total de 21.540 estudantes, 19.289 da graduação e 2.251 da pós-graduação (mestrandos, doutorandos e residentes). Deste total, 3.084 estudantes são beneficiados com o auxílio moradia. O benefício tem por objetivo suprir a carência dos alunos que passaram a residir na região do campus em que estuda e que afetiva e economicamente, ainda dependem do núcleo familiar da cidade de origem. 

Em 2019, o número de estudantes da Ufes era 22% maior do que em 2020, 27.600 alunos no total. Porém, a requisição de auxílio moradia era 6% menor em comparação com a realidade atual, 2903 recebiam o benefício. Isso demonstra que aqueles que não optaram pelo trancamento/cancelamento da matrícula ou que não retornaram para onde residiam durante a pandemia, são ainda dependentes da ajuda financeira que a universidade oferece.

Para Iury Pessoa, diretor do Departamento de Assistência Estudantil, os auxílios que compõem a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Cidadania (Proaeci) são o auxílio transporte e o auxílio moradia. Este último, segundo ele, contribui na permanência das pessoas que moram distantes dos campi onde fazem seus cursos: “Os editais de cadastro no programa são lançados semestralmente, permitindo que os estudantes ingressantes possam realizar o cadastro na ocasião da chegada à Universidade”, indica Pessoa.

Para os estudantes que precisam estar próximos à universidade no próximo período, mesmo recebendo a ajuda de custo da Universidade, o recurso pode ser longo e oneroso. 

“A principal dificuldade que eu iria enfrentar para retornar com o ensino presencial seria meu deslocamento. Voltar a procurar apartamento…tudo isso na situação delicada que a gente tá vivendo é bem difícil”.

Matheus Valentim, estudante de Ciência da Computação

Os desafios enfrentados decorrem dos apuros em tempo hábil, em encontrar uma moradia para que esses estudantes possam se estabelecer. O que reacende o debate sobre a construção de alojamento estudantil nos campi de Goiabeiras, Maruípe e São Mateus, como já ocorre na Ufes de Alegre. Porém, para Iury Pessoa, os limites de estudos técnicos e a infra-estrutura disponibilizada impedem que esse tema vá adiante. 

“Não temos em vista nenhum projeto que seja colocado em prática para o estabelecimento nesses campi. Estamos priorizando a estratégia de atendimento a esses estudantes que foi estabelecida pela UFES, que é a concessão do auxílio moradia”.

Imagem: Dirlan Junior

Como ficam os calouros?

Com a inclusão de 1.021 estudantes no pagamento de auxílios financeiros, anunciado pelo reitor da Ufes, Paulo Vargas, alguns estudantes estão na lista de espera para o recebimento do auxílio. A ampliação dos recursos destinados à assistência estudantil foi possível a partir do descontingenciamento de parte do orçamento da Ufes.

Calouros que foram selecionados recentemente ou que entraram na Ufes após a pandemia e precisam morar nas proximidades da universidade serão prioridades neste momento. Iury Pessoa diz que o orçamento para a realização ainda depende de uma análise jurídica.

“Precisamos, a partir do retorno do ensino híbrido, elaborar estratégias legais e factíveis que possam atender a esses estudantes. Contudo, elas estão em fase de estudo, e demandam orçamento e aprovação nos conselhos superiores da universidade”.

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