Vacinação contra a Covid-19 divide posicionamento de influenciadores capixabas

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Por André Afonso, Isadora Wandenkolk, Júllia Cássia e Síntia Ott

Mesmo com a maioria indo às redes compartilhar a satisfação de se vacinar, o tema não é mencionado no feed do Instagram por alguns influenciadores do estado.

Crédito: CNS photo – Lucas Landau, Reuters

No momento em que a campanha de vacinação no Espírito Santo atinge o seu momento mais eufórico e alcança os jovens, redes sociais observaram um crescimento nas postagens que celebram a tão esperada chegada da imunização contra a Covid-19. O Universo Ufes monitorou o Instagram de 40 perfis famosos no estado e, dos produtores de conteúdo que foram analisados no levantamento, 22 publicaram e utilizaram os termos “vacina”, “vacinada”, “vacinado” ou “vacinação’‘ e as hashtags #vacinasim, #vacinaparatodos ou #vacinajá em suas postagens no feed do Instagram desde março de 2020 até este mês de agosto. 

Ao visitar esses 22 perfis, é possível conferir que falar sobre a vacina tem gerado engajamento e se mostrado popular, o que reflete a adesão da população à campanha. Ao mesmo tempo, 18 perfis famosos no estado não mencionaram os termos alusivos à vacinação em suas postagens no período analisado. A equipe do Universo Ufes entrou em contato com todos esses influenciadores para averiguar os motivos pelos quais não realizaram postagens a respeito no feed do Instagram. Três responderam, explicando que haviam mencionado assuntos relacionados à vacina contra a Covid-19 somente nos stories. Abaixo, confira a relação de influenciadores que mencionaram ou não os termos pesquisados.

O perfil de Priscila Porto no Instagram reúne mais de 15 mil seguidores interessados em seu lifestyle.  A influenciadora, que também é empresária, embora tenha tomado a primeira dose da vacina recentemente, é uma das pessoas que optaram por não se posicionar a respeito dos desdobramentos da pandemia, o que inclui a vacinação contra a Covid-19. “Está havendo praticamente uma guerra política sobre a vacina. Então eu não gosto de me expor muito sobre isso, até porque eu tenho uma empresa, lojas e vários clientes – metade da direita e metade da esquerda. É muito complicado, por isso prefiro não opinar”, explica a empresária.

Giovana Duarte é a pessoa por trás do perfil Guia Capixaba (@guiacapixaba), que aborda os temas de turismo e gastronomia no Espírito Santo. Com 53,7 mil seguidores no Instagram, ela se posiciona a favor da vacina e expressa que, além dos cuidados básicos, “a vacina é importante para que possamos ver o fim próximo dessa pandemia”. 

“Eu acredito que, se influencio pessoas a consumirem, a conhecerem mais do Espírito Santo e a terem fé, preciso também influenciar sobre a importância da vacina. A imunização coletiva é o que nos garantirá o retorno da nossa vida como era, ainda que com alguns ajustes”, afirma Giovana.

Minha responsabilidade é grande e pode conscientizar quem ainda tem medo de tomar a vacina ou não se sente confiante”.

Giovana Duarte, administradora do perfil @GuiaCapixaba.
No perfil @guiacapixaba, Giovana Duarte compartilha com seu público no Instagram momento em que é vacinada. Confira a postagem: https://www.instagram.com/p/COAon9vpP0e/. Crédito: Arquivo pessoal.

Outra influenciadora capixaba que se posiciona a favor da vacinação é  Polyanna Vieira Polycarpo de Oliveira, ou apenas Poly, como é conhecida. No Instagram (@polypolycarpo), Poly mostra o dia a dia da maternidade real para seus mais de 21 mil seguidores. A empresária relata acreditar que a ciência é o único caminho para que esse período pandêmico seja superado: “como influenciadora, meu papel é me posicionar e defender o que acredito. E acredito na ciência!”

A influenciadora Polyanna Vieira Polycarpo de Oliveira, dona do perfil @polypolycarpo, publicou vídeo em que aparece sendo vacinada, segurando sua filha no colo. Confira: https://www.instagram.com/p/CQlxgYCjAdV/. Crédito: arquivo pessoal.

