Jovens e rede social, um possível sinônimo na rede esperança contra o HIV/Aids

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Repercutida no Twitter, nova vacina em teste contra o HIV atinge eficácia de 97% em resultados iniciais; Vírus causou 1.7 milhão de novas infecções mundiais em 2019, de acordo com a Unaids.

Hayom Tovi e Jonathas Gomes

O desenvolvimento da vacina para imunização de pessoas que vivem com o HIV é imprescindível para melhorar a qualidade de vida e a manutenção da saúde pública. Contudo, os jovens, principalmente, por meio de uma análise com publicações da rede social Twitter, acabam por subestimar a infecção, tanto pelo baixo engajamento desse público, quanto  pelos estudos feitos por Instituições que tratam sobre a temática.

Segundo o Boletim Epidemiológico de 2020, somente no Brasil, mais de 900 mil pessoas vivem com o HIV, sendo que a concentração de casos é em sua maioria entre os jovens de 25 a 39 anos. Para possibilitar um ensaio clínico de qualidade, o Programa Conjunto das Nações sobre HIV/Aids (Unaids) traçou uma meta que auxilia no estudo que corrobora com uma vacina.

Devido a isso, a Iniciativa Internacional da Vacina da AIDS (IAVI) e o Instituto de Pesquisa Scripps, nos Estados Unidos, anunciaram resultados de uma vacina contra o HIV que estimulou a produção de células imunes em 97% dos voluntários. Embora o estudo represente um avanço científico ao combate do vírus, a repercussão nas redes foi baixa: em abril, houve apenas 1.566 menções diretas à vacina no Twitter. No ano em que o Brasil completa quatro décadas de combate ao vírus, a epidemia tornou-se silenciosa: há uma subnotificação de novas infecções em razão da pandemia da Covid-19, de acordo com o boletim epidemiológico anual sobre HIV/Aids.

Os dados do estudo apontam uma queda geral de 7% em novas infecções pelo vírus no ano de 2020. Entretanto, o relatório destaca que o declínio pode ser decorrente de problemas na transmissão de dados entre esferas do SUS, devido à mobilização dos profissionais de saúde no combate à pandemia da Covid-19. Ainda assim, as taxas de transmissão do HIV seguem em crescimento entre as faixa-etárias de 15 a 19 anos, 20 a 24 anos, 25 a 29 anos e homens acima de 60 anos, na comparação entre 2009 a 2019. 

O levantamento de menções sobre a vacina contra o HIV no Twitter revela uma baixa repercussão direta na rede, com apenas 1.566 menções ao assunto no último mês de abril. Isso se deu, principalmente, pelo fato dos usuários transmitirem suas ideias corroborando com uma publicação já existente. É o que acontece quando é retuitado algum conteúdo. Muitas jovens optam por adentrar na temática por meio de um tweet já existente, concordo ou não com o que foi exposto. Na coleta, a concentração da repercussão se deu por meio da rede de retweets. Entre os usuários engajados no tema, as associações mais comuns com a vacina foram relativas aos resultados promissores divulgados, juntamente com o termo “cura”, relevando expectativas sobre os rumos da epidemia. Realizado pelo software de coleta de dados Ford, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da  Ufes, o levantamento também constatou associações do assunto com a Covid-19.

Discussão sobre a vacina contra o HIV se concentrou nas expectativas dos resultados promissores da primeira fase do estudo.

Dr. Vinícius Lacerda compartilha chamada de voluntários para pesquisa da vacina contra o HIV.

A baixa comoção dos jovens aos avanços científicos do combate ao HIV se deve, principalmente, à distância temporal das primeiras décadas da epidemia, em que a mortalidade em decorrência de complicações da aids era alta, e à segurança alcançada pelo desenvolvimento de tratamentos terapêuticos ao vírus, que possibilitaram boas condições de controle do quadro viral. É o que analisa  o coordenador do Observatório de Saúde na Mídia e professor titular do Centro de Ciências da Saúde da Ufes, Adauto Emmerich.

