‘E fora do Earte, vc tá bem?’: estudantes da Ufes extravasam o estresse causado pelo ensino à distância nas redes sociais

Share Button

Por Eduarda Moro

Passado mais de um ano do início do Ensino-Aprendizagem Remoto Temporário e Emergencial (Earte), os estudantes da Universidade Federal do etc* estão exaustos de estudar em casa. Com a expectativa para a volta às aulas presenciais, observei no Twitter que os alunos têm prazer em compartilhar o quão horrível este momento está sendo para eles. Quanto pior se sentem, mais eles entregam conteúdo em memes.

O saldo do Earte foi este: pegamos ‘ranço’ dos professores, reclamamos das inúmeras atividades avaliativas e do sumiço dos docentes no horário previsto para o começo das aulas, passamos a odiar os trabalhos em grupo e dormimos nas videochamadas. Esses são alguns dos desabafos que dão a ver uma série de desafios que os estudantes da Ufes enfrentam durante a pandemia da Covid-19.

https://twitter.com/bluejuicek/status/1381668151985848322

E fora do Earte, vc estaria bem?

É perceptível que os memes, o humor e a ironia são os três recursos mais utilizados pelos alunos nas redes sociais, em especial no Twitter, para compartilhar o que anda acontecendo na rotina de estudos de cada um. Afinal, quem nunca ficou passando a timeline do Twitter durante a aula — em vez de prestar atenção na videochamada — para saber o que os colegas estão falando do professor?

O professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades da Ufes Fabio Goveia explicou que “a cultura mimética afeta o universo dos estudantes porque o meme é característica da nossa geração. Esse fenômeno intensificou-se na pandemia com o aumento do uso das tecnologias durante o isolamento social”.

Goveia ressaltou ainda que os universitários estão vivendo uma época da vida propícia para usar os memes para se comunicar, visto que eles têm maior liberdade de expressar os pensamentos questionadores, mas sempre com um toque de humor.

“A ironia, o humor e a desconexão da realidade nas redes sociais podem ser vistos como uma forma de ‘respiro’ na situação dramática em que vivemos. Essas ferramentas tornam este momento menos difícil, além de ser uma maneira de rir da própria tragédia”, completa.

Os posts mostram que 1) os professores estão demandando mais dos alunos no formato remoto do que presencialmente; ou 2) os estudantes não conseguem ter foco nas atividades acadêmicas e gerir o tempo em casa. O mais provável é que sejam os dois casos. Por isso, é compreensível que os estudantes sintam cansaço e irritabilidade e desabafem como se sentem nas redes sociais, onde passam a maior parte do dia.

https://twitter.com/FlaviaPantalion/status/1321154169181536265

Mas nem tudo é uma tragédia. Embora o estresse esteja consumindo cada vez mais os alunos, eles dividem as particularidades do ensino à distância, como jantar durante a apresentação dos seminários dos colegas, ou mesmo apresentar o trabalho enquanto faz xixi; e os constrangimentos durante as aulas síncronas, como não perceber que a câmera ou o microfone do Google Meet está ligado.

https://twitter.com/dhineffer/status/1427717714731282432
https://twitter.com/praianavintage/status/1308763090855571456

Desavenças nas redes sociais

A publicação dos comunicados institucionais da Ufes é responsabilidade da Superintendência de Comunicação (Supec); mas são os famosos perfis paralelos à Administração Central que fazem a verdadeira divulgação das informações a respeito do Earte.

As páginas mais seguidas são: Magias Ufes (@magiasufes), que tem perfis no Facebook, Instagram e Twitter dedicados ao compartilhamento de fotos das lindas e dos lindos que estudam na Universidade; e Estudante da Ufes (@estudantedaufes), no Instagram e no Twitter, que postam conteúdos de humor do dia-a-dia da Ufes.

O administrador do perfil Magias Ufes, que pediu para não ser identificado**, afirmou que a página se faz necessária neste momento de pandemia para divulgar as ações dos Centros Acadêmicos (CAs) e das atléticas, bem como para anunciar os mini-negócios dos alunos ou os pedidos de doação de sangue, por exemplo.

O moderador do perfil também criticou os canais oficiais da Ufes: “eles deixaram os estudantes bem largados no começo da pandemia”. Ele lembra que contou com a ajuda de amigos que são conselheiros estudantis para obter as informações das decisões da Reitoria após a suspensão das atividades presenciais, em março de 2020.

“O Magias Ufes deixou a comunidade acadêmica bem mais unida e consciente”, se orgulha o administrador do perfil.

Com base no que observa no trabalho de ouvidoria que a página permite, ele avalia que o humor e os memes servem como válvula de escape do estresse do Earte, mas também funcionam como uma forma de desabafo dos estudantes.

https://twitter.com/MagiasUFES/status/1425990217899642887

Já do ponto de vista da publicitária responsável pelo @ufesoficial no Facebook, Instagram e Twitter, Mariana Rezende, “os memes são um termômetro, por meio do qual podemos medir o sentimento de boa parte dos estudantes em relação a uma determinada situação”.

Rezende contou que observa as reações dos estudantes nas redes sociais de acordo com o momento do calendário acadêmico, como o começo de semestre, a tensão da época de provas e a expectativa pelo recesso.

A publicitária também defendeu a importância da Supec: “Recebíamos muitas dúvidas sobre o funcionamento, pedidos de informação ou de ajuda, e até mesmo desabafos no começo da pandemia da Covid-19”.

Fazendo um balanço, o Earte mostrou que, se por um lado, as plataformas digitais foram usadas como um diário de bordo de uma descoberta que está sendo o ensino em modalidade remota na Ufes; por outro, elas também servem para entretenimento e como uma maneira de rir e deixar a situação menos traumática.

Além disso, as mídias sociais auxiliam a comunidade acadêmica a se comunicar e se manter informada sobre o que anda acontecendo na Administração Central e, principalmente, nas discussões fora dela. São essenciais para que “ninguém solte a mão de ninguém” em uma época tão atípica da Universidade.

* Desta forma que alguns internautas se referem à Universidade Federal do Espírito Santo.

** O administrador do perfil solicitou anonimato na reportagem para que os alunos em situações delicadas continuem procurando ajuda por meio do Magias Ufes.

Deixe um comentário