Universidade e inclusão: os caminhos para um ensino mais acessível

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Fonte: Reprodução/Freepik

Os desafios do ensino remoto reacendem o debate sobre acessibilidade.

Por Daniela Salgado, Dirlan Junior, Izabela Toscano e José Tarcísio Ribeiro

“A dificuldade que eu mais enfrento é a falta de empatia. E isso se perpetuou no ensino remoto”. A declaração é da estudante do sétimo período de pedagogia, Geovana Maria dos Santos, de 45 anos. Com a adesão do Ensino-aprendizagem remoto temporário e emergencial (EARTE), a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) passou a se preocupar menos com as barreiras arquitetônicas e mais com a acessibilidade digital. 

Por ser cega, Geovana diz que durante o ensino remoto começou a utilizar com mais frequência o assistente de voz do computador e um programa próprio chamado NVDA (NonVisual Desktop Access), uma plataforma de leitura de tela que facilita o acesso ao sistema operacional Windows. Ela conta que a universidade ofereceu o auxílio digital e de acessibilidade, mas nem sempre os aparatos tecnológicos são suficientes.

Para Geovana, as dificuldades encontradas no ensino presencial se mantiveram no EARTE.

“Muitas vezes eu preciso da ajuda dos monitores para acompanhamento. Infelizmente  existem colegas e professores que não estão preparados para receber alguém com deficiência na sala. Já teve professor que disponibilizou como tarefa assistir um filme em alemão legendado. Como fica a minha situação neste caso?”, questiona Geovana.

Outros universitários encontram dificuldades ao encontrar um ambiente que não é preparado, na maior parte, para recebê-los. Samuel Martins, estudante de ciências sociais na UFES, possui deficiência intelectual. Assim como Geovana, Martins conta que, quando alguém com deficiência ingressa na universidade, é disponibilizado um(a) monitor(a) para auxiliá-lo: “Isso a UFES nunca tirou da gente. Só que quando começou o EARTE, a dificuldade passou a ser a matrícula, que no final sempre sai como ‘’rejeitado por falta de vagas’’, explica Martins. 

Indignados, Samuel e sua mãe postaram um vídeo em sua rede social, relatando a mesmice de uma realidade vivenciada tanto no presencial quanto no online: a de rejeição. Graças a repercussão dos vídeos, o estudante conseguiu resolver sua situação. Além da constante rejeição nas matrículas, a qual é prioridade do aluno com deficiência, Samuel conta um pouco da sua experiência enquanto pessoa com uma deficiência invisível. “A minha maior dificuldade é em relação ao medo’’, pontua.

Em outro vídeo gravado pelo estudante, que também viralizou na internet pela falta de acessibilidade, é relatado um problema de comunicação durante uma aula no EARTE, onde ele não conseguia escutar o professor. Apesar do direito de ter um amparo instantâneo, Martins sentiu medo de continuar pedindo ajuda. “Eu tenho esse medo da pessoa não entender o meu jeito e brigar comigo. Tanto professor quanto aluno, tenho medo de não entenderem a gagueira, falar errado e distorcer totalmente o assunto’’, relata.

Samuel reforça que, apesar de sua deficiência não ser nítida visualmente, o seu ensino ‘’tem que ser totalmente diferente’’ e especializado, ressaltando o quesito preparo e acessibilidade nas universidades.

Já o estudante do 7º período de Publicidade e propaganda, Guilherme Destefani, não necessita de auxílio da universidade, mas entende que a implementação do ensino remoto não consegue contemplar efetivamente a comunidade discente: “Essa ansiedade de fazer a educação continuar acontecendo mesmo durante a pandemia está fazendo pessoas se formarem sem ter absorvido todo o conteúdo. Os professores [estão] sobrecarregados e os alunos, desinteressados. O EARTE não é eficaz!”. 

Para Alvaro Candotti, aluno do curso de administração, a adoção do ensino remoto até o beneficiou de certa forma. Candotti, que é cadeirante, conta que sua casa apresenta cômodos adaptados, coisa que ele carecia nos prédios da universidade. 

“A locomoção que eu tinha na UFES era um pouco precária: o chão estava desnivelado, havia uma única sala acessível no prédio do CCJE. Fizemos até um abaixo-assinado antes da pandemia para levar ao reitor. No EARTE essas preocupações se tornaram secundárias porque minha casa é preparada para a locomoção”, relata Álvaro.

Apesar disso, Candotti diz que se sente desconfortável com a falta de interação com outros professores e alunos durante o EARTE: “Acredito que de uma forma generalizada, todos os estudantes e professores estão enfrentando dificuldades. Para mim, especialmente, a situação da minha disponibilidade de estudar e realizar as tarefas fica um pouco a desejar”.

Para Álvaro, o ensino remoto permitiu que as dificuldades de mobilidade na Ufes ficassem em segundo plano.

Visando solucionar os impasses e lacunas acerca da acessibilidade foi criado em 2011 o NAUFES – Núcleo de Acessibilidade da UFES. No contexto institucional, o setor atende pessoas com deficiência e desenvolve mudanças significativas nesse período de pandemia e ensino remoto.

A coordenadora do NAUFES, Déborah Provetti, faz um balanço dos desafios enfrentados. Ela afirma que o ensino remoto teve poucas implicações no rendimento da maioria dos estudantes contemplados: “Os estudantes assistidos, estão participando das aulas no ensino remoto e a maioria, obtendo aprovação. Destaca-se o apoio fundamental dos monitores do Naufes”.

Sendo assim, as políticas de acessibilidade não se restringem a ação de um único setor ou só no âmbito da Administração Central. Na verdade, é uma política que deve ser abraçada por todos, em todos os segmentos: discentes, docentes e técnicos da Ufes. “Destacamos a importância também do acolhimento dos colegas de turma. Fazer o estudante com deficiência sentir-se parte da turma, incluído.” aponta Provetti.

Em números, o Núcleo de Acessibilidade atende uma listagem de 116 estudantes com deficiência com atendimento psicossocial ou outro tipo de orientação. No último ano, 21 solicitaram monitores de acompanhamento e/ou produção de algum tipo de material. 

Para Provetti, no ensino remoto ou presencial não há diferença na metodologia usada por parte do docente. Ela lembra que há diferentes formas de aprender,  seja o estudante com transtorno do espectro autista ou com transtornos funcionais de aprendizagem (transtorno do déficit de atenção, com hiperatividade, dislexia, discalculia). “Os professores devem buscar em seus planejamentos, práticas pedagógicas inclusivas”, afirma.

Produzido por Dirlan Junior.

Em relação ao plano de ação do NAUFES no retorno às aulas presenciais, a coordenadora diz que há estratégias de acessibilidade em consonância com a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, a 13.146 de 2015. 

“O Plano de Ação de Acessibilidade Atitudinal, Arquitetônica, Metodológica, Programática, Instrumental, nos Transportes, nas Comunicações e Digital está com as ações planejadas em andamento para os próximos anos”, revela Provetti.

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