Após pesquisa Datafolha, bolsonarismo manifesta comportamento negacionista, como de praxe

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Por Alexandre Passos e Marina Coutinho

A pesquisa do instituto Datafolha divulgada no último dia 12 de maio traçou o cenário de uma disputa que já se desenha há meses nos bastidores da política brasileira. O impacto da pesquisa nas redes sociais, entretanto, possibilita uma análise mais sintomática do comportamento exposto no ambiente virtual.

Em plena pandemia, dois nomes completamente distintos se confrontam. De um lado, Jair Bolsonaro, em posse da máquina pública, acumula uma sucessão de erros na condução do enfrentamento à Covid-19 no país. Do outro, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva recupera seus direitos políticos após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) e retorna à disputa que lhe foi negada em 2018.

A pesquisa aponta que Lula lidera a disputa, com 41% das intenções de voto. O atual presidente vem em seguida, com 23%. A soma de todos os outros candidatos listados no levantamento totaliza 24%. Aqueles que votariam em branco/nulo ou em nenhum dos citados são 9%, e 4% não soube responder. 

Intenções de voto (1º turno 2022)

Na pesquisa para o segundo turno, o principal embate, entre Lula e Bolsonaro, tem resultado favorável ao petista. Ele venceria a disputa com 55% dos votos, contra 32% do atual presidente.

Além da disputa presidencial de 2022, no dia seguinte, a pesquisa também avaliou como está o desempenho do Governo Federal. Divulgado no dia 13, o levantamento apontou que a administração de Bolsonaro atingiu seu pior patamar desde que assumiu o cargo de presidente. De acordo com a pesquisa, apenas 24% dos eleitores consideram o governo bom ou ótimo, enquanto 45% o julgam ruim ou péssimo. Os que acreditam ser regular somam 30%, e 1% não soube responder.

No último resultado, divulgado em março, a aprovação presidencial era de 30%, isto é, os números registraram uma queda de 6%.

Entre apoiadores e críticos, o impacto da pesquisa nas redes sociais é importante de se observar. É inegável que, cada vez mais, grande parte da movimentação deste xadrez político seja feita na arena virtual. Na principal delas, o Twitter, é possível analisar como este jogo se movimenta.

Na rede social, foram coletados, entre os dias 12 e 13 de maio, os dados referentes às palavras-chave da pesquisa. O objetivo foi identificar quais grupos se manifestaram em relação à pesquisa, de qual forma, utilizando quais palavras e com quais propósitos.

Palavras-chave: datafolha, bolsonaro, lula, 2022, 55%, 32%, pesquisa, popularidade, rejeição, fascismo, datafoice, mamata, esquerdopata.

Gráfico da visão geral dos dados recolhidos em relação a reportagem

No gráfico, foram agrupados os nomes dos usuários que tiveram mais interações comuns entre si. Ou seja, quanto maior o número de curtidas e compartilhamentos de uma publicação que possui uma palavra coletada, seja ela contrária ou favorável ao governo, mais próximos no mapa ficam as contas dos usuários que trocaram interações. 

Quanto mais um usuário curte ou compartilha um tweet contendo uma das palavras coletadas, seja ela contrária ou favorável ao governo, mais próximos no mapa ficam os perfis que interagiram entre si. 

O tamanho das “bolhas” é proporcional à popularidade da publicação. Quanto mais curtida ou compartilhada, maior é a identificação. O agrupamento também foi filtrado por cores. Para citar duas, o conjunto marrom representa as manifestações favoráveis a Bolsonaro, enquanto a cor rosa representa os grupos contrários ao presidente. 

No gráfico, é possível identificar que os veículos de imprensa e os portais de notícias estão localizados junto aos nomes de críticos ao governo. Isto se deve ao fato de que as interações anti-bolsonaro estão baseadas no compartilhamento e nas curtidas do fato noticiado, isto é, a possível derrota do presidente nas eleições do ano que vem. A proximidade entre a imprensa e os críticos evidencia o interesse deste grupo no conteúdo jornalístico. 

Por outro lado, entre os apoiadores do governo, as interações não estão baseadas na notícia em si, mas sim nas críticas e acusações à pesquisa e ao instituto que a realizou.

O comportamento nas redes é reflexo da vida real. O negacionismo, evidente no discurso do presidente desde o início da pandemia, reverbera entre seus apoiadores. Negar é recusar-se a admitir. Na ausência de reconhecimento das questões que mais importam ao país, sendo a principal delas o enfrentamento à Covid-19, o bolsonarismo recorre ao descrédito das pesquisas na tentativa de anular a rejeição ao presidente.

Embora seja perceptível a forte rejeição do atual presidente, principalmente por meio da pesquisa do Datafolha, os apoiadores do governo afirmam que as pesquisas são tendenciosas. “Existem interesses de grande parte da mídia esquerdista em desgastar o governo”, comenta Roberto, 61. Ele revela que não acompanha mais a grande mídia, mas sim as redes sociais para se informar dos acontecimentos. João Miguel, 74, diz que há muito radicalismo e falta confiabilidade nas pesquisas. “Algumas são favoráveis ao presidente, outras não. Mas eu não sei que rejeição é essa”, indaga o apoiador. Ele ainda relata que “infelizmente, a mídia convencional está sem credibilidade. São fatos claros e constatados.”

USUÁRIOS

Com humor e ironia, Luiz entra na discussão e ganha o maior numero de likes em 24 horas

Publicação mais curtida e compartilhada durante o período de coleta, o comentário do usuário Luiz Hygino compara a votação para presidente com o processo de eliminação do reality show Big Brother Brasil. No programa, a movimentação nas redes sociais não garantia a eliminação de um participante, mas sim o voto na página oficial da emissora. O mesmo se aplica para a corrida presidencial, já que a eleição de um presidente deve ser consumada dentro do mecanismo oficial de contagem dos votos, a urna eletrônica.

Haddad também se pronuncia perante a matéria da Folha

Ex-ministro da Educação e candidato do PT à presidência em 2018, Fernando Haddad fez um recorte dos dados, excluindo brancos e nulos, para evidenciar a disparada de Lula na pesquisa. O tweet foi o segundo mais curtido e comentado no período de análise.

Incentivando a aglomeração e o desuso da máscara, Major Vitor Hugo se pronuncia no twitter

No dia seguinte à divulgação da primeira pesquisa, como quem cumpre agenda eleitoral, o presidente viajou para Maceió, capital do estado de Alagoas, onde se encontrou com apoiadores, sem máscara e causando aglomerações. No tweet, o deputado federal Major Vitor Hugo (PSL) compartilhou o registro e utilizou um dos termos mais mencionados ao duvidar da pesquisa de intenção de voto (#sqn).

HASHTAGS

Entre as hashtags mais utilizadas no período, #sqn (abreviação para a expressão “só que não”, em desconfiança à pesquisa) lidera com 2.106 contas que mencionaram o termo em uma publicação. Em seguida, vem #lulapresiente2022, com 871 menções. #datafolha (607) e #nordestecombolsonaro (543) também foram manifestações recorrentes.

PALAVRAS

A palavra mais citada na rede foi Datafolha, com mais de 103 mil menções. O termo recebeu mais de 850 mil curtidas e 95 mil retweets.

No segundo e terceiro lugar, aparecem Bolsonaro e Lula, respectivamente. O primeiro teve 62.377 menções, contra 59.155 do segundo. Entre os demais candidatos, Ciro Gomes marcou a 13ª posição (9.352), Sérgio Moro está na 16ª (7.178). Até os 50 primeiros termos, João Doria (3.337), em 41º, e Luciano Huck (2.933), em 48º, completam a lista.

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