O país que desaprendeu a sorrir

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Por Julia Lopes e Miranda Perozini

Hiperativo. Cinco sílabas, dez letras. Definição do que ou quem é muito ativo. A palavra, que também pode ser usada pela medicina para definir uma doença crônica que inclui dificuldade de atenção e impulsividade, está longe de ser lembrada pela cena brasileira pelo lado negativo de seu significado. Em 2010, pisava aos palcos pela primeira vez, sem caracterização ou personagem, o humorista Paulo Gustavo. Hiperativo foi um dos espetáculos que marcaram sua carreira.

O espetáculo completou cinco anos em cartaz em 2015, com mais de 2 milhões de espectadores. FOTO: Divulgação/Paulo Gustavo.

Ao longo da turnê, mais de dois milhões pagaram para assisti-lo e cerca de cinco mil pessoas – o público recorde até então –  foram à Fortaleza, em 2014, ver o show que rodou o Brasil satirizando e apontando com leveza e bom humor inseguranças, histórias do cotidiano, o comportamento humano e as relações amorosas. 

Os anos entre 2010 e 2014 foram agitados, ativos demais, não só para o ator, como para o Brasil. Enquanto o humorista e diretor estabelecia sua carreira com o lançamento do espetáculo “Minha mãe é uma peça” no teatro e cinema, e o ingresso como o personagem Valdomiro no sitcom Vai Que Cola, o país da primeira mulher, Dilma Rousseff, também não descansava. Protestos, escândalos, recessão, copa do mundo. Ainda que com um discurso progressista, o governo não agradou. Milhares tomaram as ruas em protesto em 2013, e também nos anos seguintes, exigindo um impeachment.

Paulo Gustavo, em sua última aparição na TV em 2020, declarou que rir é um ato de resistência. E foi com o humor que o ator incentivou o Brasil a passar por um período imprevisto de turbulência ainda maior. Casado desde 2015 com o dermatologista Thales Bretas, Paulo representou boa parte do que a onda de conservadorismo que tomou o país a partir dos anos 2018 repudia: artista, homossexual, e progressista. 

Com mais de 57 milhões de votos, Jair Bolsonaro foi eleito e desde então, desafia o Brasil a resistir. O humor do cotidiano passou a ficar, assim como a realidade, mais áspero. Paulo e muitos outros comediantes brasileiros mudaram o tom do riso. A piada, em um cenário conturbado como o do Brasil, se tornou mais necessária para fazer com que o público, ainda que enxergasse a situação com leveza, fosse capaz de refletir sobre os problemas à sua volta. 

Em suas redes sociais e principalmente em seu trabalho, Paulo adaptou-se a mais um cenário brasileiro que pedia menos piadas envolvendo a ascensão da Classe C, e questões de gênero, e mais humor consciente, perspicaz e alinhado ao cotidiano de resistência. O ator tornou-se, assim, um símbolo para os que se identificam com sua história de vida e tem como valor o afeto, a compaixão, e o respeito, bem como Paulo.

A pandemia que sufoca milhares de risos

O Brasil agitado de manifestações políticas, encontros à mesa de bar, cinemas e estádios de futebol lotados, e orlas tumultuadas, teve de cessar. Com a chegada de um novo vírus ao mundo, não foram só os brasileiros que tiveram de tapar com máscaras os sorrisos e fechar as portas para as visitas. Ao todo, o Sars Cov-2 (coronavírus), já ceifou a vida de mais de 7,2 milhões de pessoas ao redor do mundo e de mais de 432.700 pessoas apenas no Brasil. 

Paulo Gustavo foi uma delas. O humorista, que embalou o país em sua hiperatividade e riso, resistiu ao vírus por muito tempo. Foram mais de 50 dias de internação para lutar contra a doença. 

Lavar as mãos, usar máscaras tipo PFF2 e N95, evitar aglomerações, cumprir o isolamento social e até mesmo higienizar objetos não foram medidas suficientes para impedir que Paulo e outros tantos brasileiros se contaminassem, e nem para conter o alastramento da doença que só encontra barreiras na vacina.

O autocuidado não é o bastante quando a crise é global. O gerenciamento da pandemia pelo presidente Jair Bolsonaro foi e tem sido duramente criticado. 

Contra o uso de máscaras, promovendo aglomerações em encontros políticos, incentivando manifestações de seus apoiadores e o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, o presidente fez com que o Brasil ficasse para trás na corrida de enfrentamento à Covid. 

Segundo dados coletados pelos alunos do sétimo período do curso de Jornalismo da Ufes, com auxílio do LABIC, Paulo Gustavo já liderava o fluxo de tweets no dia 3 de maio.

