“O EARTE até tenta nos entregar conteúdo, mas rouba todo o resto”

calouros no Earte
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Desânimo com a rotina discente durante o ensino remoto atinge calouros e finalistas da Ufes, que temem prejuízos na formação e anulação da “experiência universitária” 

Andressa Antunes, Beatriz Heleodoro, Camila Borges e Teresa Breda 

“Ao invés de modelo de ensino adotado durante a pandemia trazer a universidade para perto dos alunos, ele está me distanciando cada vez mais de tudo que um dia eu sonhei para minha formação” É assim que Jamilly Vaz Silva, estudante do terceiro período de Jornalismo, resume sua experiência com o Ensino-Aprendizagem Remoto Temporário e Emergencial (Earte). Ingressante do 2020/1, primeiro período de suspensão das aulas presenciais devido à pandemia, a aluna relata uma série de dificuldades impostas pelo modelo de ensino. 

Além do descontentamento quanto à qualidade do ensino remoto, os “calouros da pandemia” também relatam um novo sentimento: a anulação da experiência universitária.” É uma experiência muito triste porque a pandemia me roubou, até o momento, três períodos. Em novembro, eu já estarei na metade do curso e sinto que não aprendi o suficiente e me sinto despreparada”, ponderou a aluna.

Rafael Bellan, professor e coordenador do curso de Jornalismo da Ufes, destaca os impactos do ensino à distância para este grupo. “Os calouros nunca pisaram na universidade. Foram vítimas das circunstâncias históricas que lhe apresentaram apenas um lampejo do real potencial da universidade pública brasileira.”

Quanto ao envolvimento dos alunos com as disciplinas, o coordenador analisa que a formação entra em disputa com outras atividades, o que resulta no desgaste físico e emocional. “O conteúdo universitário não é um lote de informação que se joga na cabeça de alguém pela internet. A formação educacional depende de interações humanas, com ordem qualitativa de estímulos e vivências que uma salinha no meet não consegue reproduzir”, completou. 

“O ensino que a Ufes oferece hoje está muito distante do que eu esperava, não me contempla de nenhuma maneira. Minha maior dificuldade está relacionada a conseguir manter o foco, muitas coisas acabam me distraindo, além de ser uma tarefa muito cansativa ficar horas em frente ao computador tentando ao máximo não me perder na matéria”. 

Eduarda Moura, caloura do Bacharelado de Química, avalia que, apesar de já ter iniciado o curso, ainda não se sentiu acolhida em sua vivência universitária. “Sinto que absorvo menos do que seria na sala de aula presencialmente. É uma experiência muito afastada e distante. Fora [o contato com] meus professores e colegas, eu não sinto como se pertencesse à Ufes de fato ainda”, compartilhou.

Vitória Bordon, finalista do curso de Publicidade e Propaganda, relatou que estava cursando a disciplina de pré-tcc no primeiro semestre de 2020, quando as aulas foram suspensas. Ela chegou a trancar o curso, mas retornou à graduação ainda durante o ensino remoto. “Hoje, no Earte, eu sinto uma dificuldade maior de absorver os conteúdos das disciplinas. Imagina quem teve que fazer as disciplinas básicas do currículo nesse formato? Penso que quem começou o curso nesse modelo de ensino está perdendo muito por não poder viver tudo o que a Ufes oferece”, disse. 

Bordon avalia que as perdas causadas pela pandemia vão além da formação curricular. “Os danos acadêmicos causados pelo ensino à distância são gigantes e irreparáveis, mas não chegam a ser maiores que os prejuízos sensoriais e humanos sentidos por todos que não puderam de fato viver a universidade nos últimos dois anos”. 

“Parece que as engrenagens se acertaram e muitos temem mudar novamente”, afirma docente quanto à restrição do ensino híbrido a finalistas. Na opinião de Bellan, outros períodos também poderiam iniciar os estudos presencialmente: “Já vejo possibilidades de reocupação do espaço da universidade também para os outros períodos, inicialmente de forma híbrida. Claro que para isso a Ufes deveria ter se preparado, garantindo as condições sanitárias para um retorno seguro”.

Decisão do Conselho Universitário 

No dia 3 de setembro, o Conselho Universitário aprovou o retorno às atividades em formato híbrido para disciplinas práticas aos alunos finalistas a partir do segundo semestre letivo de 2021, que se inicia em novembro. A decisão, porém, será de acordo com o critério de cada departamento. 

“O problema é que muitos colegas e alguns alunos decidiram que existem dois mundos: o de suas vidas materiais (que dependem de inúmeros trabalhadores em atividades presenciais) e da Ufes em lockdown (lugar arriscado, perigoso e insalubre). Parece que as engrenagens se acertaram e muitos temem mudar novamente”, completa Bellan. 

Contemplada pela decisão do Conselho Universitário, Vitória Bordon também considera necessária a inclusão de outros períodos no ensino híbrido. “Talvez, esse cuidado seja em virtude da própria pandemia que ainda não acabou. De todo modo, a oportunidade poderia ser melhor aproveitada para incluir esse alunos que já chegaram na metade do curso e ainda não pisaram na própria universidade. A graduação costuma ser uma experiência muito transformadora, justamente pelas trocas e conexões que proporciona. O Earte até tenta nos entregar conteúdo, mas nos rouba todo o resto”.

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