“O pavor que se tinha quando iniciou a epidemia da aids mudou muito para os dias atuais com o surgimento de tratamentos e a disponibilização de uma forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde. Isso muda completamente a percepção da sociedade sobre a doença. Quando a epidemia da aids surgiu, era como se a infecção fosse um atestado de morte”, relembra. 

O pesquisador destaca, ainda, que a nova vacina em teste contra o HIV é “extraordinária” em perspectiva ao histórico do enfrentamento à epidemia do vírus. Para ele, os avanços científicos da vacina podem possibilitar qualidade de vida às pessoas que vivem com o vírus e maior controle do desenvolvimento da aids.

“O desenvolvimento da vacina é uma vitória histórica da ciência. Com isso, poderemos ter uma imunização, melhorar a qualidade de vida de pessoas que vivem com o vírus e dos que são vítimas da aids. O HIV é uma infecção que tem tratamento, mas ainda não tem cura. Essa nova vacina atinge 97% de eficácia, isso é (um resultado) extraordinário”, comemora.

A vereadora Benny Briolly, de Niterói, no RJ, comemora os resultados da vacina contra o HIV. O tweet ultrapassou 100 mil curtidas, o mais engajado sobre o assunto na rede social.

HIV e covid-19: similaridades e distinções

Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2), o mundo olhou para o passado da epidemia do HIV, principalmente para as primeiras décadas, em busca de lições para lidar com o medo e as mortes repentinas em meio a tempos sombrios. 

No Twitter, algumas mensagens de esperança com a vacina do Instituto de Pesquisa Scripps também comentavam a situação epidemiológica da covid-19. A defesa do Sistema Único de Saúde, por exemplo, foi uma das hashtags (#defendaosus) de destaque, segundo o levantamento. 

Análise de hashtags sobre a vacina contra o HIV revela relações discursivas com a Covid-19, além de afirmações de defesa do SUS, com hashtag #defendaosus.
Jornal Brasil de Fato MG publica notícia indexando com o uso de hashtag sobre o assunto

Assim como no combate à covid-19, o SUS é central no controle e no tratamento do HIV/Aids, já que disponibiliza gratuitamente métodos de prevenção combinada, como camisinhas penianas e vaginais, medicamentos antirretrovirais e os métodos de prevenção Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) e Profilaxia Pós-Exposição (PEP), chamadas popularmente de pílula “anti-HIV”  “pílula do dia seguinte do HIV”, respectivamente.

O professor Adauto Emmerich destaca o papel do SUS para políticas de interesse coletivo no enfrentamento a ambas infecções, HIV e covid-19. Emmerich reforça que, de acordo com estatísticas, os dois vírus afetam mais a populações marginalizadas: no caso do HIV, as populações-chave com maior vulnerabilidade, enquanto a covid-19, a população periférica e negra.

“É necessário que se desenvolvam vacinas também para outras doenças que afetam mais aos pobres. No Brasil, temos o SUS no desenvolvimento dos medicamentos para o HIV, e a Fiocruz, que agora está atuando na produção da vacina de Oxford para a covid-19, mas teve um papel histórico na produção do coquetel retroviral com a quebra de patente”, relembra.

A condução de políticas de enfrentamento, no entanto, ocorreu de forma distinta, mas com graves erros. O estigma criado sobre os soropositivos foi criado, entre outras causas, pela culpabilização como estratégia de comunicação. Para a covid-19, tais estratégias desconsideram condições de vida da periferia.

“As políticas de enfrentamento da Covid-19 foram todas configuradas para condições de vida das classes média e alta. Isso foi  traduzido nas estratégias de informação e comunicação para a pandemia da Covid-19. Já em relação a  epidemia de HIV, quando surgiu nos anos 80, tinha um enfoque voltado para a culpabilização, implícita, daquilo que se chamava de grupo de risco, principalmente os homossexuais”, analisa Emmerich.

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