Do Earte ao híbrido: como os graduandos da Ufes que nunca estudaram nos campi avaliam o novo modelo de ensino?

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O ensino híbrido, que começará em novembro, ainda não atinge estudantes de períodos iniciais, decisão que gera diferentes opiniões e expectativas

Por André Afonso, Isadora Wandenkolk, Júllia Cássia e Síntia Ott

“Antes de ser adotado o modelo de ensino remoto, sempre pensei na universidade como um lugar de encontro de diferentes lugares e classes, que seria um grande aprendizado essa troca de experiências que somente as aulas presenciais nos permitem”, A afirmação é do estudante Lázaro Stein Freire, que hoje cursa o segundo período de Serviço Social da Ufes na modalidade virtual, o Earte. Sem nunca ter frequentado uma aula no campus, a decisão do Conselho Universitário pela adoção do ensino híbrido (mescla de atividades presenciais e remotas) a partir de novembro mexe com o imaginário do  estudante.

A modalidade ainda não afetará Freire por se aplicar somente às disciplinas práticas de alunos finalistas. Ainda assim, a migração da segunda para a terceira fase do plano de contingência da universidade – a transição do remoto para o ensino híbrido – marca um novo ciclo e desperta diferentes opiniões entre graduandos. O Universo Ufes entrevistou sete deles para saber como enxergam a deliberação do conselho.

Matheus Mathias cursa o segundo período de História e iniciou sua graduação no modelo Earte. A adoção do ensino híbrido é visto com otimismo pelo aluno. Porém, ele admite que se trata de um ponto de vista pessoal, baseado em suas vivências.

“Eu acho que o ensino híbrido é muito válido, principalmente pela vacinação do Espírito Santo estar progredindo muito bem. Caso estejamos num patamar satisfatório de vacinação, sou totalmente a favor do ensino híbrido e até do presencial. Essa decisão não afetará muito minha rotina, pois moro num local de fácil locomoção até a universidade. Confesso que estou esperando bastante essa volta. Mas digo tudo isso por mim porque sei que há pessoas que não têm os mesmos privilégios”, pondera.

“Antes de ser adotado este modelo, sempre pensei na universidade como um lugar de encontro de diferentes lugares e classes”, relata Lázaro Freire.

O estudante de Serviço Social Lázaro Freire, cuja fala abriu esta reportagem, também é favorável à decisão. A transição gradual é o aspecto que mais o agrada na nova fase do plano de contingência que entrará em vigor.

“O modelo híbrido pode servir como uma passagem mais segura do momento em que estamos para as aulas presenciais, visto que muitos começaram a graduação nesse modelo e podem ser prejudicados com a volta repentina de aulas 100% presenciais”, argumenta.

A estudante do segundo período de Filosofia Rebecca Amorim Mendes é outra discente que concorda com o retorno de algumas atividades presenciais. Com o avanço da imunização dos jovens contra a Covid-19 no Espírito Santo e em outros estados, a aluna defende uma transição planejada para não afetar graduandos que residem longe dos campi da Ufes.

“Antes da pandemia, minha expectativa para o início da vida acadêmica era
a vivência real do ensino superior. Poder desfrutar dos espaços da Ufes, a exemplo da Biblioteca Central”, destaca
Rebecca Amorim

“A partir do próximo semestre eu acredito que todos estejam vacinados, ou pelo menos deveriam estar. Eu sou a favor da volta [das aulas presenciais]. Claro, desde que com medidas de segurança. Mas eu acho que isso deveria ser bem planejado, não pode ser algo como ‘ai, vamos voltar’, e depois resolvem que não dá mais, porque a Ufes abriga alunos de vários lugares”, defende. “Eu, por exemplo, não moro na capital, então preciso me deslocar e mudar de moradia para conseguir assistir as aulas presenciais”, completa.

O planejamento e anúncio antecipado do retorno das atividades presenciais também são úteis para Cristiana Carneiro Breda que, no momento, está passando uma temporada em Portugal, próxima da família. Atualmente, Breda cursa o bacharelado em Química na Ufes, e anseia por estar em uma sala de aula que não seja virtual. Por isso, concorda com a escolha do ensino híbrido pela universidade ao invés de um completamente presencial.

“Todos sentimos falta de estar presencialmente em uma sala de aula e um ambiente apropriado para o estudo, mas só apoio a volta às aulas presenciais das matérias práticas que não são possíveis de se fazer em casa. Caso houvesse a volta total das aulas presenciais, eu teria que retornar para Vitória e reorganizar toda a minha rotina atual”, explica a jovem.

