“Vacina no braço, comida no prato”: ato reivindica impeachment de Bolsonaro em Vitória

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A conduta da pandemia da Covid-19 e os cortes de gastos das universidades federais estão entre as motivações

Por: Gabriela Brito, João Vitor Castro, Marcus Vinícius Reis e Newton Assis

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Carros de som, bandeiras, uma fila quilométrica de carros e gritos de “Fora Bolsonaro”. Essas eram as avenidas Fernando Ferrari e Nossa Senhora da Penha, em Vitória, no último dia 19, quando partidos políticos, centrais sindicais e movimentos estudantis se manifestaram pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

O ato, popularizado como 19J, faz parte de um movimento nacional que se posiciona a favor da vacinação e reclama o descaso do governo federal na conduta da pandemia da Covid-19. O protesto foi reforçado pela marca de meio milhão de brasileiros que vieram a óbito, atingida no mesmo dia da manifestação.

Na capital, os manifestantes se concentraram no Teatro da UFES por volta das 15h, e seguiram até a Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales). Também foram registrados atos em cidades do interior do Espírito Santo, como Cachoeiro de Itapemirim, Colatina, São Mateus e Nova Venécia.

Os manifestantes marcharam da Ufes (ponto A) principalmente pela Reta da Penha até a Assembleia Legislativa do Espírito Santo (ponto B). Infográfico: Vinícius Reis

“Vacina no braço, comida no prato e Fora Bolsonaro” 

A principal demanda dessa onda de manifestações é o ‘Fora Bolsonaro’. É o que apontou o deputado federal Helder Salomão (PT-ES). “Primeiro porque há, no Brasil, a negação da ciência, da vacina e da pandemia e o mau exemplo vem de cima. A prática genocida do governo e seus aliados, infelizmente, produziu a morte de 500 mil pessoas. Claro que nem todos foram por causa da vacina, mas pelo menos 50% das mortes poderiam ter sido evitadas”, protestou o petista. 

A vereadora de Vitória Camila Valadão (PSOL-ES) reforçou a fala de Salomão: “Como diz a convocada principal: ‘vacina no braço, comida no prato e o Fora Bolsonaro’. Esses são os eixos principais que é a reivindicação de vacinas”. Valadão destacou que acredita no impeachment de Bolsonaro. Mas, para isso, acordos dentro do Congresso Nacional não são suficientes. Faz-se necessária a mobilização social: “É só com a população na rua, é só com uma ampla mobilização popular de todo país”, finaliza.

Foto: Fernando Madeira (Fotojornalista)
Escute a entrevista com a enfermeira Laís, de 25 anos, que revela as motivações que a levaram a se manifestar:

Miguel Intra, membro da executiva do PT-ES, declarou que a movimentação é articulada por uma frente nacional de movimentos sociais desde o início de 2020, quando teve início a crise sanitária, através de panelaços e movimentações nas redes sociais. Já o ex-candidato à prefeitura de Vila Velha pela REDE, Rafael Primo, recém-filiado ao PT, destacou que se faz necessário, agora, mais do que uma frente ampla de esquerda, mas uma frente ampla democrática que defenda os valores e as instituições da democracia.

Apesar disso, o organizador Toni Gomes, membro da Intersindical e presidente do PSOL-ES, quando perguntado sobre o caráter político da manifestação, destacou que não se trata de apoiar a candidatura de algum partido, mas, ainda assim, a manifestação tem um viés progressista. “O caráter político é a vida do povo, e isso quer dizer ‘vacina no braço, comida no prato, não à PEC 32/2020, não aos cortes na educação, não ao corte na ciência”, declarou.

Atos contra o Governo Federal são realizados desde 2019 em todo país. Infográfico: Vinícius Reis

Governo mais perigoso que o vírus

Uma questão frequentemente levantada pelos que são contrários à manifestação é a suposta falta de segurança para ir às ruas no atual cenário de crise sanitária. Apesar do avanço na vacinação, o número de casos de Covid-19 e óbitos decorrentes da doença seguem expressivos. 

A vice-presidente da Juventude Socialista do Espírito Santo (PDT), Brenda Fontana, apontou que o partido apoia as manifestações, mas compreende as pessoas que não querem ir: “elas estão certas, pois estamos vivendo uma pandemia e quem é grupo de risco e não pode ou não quer ir para a rua tem todo o nosso respeito”.