Para a jornalista especializada em comunicação digital, Jacqueline Lafloufa, autora do artigo “Influenciadores digitais: uma jornada”, quanto mais alinhada a produção de conteúdo for com os valores de cada influenciador, mais autêntica e capaz de influenciar verdadeiramente essa produção será.

Lafloufa afirma que, apesar de custar alguns seguidores, posicionar-se de acordo com valores pessoais torna o conteúdo mais verdadeiro e, inclusive, qualifica de forma seletiva os seguidores que decidem acompanhar o influenciador. “Ter valores e se posicionar conforme eles traz mais autenticidade para o trabalho de um influenciador digital, o que por consequência acaba fazendo com que ele se conecte de formas mais intensas com seu público, aumentando seu poder de ‘persuasão’, por assim dizer, exatamente pelo fato de gerar uma maior identificação”, argumenta a jornalista.

Entre o engajamento e a responsabilidade

Além da pandemia, o Brasil enfrenta hoje uma infodemia, ou seja, um excesso de informações circulando, nem sempre verdadeiras, e que têm prejudicado em vários níveis os esforços de combate à Covid-19. Como consequência, um problema expressivo enfrentado é a desinformação a respeito da vacinação, que incita uma parte da população a recusar o tratamento correto contra o novo coronavírus. 

Com a migração do cotidiano para o mundo virtual, devido ao isolamento social, o papel de influenciadores digitais têm sido cada vez mais cobrado e questionado pelo público. O avanço das agendas de vacinação pelo país têm estimulado internautas a cobrarem de forma mais intensa posicionamento e responsabilidade por parte dos produtores de conteúdo. 

Para o especialista em mídias sociais Edney Souza, todo indivíduo de uma sociedade tem responsabilidade social para com o todo, independente da quantidade de seguidores. No caso dos influenciadores digitais, o especialista explica que, mesmo sem conhecer profundamente a pessoa por trás da tela, a audiência cria uma identificação por conta da similaridade de hábitos e opiniões. “Além de ter cuidado extra com o que divulga, o mesmo deve ser responsabilizado por induzir pessoas ao não cumprimento de normas e deveres da sociedade”, analisa Souza. 

Lafloufa reafirma a responsabilidade de produtores de conteúdo em um período de infodemia. Segundo a especialista, há uma necessidade de se tomar cuidado ao passar adiante recomendações e sugestões nas redes sociais, sobretudo quando se trata de pessoas com alto alcance de conteúdo. 

“Existe um componente muito sério quando se entende que há a capacidade de influenciar comportamentos – não só de compra, que são os mais comuns, mas também de outros tipos de atitude. Imagine, por exemplo, um influenciador de conteúdo de finanças, ou um influenciador da área da saúde: a capacidade de influência pode impactar profundamente a vida, financeira ou de saúde, do público alcançado”, observa Lafloufa.

Em sua conta no Instagram (@rockthistown_), Aline Zanardo, que já recebeu a primeira dose da vacina, fala para seus 45,3 mil seguidores sobre lugares e restaurantes para se conhecer no Espírito Santo. Mas, para além disso, a criadora de conteúdo procura enfatizar a importância da ciência, se posicionando a favor da vacina. “Acho de extrema importância, diante do descaso na resposta às mortes por Covid-19, fazermos campanha para que as pessoas se vacinem. Existe muita informação falsa e ignorante em relação à vacinação”, comenta Zanardo.

No perfil @rockthistown_, Aline Zanardo postou uma foto em que aparece sendo vacinada contra a Covid-19, incentivando seu público a fazer o mesmo. Veja a publicação: https://www.instagram.com/p/CRcP-XZMJ5-/. Crédito: arquivo pessoal.

“Se omitir é também se posicionar. Acredito que o bem coletivo é mais importante que a preocupação com likes e inclusive um desperdício do poder que a influência nos gera. Podemos usá-lo para sempre conscientizar nosso público”

Polyanna de Oliveira (poly), administradora do perfil @@polypolycarpo

A influenciadora diz entender que, dependendo do tema abordado no perfil, é compreensível que muitos optem por não falar sempre de determinados assuntos. No entanto, ela também acredita que é importante se posicionar em temas como este, mesmo que em menor frequência. “Nesse caso, acho que temos responsabilidade em defender algo que é um ato coletivo, que nos beneficia como sociedade. Não falar é apoiar quem não entendeu a importância da vacinação”, pontua. 

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