Em três de maio, quando já se ouviam rumores do agravamento do quadro clínico de Paulo Gustavo, o Twitter registrou cerca de 73.512 publicações de mais de 57 mil usuários. 

O público, que ao lado de amigos e familiares, moveram uma intensa corrente de oração durante o período de internação do ator, enviaram mensagens positivas convictas na recuperação do humorista.

Mas, o desejo não se cumpriu e na noite do dia quatro de maio, os comunicados oficiais da página de Paulo e outros portais anunciaram o fim da batalha. A repercussão  tomou grandes proporções. Foram mais de 60 mil  tweets originais, em mais de 40 países. 

O anúncio do falecimento de Paulo movimentou diferentes segmentos do Twitter, e aumentou o número de compartilhamento de mensagens na rede.

A internet, especialmente o Twitter, foi tomada por uma série de compartilhamentos de publicações que homenageavam a trajetória de Paulo Gustavo.

Perfis como os de Tatá Werneck, humorista e amiga próxima do ator; Gabily, digital influencer; e Portal Tracklist, site de notícias; movimentaram os usuários em mais de 18 milhões de compartilhamentos.

“Paulo Gustavo não morreu de covid-19. Paulo morreu de Brasil”

Além de mensagens relacionadas ao trabalho do ator, o dia seguinte ao seu falecimento foi marcado por mensagens em tons de protesto nas redes sociais. “Paulo Gustavo não morreu de Covid-19. Paulo Gustavo morreu de Brasil”, é apenas uma das publicações originais que ligam a morte do ator e humorista à má gestão da pandemia.

Famosos, anônimos, e até mesmo alguns políticos da oposição utilizaram de palavras como “genocida”, “verme”, “canalha” e  “assassino” ao responder em uma rede social à publicação do presidente Jair Bolsonaro que presta condolências à morte de Paulo Gustavo.

Ele contagiou o país

Em 2019, “Minha mãe é uma Peça 3” se tornou o longa com maior arrecadação da história do cinema nacional. Visto por quase 9 milhões de pessoas, a família brasileira acompanhou a aceitação da mãe ao filho gay em todos os seus passos.

Interpretando personagens marcantes que entraram nas casas do Brasil e invadiram as telas, palcos e redes sociais, Paulo Gustavo “contaminou o coração das pessoas por ser verdadeiro”, segundo Marília Pêra, em seu depoimento para a abertura do espetáculo Hiperativo.

Dona Hermínia conquistou o Brasil e fez discurso emocionante sobre aceitação no último filme de “Minha Mãe É Uma Peça”. FOTO: Reprodução.

Contra o preconceito, a intolerância, e a violência, Paulo ofereceu ao país o riso e o afeto. Brasileiro, nascido em Niterói – RJ, o humorista que sempre fez questão de exaltar a brasilidade em seu trabalho e estilo de vida, acompanhou a jornada da população como cidadão, marido, pai, ator e sobretudo, ícone nacional. 

Paulo Gustavo, que colaborou ao lado de muitos para sustentar o otimismo, a fé e a persistência tão características do Brasil, agora marca a linha do tempo do que se pode chamar de um dos períodos mais conturbados da história do país. 

Derrotado por um vírus para o qual já se existe vacina, a morte de Paulo, no mesmo dia em que o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta testemunha a política negacionista de Bolsonaro durante a crise sanitária, traz um significado a mais – se para alguns ainda se faz necessário – para o peso das milhares de mortes dos nossos. 

O ator, diretor, e humorista, dessa vez, não é o único protagonista dessa trama. Paulos, Marias, Cristinas, Josés, Pedros e Fátimas. O Brasil que sempre se vangloriou da capacidade de rir mesmo nos maus momentos, teve seu  riso sufocado pelo vírus e sobretudo, pela ignorância e negacionismo. 

Hiperativo, o Brasil de Paulo Gustavo, de Nicette Bruno, João Acaiabe, Irmão Lázaro, Agnaldo Timóteo, Aldir Blanc, não sabe mais como sair do lugar. Foram-se pais, amigos, mães, irmãs, filhos, tias. 

Se se perdem os que fazem rir, e mais ainda os que riem, sorriremos de novo?

“Enquanto essa vacina tão esperada não chegar pra todo mundo, é bom lembrar que contra o preconceito, a intolerância, a mentira, a tristeza, já existe vacina. É o afeto, é o amor. Amar é ação, amar é arte.”

Paulo Gustavo, 2020.

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