Morte de Tarcísio Meira provoca mais dúvidas em torno da vacina contra a Covid-19

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Ao constatarem que o ator já havia tomado as duas doses, capixabas demonstram medo de tomar a vacina

Por Eduarda Moro

Após a internação dos apresentadores Silvio Santos (90) e Ana Maria Braga (72), e do cantor Zeca Pagodinho (62), testados positivos para a Covid-19, mais uma notícia fomentou dúvidas e incertezas nas mídias sociais em relação às vacinas. O ator Tarcísio Meira, galã e um dos ícones da história da televisão brasileira, morreu aos 85 anos, na manhã de 12 de agosto de 2021, vítima do agravamento dos sintomas causados pelo novo coronavírus. Internautas de todo o país lamentaram a perda; outros, só conseguiam pensar: se ele já havia tomado as duas doses da vacina, como ele se infectou e teve complicações fatais?

Tarcísio Meira na novela Irmãos Coragem (1970), da Rede Globo, em um dos papéis mais marcantes da carreira. Foto: Reprodução/TV Brasil

O Universo Ufes monitorou a postagem no Facebook de maior engajamento nos três dias posteriores à morte de Tarcísio Meira para saber o que os capixabas andam falando. O post foi feito pelo perfil oficial do jornal A Gazeta na quinta-feira (12/08), às 13:45. Foram analisados os comentários mais relevantes da publicação, conforme o filtro da plataforma, totalizando 129 comentários. Quase 36% deles mostram inseguranças dos internautas e cerca de 20% reproduzem notícias falsas relacionadas às vacinas contra a Covid-19.

Até o fechamento desta reportagem, o post tinha 912 curtidas, 534 reações de “Triste”, 11 reações de “Força”, nove “Uau”, quatro “Haha” e dois “Amei”, com um total de mais de 1.400 reações, 412 comentários e 165 compartilhamentos.

Assim como a esposa, a atriz Glória Menezes, Tarcísio recebeu a segunda dose da vacina em março deste ano, em Porto Feliz, no interior de São Paulo. A marca da vacina não foi divulgada, porém, algumas pessoas especulam que foi a Coronavac, primeira vacina aprovada e aplicada no Brasil, o que reacendeu os burburinhos nas redes sociais em torno da aplicação de uma terceira dose do imunizante.

Ajuda, mas depende

Em 24% dos comentários, as pessoas demonstram consciência de que, embora a vacina proteja, ela não impede todos os casos de infecção da doença. Esses usuários culpam as aglomerações pela continuação das mortes decorrentes do coronavírus e compreendem que existem variáveis que trazem mais risco de infecção e morte, mesmo após as duas doses. Muitos lembraram que o ator tinha uma idade avançada e sofria com comorbidades preexistentes.

Imagem capturada em 19 de agosto de 2021.

Coronavac não vale nada

Quase 36% dos comentários dos leitores de A Gazeta denunciaram que ainda existe um grupo de pessoas no Estado que sente insegurança, receio e até medo da vacina, pois esses internautas acreditam que elas não são imunizantes e ainda são um mistério. 

Dos 64 comentários descrentes do poder da vacina, dez (7,75%) criticam especificamente a Coronavac. Esses usuários responsabilizam a morte de Tarcísio pela falta de eficácia da vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. Popularmente chamada de ‘VaChina’ ou ‘vacina do Dória’, referência ao governador de São Paulo, a Coronavac foi colocada em xeque diversas vezes em comparação às demais vacinas, como a AstraZeneca e a Pfizer.

Imagens capturadas em 19 de agosto de 2021.

A professora de Epidemiologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Ethel Maciel reforça que não é possível saber qual vacina o ator tomou. Entretanto, “em breve, a terceira dose será necessária para as pessoas idosas e pessoas com doenças que diminuem a resposta imunológica, como doenças renais, pacientes transplantados e os que fazem tratamento contra o câncer”.

Para descobrir a eficácia de cada vacina disponível, os cientistas e as empresas farmacêuticas por trás dos imunizantes vêm desenvolvendo uma série incansável de estudos. Apesar das divergências entre as pesquisas, nos Estados Unidos, por exemplo, mesmo com a variante Delta, foi constatado que a internação e o agravamento da doença acontecem em 99,5% dos casos em pessoas não vacinadas.

As chances de contaminação e de complicações da infecção variam de acordo com alguns fatores, como idade, doenças preexistentes e nível de imunidade no momento da exposição ao vírus. Por esse motivo, os especialistas reforçam ser importante continuar com outros cuidados essenciais, como distanciamento social, higienização das mãos e uso de máscaras, além da vacinação completa.

A docente também alertou que as pessoas que tomaram só uma dose da vacina tem uma proteção em torno de apenas 30%, por isso é importante tomar a segunda dose para conferir o esquema vacinal completo. Ainda completou que “as vacinas salvam vidas. Podemos confiar nelas!”.

Ao analisar os comentários, o Universo Ufes também verificou que quase 14% das pessoas usam questões religiosas e valores cristãos para justificar o motivo pelo qual não concordam com a aplicação em massa da vacina, usando trechos retirados de livros da Bíblia ou afirmando que só Deus é capaz de salvar.

Outro comportamento observado é que 3,1% dos comentários defendem abertamente a gestão e a postura negacionista do presidente Jair Bolsonaro diante do tratamento preventivo da doença.

Já a professora de Jornalismo da Universidade de Vila Velha (UVV) e doutoranda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcela Tessarolo, afirma que o medo reduz a potência de agir da pessoa. “Uma das primeiras narrativas da Covid-19 mostra o medo que as pessoas têm do desconhecido e do estrangeiro”, lembrou a docente do sentimento anti-China que os brasileiros tinham no início da pandemia. 

Discursos antivacina 

Outros internautas defendem que os brasileiros estão sendo feitos de cobaias dessas vacinas compostas por água. No Facebook, há registros de postagens de capixabas que se posicionam vigorosamente contra a imunização por vacina durante a pandemia da Covid-19.

Imagem capturada em 19 de agosto de 2021.

Na avaliação de Tessarolo, é possível observar tentativas de desencorajamento do plano de imunização no Estado nas plataformas digitais, principalmente por meio da propagação de discursos baseados em fake news, visto que criam medo e contribuem para a divulgação de teorias da conspiração relacionadas às vacinas.

Atualmente, qualquer pessoa com acesso às mídias sociais pode criar, curtir e compartilhar narrativas, e ter um papel ativo no processo comunicacional. “Saímos de um modelo que as grandes corporações midiáticas informavam uma massa de audiência. Hoje, elas são apenas mais um dos atores atuando nessa ambiência circular da mídia”, complementa.

“Ao mesmo tempo que as ferramentas de produção de conteúdo foram democratizadas, elas também potencializaram a propagação de desinformação”, afirma a professora Marcela Tessarolo.

Imagem capturada em 19 de agosto de 2021.

Ainda de acordo com a docente, a confirmação da veracidade vem após a publicação do fato. Ela explica que esse “filtro social” funciona quando as pessoas comentam, curtem e dizem se concordam ou não com algum assunto discutido na Internet. Dessa forma, dependendo de como as narrativas afetam as pessoas que as recebem, a divulgação de notícias falsas pode ser um cenário perigoso para o plano de imunização no Estado do Espírito Santo.

Imagem capturada em 19 de agosto de 2021.

Diante da forte tentativa de deslegitimar a imprensa e as instituições democráticas, “as pessoas terão de ter um letramento digital para entender que as informações que aparecem no feed são os conteúdos que curtimos, e não necessariamente a verdade”, finaliza.

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