Para Lívia Guerson Peixoto, que agora cursa o primeiro período de Jornalismo, a empolgação com o novo modelo de ensino não é grande. Por não residir próximo ao campus de Goiabeiras, uma mudança efetiva em sua rotina só acontecerá quando os períodos iniciais de cursos de graduação também forem contemplados pelo ensino híbrido.

“A minha expectativa sobre a transição para o ensino híbrido não é muito alta, na verdade, mas gostaria que fosse. Eu não me sinto muito animada, já que vai demorar um pouco pra me atingir, porque no momento estou no primeiro período.  Se por algum motivo alguma disciplina que eu possa fazer seja ofertada presencialmente, isso mudaria minha rotina porque eu teria que mudar de cidade”, relata.

A graduanda do primeiro período de Publicidade e Propaganda Melissa Daltio compartilha do sentimento de desânimo em relação à nova fase de ensino. “Por não estar muito animada e não sentir a necessidade de atividades presenciais, pelo menos no meu período, não sei se o ensino híbrido será 100% necessário. Mas essa é a minha opinião. Sei que muitos amigos estão com dificuldades e, para eles, o ensino híbrido é um respiro”, avalia.

“Eu pude perceber a diferença nesse acolhimento dos estudantes, dos calouros… Foi tudo bem diferente remotamente”, ressalta 
Maria Fernanda.

Também há graduandos de períodos iniciais que, mesmo não impactados pelo modelo híbrido da Ufes, estão entusiasmados com a chegada de um novo ciclo de  aprendizados e experiências universitárias. É o caso de Maria Fernanda Ruy Bobbio, estudante de terapia ocupacional. A troca das telas pelo campus é um momento aguardado pela aluna.

“Agora eu estou no segundo período do meu curso, sem ter ido uma única vez ao campus, sem ter conhecido meus colegas e professores. Estou muito animada pela possibilidade do ensino híbrido, pois é especialmente importante para nós, da área da saúde. Perdemos muita coisa não tendo esse contato presencial com a nossa futura profissão”, defende.

Perdas e ganhos do Earte 

As opiniões favoráveis à transição para o modelo híbrido se apoiam em insatisfações geradas pelo Earte. Entre os maiores desafios citados pelos estudantes, são constantes as queixas relacionadas à baixa qualidade da conexão, afetando o aproveitamento das aulas.

Para Cristiana Breda, a instabilidade tecnológica que enfrenta é um desafio que se soma à  perda do aprendizado derivado  do contato presencial com professores e alunos: “Essa experiência tem sido desafiadora, pois nos exige muito foco, já que não estamos em um ambiente propício para estudo e temos pouca interação com os professores e os colegas de curso. Além disso, assistir uma aula no computador é bem diferente do ensino presencial. A internet falha muitas vezes  e ficamos sem a explicação do professor, logo, nos perdemos no entendimento da matéria”, conta.

A ausência da troca entre professores e alunos nos corredores dos campi também é um prejuízo citado por Lívia Peixoto, que considera o ensino remoto “robótico e sem muito envolvimento emocional ou afetivo”. A estudante também destaca o uso excessivo de telas como um fator que trouxe desafios a mais na experiência universitária:  “Tudo tem que ser entregue pelo computador – os trabalhos e as aulas – e isso significa muito tempo olhando para a tela. Isso está causando, pelo menos a mim, consequências físicas. Não tem um dia em que o meu olho não está ardendo quando chega a noite, com dor nos olhos e também nas costas por ficar sentada tanto tempo. Então, além de me afetar mentalmente, também afeta  fisicamente”.

A mudança abrupta para o meio virtual exigiu de professores a adaptação pedagógica para essa nova realidade, migração que Matheus Mathias considera ter sido mal sucedida. “Já havia conversado com veteranos que disseram  coisas do tipo ‘o curso é muito bom, porém, o Earte o estragou completamente’ e não discordo disso. As aulas têm sido muito ruins de acompanhar: muitos professores com didáticas ruins, aulas muito extensas e sem material para acompanhar (slides por exemplo), trabalhos mal-explicados e mal distribuídos pelo período, fora muitas aulas que são péssimas de se ter no modelo EAD. Sinto como se não estivesse absorvendo muita coisa e isso me preocupa muito a respeito do meu futuro como profissional”. 