O organizador Toni Gomes esclareceu que algumas ações foram realizadas antes da vacinação, como o Fórum Capixaba em Defesa da Vida dos Trabalhadores, que organizou manifestações no Espírito Santo. No entanto, Gomes alegou que a necessidade de ir às ruas neste momento tornou-se maior.

“As pessoas tiveram mais necessidade de ir para a rua porque elas viram seus parentes, seus amores, seus pais, seus filhos e seus irmãos morrerem e não teve uma reação do governo quanto a isso. Então a gente conseguiu aglutinar a população e vimos que teve uma adesão grande”, defendeu.

Foto: Raiaq Roos (Secretário de comunicação da JS-ES)

Quanto às medidas de segurança que foram adotadas para prevenção ao novo coronavírus,  Toni apontou a distribuição de máscaras PFF2 e álcool em gel. A equipe organizadora também pediu pelo distanciamento e providenciou faixas para que os manifestantes permanecessem separados.

A possibilidade da carreata também foi uma medida adotada neste último protesto aqui na capital. Os organizadores incentivam aqueles que não podem ou não querem ocupar as ruas a integrarem a marcha de dentro dos seus veículos.

Por meio das buzinas, os manifestantes que integraram a carreata mostraram-se presentes

Essa percepção de segurança também foi sentida pelos manifestantes. A artista e graduanda em Arquitetura Natália Tonon declarou que se sentiu tranquila no ato: “Todo mundo está bem afastado e de máscara”. O aposentado Marcos Cunha, de 64 anos, já vacinado com a primeira dose, disse que compartilha do mesmo sentimento. “Inclusive, sinto a disciplina das pessoas que estão seguindo”, declarou Cunha sobre as medidas.

Por outro lado, o pós-graduando Bernardo Bragato, de 24 anos, declarou que não sentiu tanta segurança: “Eu acho que é um risco calculado. Eu não me sinto 100% seguro”. Apesar disso, optou pela participação no ato por considerar que a atuação de Bolsonaro é mais perigosa que o novo coronavírus. 

Os atos do dia 19, popularizados como 19J, fizeram parte de um movimento que teve início no chamado 29M, realizado no dia 29 de maio. Outras manifestações, com as mesmas demandas e características, estão marcadas para o dia 3 de julho. Os protestos também irão considerar as suspeitas de irregularidades na compra da vacina indiana Covaxin.

Agenda de cortes

Um dos estopins para o ato do dia 19 na capital capixaba é a agenda de cortes orçamentários que a Ufes tem passado, assim como outras 68 instituições federais pelo país. Em maio, a universidade anunciou a possibilidade de fechar as portas por conta dos bloqueios no orçamento, calculados em cerca de R $18,4 milhões.

Em junho, segundo o pró-reitor de Assuntos Estudantis e Cidadania da Ufes, Gustavo Forde, os cortes no orçamento da universidade vão refletir num desfalque de 18,3% nos recursos destinados à assistência estudantil. Esses auxílios ajudam a custear o transporte, a moradia e os materiais de estudantes de baixa renda familiar.

No entanto, as reduções das verbas vêm sendo advertidas desde março pelos Conselhos Superiores da Ufes. Em sessão aberta, o reitor Paulo Vargas relembra que, somados às reduções iniciadas em 2019, os novos cortes afetam um total de 25% do orçamento livre da universidade.

Com base nisso, o organizador do ato Toni Gomes ressalta que os cortes na educação superior sempre motivam convocações para atos nas ruas. Para ele, o governo federal age de forma equivocada em relação aos cortes na ciência e aos estímulos à iniciação científica, a exemplo da falta de bolsas de estudo oferecidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Gomes também destaca que os cortes desmedidos nas instituições federais refletem a insuficiência de estudos e iniciativas científicas para a criação de vacinas originalmente brasileiras.

“A gente não tem um estudo de impacto para combater o coronavírus. A tal vacina brasileira não existe, factoide. Se nós tivéssemos investido muito mais em educação, na educação básica, universitária e na pesquisa, com certeza hoje o Brasil seria um dos líderes da vacinação”, declara o organizador.

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