Um olhar de esperança

Share Button

A surpresa e os desafios de ser pai, professor e aluno em tempos pandêmicos.

Por Hayom Tovi

De um bairro periférico à moradia no exterior. Virgílio Cesar de Mello Libardi, um eterno apaixonado pela fotografia, conseguiu trilhar caminhos que muitos de seus conterrâneos nunca puderam sonhar. O estudo lhe proporcionou concretizar sonhos e experiências que antes eram inimagináveis.

Em uma primeira troca de conversas com Virgílio Libardi, é notável sua presença imposta de uma forma descontraída. Sujeito de fácil sorriso e boas risadas conduz uma conversa como ninguém. Contrariando a crença de um povo fechado, o canela-verde faz questão de uma boa recepção.

Apesar de acolhedor, nem sempre sua trajetória foi percorrida de forma recíproca. Em função de sua carreira de engenheiro agrônomo, percorreu grande parte do Brasil. A lista de estados pelo qual fez morada é extensa e carrega longínquas histórias. Uma delas, o seu primeiro contato em outra universidade, fez com que ele pensasse sobre suas visões culturais e sociais. 

O menino de Vila Garrido, um bairro humilde de Vila Velha, agora era totalmente responsável por sua trajetória em um novo estado. Após criar memórias e raízes em Alegre, interior do estado do Espírito Santo, onde cursou agronomia, alçou novos voos a uma cidade totalmente diferente de tudo o que já havia presenciado.

Recém-aprovado em um mestrado da USP (Universidade de São Paulo), percorreu longas distâncias até fazer morada em Piracicaba, seu novo lar. Seu primeiro atrito fora da cultura capixaba foi ser criticado por não ser “uspiano convicto”, ele brinca. Taxado por não ter feito toda sua trajetória acadêmica pela USP, Virgílio comenta que encontrou barreiras ao se relacionar com outros alunos da instituição, mas “com muito estudo, boas notas e um bom trabalho de dissertação” acabou por superar esse percalço.

Desde então, perdida a timidez, conseguiu se encontrar em suas relações e optou por percorrer outros lugares do país em busca de novas oportunidades para a carreira e os estudos. Dessa forma, ele discorre de uma longa lista de cidades pelo qual tentou estabilizar uma moradia, entre elas passou “por São Paulo capital, Campinas, Indaiatuba, Londrina, Argentina e Mato Grosso”, finaliza.

Contudo, nem tudo são flores, voltando para a casa depois de um período estudando em São Paulo, em seu carro, na época, um Fusca, acabou por sofrer um acidente em plena Via Dutra, considerada a principal ligação rodoviária do Brasil. Apesar da gravidade do assunto, comentava calmo e com o tom de voz ameno. “Fiquei muitos dias desacordado na Santa Casa de Misericórdia de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Desde lá, demorei cerca de 40 dias para poder me recuperar em casa. Foi bastante grave, quase fui ‘nessa aí'”.

Alguns outros momentos foram marcantes para compreender toda sua trajetória de vida. Durante a narrativa de sua história, ele relembra os tempos que passou com sua avó materna, até o falecimento dela. “Uma memória afetiva de infância que me marcou muito, foi minhas histórias com minha vozinha materna até seu falecimento. Eu tinha 10 anos de idade, para mim foi um trauma muito grande, eu chorei bastante e até derrubei ela do caixão e tudo menos. Por conta desse fato, eu fiquei muito tempo sem chorar”, ele disse. 

Outra memória que ele guarda com carinho, dessa vez já na vida adulta, ele comenta que “foi o nascimento da minha filha Sara, quando eu tinha 52 anos. Esse fato do nascimento que eu fotografei e presenciei para mim foi mágico”. Nesse momento, o tom de voz já denuncia o orgulho que ele sente em ser pai. 

