“A conta não fecha”: o desafio das aulas presenciais para as estudantes que têm filhos

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Se para alguns alunos o Earte se tornou desgastante, para as mulheres que cumprem o papel de mãe, o ensino remoto foi um alívio na rotina sobrecarregada.

Por Esther Mendes e Noélia Lopes

“A conta nunca vai fechar, alguma coisa sempre vai ficar em falta. E hoje, sendo sincera, o que está em falta é a faculdade”, disse a estudante de jornalismo e mãe da Mahina, Rayla Corrêa/ Foto:Tatiana Syrikova/Pexels

Com a adoção do ensino híbrido pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), estudantes que são mães e têm a responsabilidade de sustentar os filhos, estão preocupadas com a volta às aulas presenciais.

Desde a suspensão das aulas presenciais em março de 2020, a discussão para  a adoção do ensino híbrido está presente na Universidade. No entanto, a aprovação do parecer da Comissão de Legislação e Normas pelo Conselho Universitário só foi dada no dia 3 de setembro. E o retorno das aulas presenciais para as disciplinas práticas e laboratoriais está previsto para o dia 3 de novembro deste ano. 

Para muitos alunos, a decisão do Conselho Universitário é motivo de comemoração, pois consideram que no ensino remoto o rendimento não foi satisfatório e o desgaste foi grande. Contudo, para as mulheres que além de estudarem, também cuidam de filhos e cumprem com outras obrigações de casa e trabalho, foi a oportunidade de adiantar disciplinas que ficaram pendentes por conta da rotina intensa. 

“Durante a minha licença maternidade tentei conciliar, mas eu descobri na prática que é mais difícil do que parece”, declarou a estudante de Artes Plásticas Jaqueline Pimenta, que precisou trancar o curso antes da pandemia, durante a gestação da Maria, de 1 ano e 4 meses. 

Com apenas duas disciplinas para finalizar o curso, Pimenta aproveitou o início das aulas remotas, para dar continuidade em pelo menos uma delas. “Eu só consegui voltar a fazer  porque está remoto”, afirmou. 

“Se fosse presencial,seria inviável para mim” desabafou Jaqueline Pimenta.

Para a estudante de jornalismo Rayla Corrêa, mãe da Mahina, de 11 meses, o modelo remoto foi determinante para que ela continuasse a fazer as matérias do curso, após o nascimento da filha. “Se continuasse no presencial, eu ia cursar o máximo que eu conseguisse como gestante, mas como entrou no modelo de ensino à distância, decidi continuar. Foi bom para mim, por conta da minha filha pequena”.

Com a implantação do ensino híbrido, Côrrea não tem certeza se dará continuidade ao curso com a filha pequena. “Eu não sei o que eu vou fazer, porque não tem como levá-la para a faculdade. Isso está fora de cogitação”, desabafou. 

“Com quem eu vou deixar essa criança?” – Rayla Corrêa

Côrrea e Pimenta afirmam que as prioridades mudam com o nascimento dos filhos e a faculdade acaba ficando em segundo ou terceiro plano. E não precisar sair de casa para realizar as aulas têm ajudado, pois conseguem dar atenção às necessidades dos filhos, ao mesmo tempo que acompanham os professores do outro lado da tela. 

Mas, ainda assim é um desafio. “Ás vezes meu marido toma conta dela, mas ele tem que sair para o trabalho e eu ficava tentando revezar aula online, com a filha, é difícil”, afirmou a mãe da Maria.

Rayla Côrrea ainda ironiza a vida intensa e exaustiva que as mães têm, marcada por uma rotina corrida que impõe escolhas entre fazer uma coisa ou outra:

“Vida de mãe é assim, se o suvaco está depilado, a perna está cabeluda. Se o cabelo está feito, meu amor, não queira olhar o resto das coisas. Se a gente almoçar, a gente não vai jantar.  É assim que funciona. É um olho no computador, um olho em outra coisa, e um olho na menina que quer desmontar a casa, pular pela janela, cortar o vestido.” – Rayla Côrrea

Criado com a finalidade de oferecer atendimento em creche aos dependentes dos servidores e alunos, o Centro de Educação Infantil Criarte na Ufes é uma possível saída para as mães de crianças entre 2 a 5 anos de idade. Contudo, com o ensino híbrido, para as estudantes que possuem filhos com idade inferior, ainda há dificuldades de encontrar creches públicas que fiquem com as crianças para que essas mães trabalhem e estudem.

Corpo é levado à exaustão

Outra questão que permeia a situação de muitas mães é a falta de uma rede de apoio que ajude na rotina, o que leva ao desgaste físico e emocional.  A psicóloga Lorena Schettino explica que isso pode afetar a saúde mental dessas mulheres.  

“Aqui a gente está falando de uma situação em que o corpo físico é levado a uma exaustão, por causa da quantidade de horas trabalhadas que vai ser superior à quantidade recomendável para manter um equilíbrio da nossa saúde como um todo. E claro que essa exaustão físico-mental vai ter um peso na saúde mental dessa mulher.”

Schettino também apontou algumas manifestações desse abalo psicológico que as mulheres podem vir a ter em consequência da sobrecarga de trabalho. Arte: Esther Mendes

Algumas práticas, segundo Schettino para tornar o processo mais leve, principalmente com a volta das aulas presenciais, é manter uma rotina adequada de alimentação e fazer técnicas de respiração e meditação alinhados a um tratamento profissional. 

A psicóloga ainda reforça a necessidade de repensar e desconstruir a tendência que a sociedade tem de cobrar muito da mulher e oferecer pontos de apoio frágeis ou, até mesmo, nem oferecer:

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