“A comunidade acadêmica têm sido bem solícita ao acolher os ingressantes, principalmente os profissionais”, declara
Melissa Daltio.

Por outro lado, há quem veja vantagens no atual modelo de ensino remoto pela comodidade. “Minhas expectativas para iniciar uma graduação no modelo híbrido não estão muito altas. O ensino remoto tem sido bom para mim. Não que eu esteja muito empenhada, mas se eu tivesse que me deslocar, ir até a Ufes, pegar ônibus e etc, provavelmente eu estaria bem cansada e não daria conta de fazer tudo que eu preciso”, confessa Melissa Daltio.

Outro fator positivo encarado por Peixoto, é o potencial que o ensino remoto têm de possibilitar participações nas aulas que não aconteceriam no formato presencial.  “Acho que incentiva  mais os professores a buscarem contato com pessoas de fora, de outras cidades e lugares para poder ir à aula dar algum tipo de pronunciamento. Eu tive aulas em que foi feito isso, com jornalistas famosos ou de renome que a gente via em algum documentário ou estudávamos nas aulas aparecendo e fazendo parte da aula”, aponta a estudante.

Como a universidade se saiu? 

Pouco mais de um ano com o Earte implementado e prestes ao retorno gradual do que existia antes da Covid-19, as decisões tomadas até aqui pela Ufes são consideradas assertivas pela maior parte dos entrevistados. Para a estudante de Terapia Ocupacional Maria Fernanda Bobbio, o  fato do modelo híbrido estar sendo efetivado no momento de avanço da vacinação na população jovem é visto como um gesto que preza pelo bem-estar e saúde de alunos e servidores. 

“Sempre pensei na universidade enquanto espaço de contato com as pessoas; de entrar em projetos e todo tipo de reunião e dinâmica presencial que o online não permite”, pondera Lívia Peixoto.

A estudante de Jornalismo Lívia Peixoto compartilha uma visão semelhante e acredita que “está sendo levado em consideração o que é melhor para os alunos”. “Eu acho que são decisões muito difíceis, tanto a de voltar [presencial] quanto de não voltar seria pensando no melhor dos alunos. O colegiado do meu curso sempre diz sobre como eles decidem as coisas pensando no melhor para o ensino, na qualidade, e por conta disso eles escolhem quais matérias vão ser presenciais ou deixadas para serem ofertadas depois e quais tem como ser online, pensando na qualidade”, expressa Peixoto.

Considerando a capacidade de inclusão da universidade às necessidades distintas dos estudantes, Lázaro Freire julga que “a Ufes não compreendeu que diversos alunos vêm de realidades muito diferentes e, no momento de pandemia, essas diferenças se tornaram grandes e o maior empecilho para a implementação desse modelo”.

Para Bobbio, alunos que residem em municípios distantes são especialmente prejudicados pelo entrave na comunicação das tomadas de decisões pela Ufes. Particularmente, ela considera que o departamento de seu curso falha em transmitir as deliberações: 

“Eu tenho percebido, pelo menos no caso do meu departamento de TO [Terapia Ocupacional], e também de alguns do campo do CCS [Centro de Ciências da Saúde], tem falhado um pouco nessa comunicação conosco. As informações sobre qual vai ser a real situação não chegam  prontamente e eu acho que as coisas estão acontecendo muito por debaixo dos panos. Essas informações não estão sendo muito bem divulgadas. Normalmente, isso acontece pouco tempo antes da matrícula ou do período começar. Então, é um pouco complicado para nos organizarmos  em relação à  questão da adoção ou não do modelo híbrido, principalmente para as pessoas que moram em outras cidades”.

Já em outros departamentos, o diálogo parece ser satisfatório. Apesar de considerar arbitrárias algumas decisões da Ufes, Freire concorda que tem “acompanhado o debate acerca das novas diretrizes”.

“Posso dizer que o departamento de Serviço Social leva em consideração a opinião dos graduandos e nos inclui no debate sobre o futuro das aulas”, admite.

Os canais oficiais de comunicação da universidades e dos diretórios acadêmicos têm suprido as dúvidas do estudante de História Matheus Mathias, que costuma “acompanhar bem de perto o que está sendo divulgado”. Ele explica que as informações circulam pelos grupos aos quais pertence e que faz uso das redes sociais, seguindo o Instragam do Diretório Central dos Estudantes (DCE) e da Ufes, além de ter o costume de “sempre checar os e-mails para ficar de olho nas atualizações”.

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