Sem poupar palavras e elogios para a filha, Virgílio acaba confidenciando os desafios da paternidade em uma pandemia. O mais preocupante para ele, é o crescimento saudável da filha, e fica aflito ao falar sobre sua preocupação quanto à sociabilidade das crianças que precisam estar em contato com outras pessoas para o desenvolvimento, mas com a família unida está se saindo muito bem.

O brilho no olho fica nítido quando conta sobre os banhos e momentos de lazer com a filha. Apesar da pandemia, ele comenta que por estar mais presente em casa, durante esse período de um ano, que coincidiu com o nascimento da filha, ele não tem perdido um banho. Em todos, ele esteve presente auxiliando de alguma forma, mesmo quando estava estudando ou trabalhando, no intervalo sempre era possível passar aquele tempo com a filha. Desde então, Sara se mantém agarrada aos pais e segundo Virgílio, é ela que tem nos dado o ar para respirar nesse momento tão trágico para todos. “Sara está sendo o fôlego de vida para enfrentar esse momento”.

Quando lhe pergunto como está sendo viver a jornada tripla de pai, aluno e professor, ele comenta que pelas aulas estarem sendo ministrada de forma online, isso auxilia nos afazeres diários. Seu doutorado está sendo feito à distância enquanto o ensino na Universidade não retornar, por isso está pagando os créditos necessários tendo contato reduzido com os professores. Ele aproveita o tópico para contar um segredo. Segundo Virgílio, anos atrás ele foi aceito em um doutorado mas desistiu na antevéspera da matrícula, contudo, foi aprovado em outro mestrado na área de ecologia. Uma vez cursada as matérias, optou em desistir também, em função de não se encontrar na área de agronegócios. Agora, se encontrou em definitivo com a área das Ciências Sociais, no âmbito da Antropologia. Em seu doutorado, ele estuda a relação dos indivíduos e a fotografia, por meio de um viés antropológico.

Adentrando um pouco o assunto da fotografia, Virgílio conta que sempre foi apaixonado pela área da fotografia e o seu contato com ela se deu ao longo da vida, mas o primeiro deles o marcou profundamente aos 12 anos de idade. Seu quarto funcionava como uma câmera escura em que via as cores invertidas, como o preto e o branco. Para ele, era algo mágico, pois em uma única época do ano, seu aposento se tornava uma imersão fotográfica, desde então, a curiosidade aumentou apesar de ter se reaproximado com a área posteriormente. Foi dessa paixão, que ele buscou aperfeiçoar seus conhecimentos à ponto de lecionar sobre a área em algumas faculdades da Grande Vitória.

Seu retorno à fotografia se deu por uma desilusão com o agronegócio. Formado em agronomia, já desempenhou funções agrárias ao longo de todo o país, com isso, também teve a oportunidade de entender como funcionava o ciclo do campo. Virgílio desabafa que o “agro” que é vendido nas mídias, é popular quando se torna produto de exportação. Porém, os produtos genuinamente de consumo brasileiro, não é o que acontece, visto que faltam investimentos à agricultura familiar e orgânica mesmo com alguns movimentos de resistência.

O pop, segundo ele, é o que transmite a ideia do grande agricultor e suas culturas de exportação de soja, milho, algodão e café. Contudo, o que não se fala é sobre a concentração de renda no campo, baixa geração de emprego e baixa fixação do homem no campo.

Desde pequeno, muito ativo nas lutas populares, inclusive nos tempos de faculdade. Seu envolvimento com representações estudantis, comitês e colegiados influenciou diretamente em estar de acordo com o que para ele é ou não aceitável. Outra decepção que obteve em sua carreira foi o ensino em instituições privadas, visto que tornou algo muito mercantil, já se distanciando de algo que ele acredita que é benéfico para toda a sociedade.

É dessa forma que Virgílio finaliza, mostrando ser alguém que acredita e luta pelo o que vale a pena a todos. Criado de forma solidária leva esse estilo de vida com ele até os dias de hoje. Entre muitas dificuldades, conseguiu pelo olhar da fotografia, uma esperança a mais para enfrentar os desafios da vida, sempre de forma esperançosa.

Deixe um comentário