O reencontro de Antonia Faleiros: conheça a trajetória da juíza

Após mais de 50 anos, a juíza Antonia Faleiros revisita sua infância no canavial, os dias na rua, o trabalho doméstico e reconcilia-se com sua própria história. (Créditos: Acervo Pessoal)
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Por Jonathas Gomes

Frente a frente, inocência e maturidade. Ingenuidade e consciência expandida. Menina e mulher. Opostas e complementares, em toda a contradição dessa relação. Separadas por um protocolo da vida: a temporalidade do olhar. Ainda assim, são as mesmas. O presente e o passado se reconciliam no agora. “As quedas, a menina ainda não sabia. A mulher já esqueceu”, diz Antonia Faleiros, agora mulher. 

O suor, a responsabilidade e a necessidade de garantir o sustento contrastam com os oitos anos, mas a menina já conhecia a todos. Naquela idade, as cestas de verduras estavam cheias na caminhada diária pelas ruas da pequena Serra Azul de Minas, em Minas Gerais – e prontas para voltarem vazias para casa. A plantação por subsistência, no entanto, chegou ainda mais cedo para a menina Antonia, que viria a trabalhar em um canavial e, já mulher, foi de empregada doméstica a juíza do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). 

Revisitar cicatrizes tão profundas de sua infância pode ser um exercício doloroso, mas Antonia Faleiros ressignificou sentimentos e percepções acerca do que viveu. Sua tia Maria costumava dizer que os vagalumes são lindos vistos distantes, mas, ao pegá-los, tornam-se sem graça. Seu passado lhe traz nostalgia pela inocência e pela espontaneidade da menina que foi, ao ponto de sentir saudade dos simples momentos aos quais pôde encontrar respiros de infância, mas essa beleza só é encontrada pela distância temporal. Em sua análise enquanto mulher, trocou as dores da infância pelo orgulho de sua história. 

“Na estrada
A menina e a mulher se encontram em uma encruzilhada da vida
e nos traçados das letras. /Por um instante, seus olhares se cruzam.
A menina lança os olhos em direção ao pôr-do-sol e mede a distância para chegar lá.
A mulher volta seu olhar em direção à nascente e sabe que nunca poderá voltar.
Era uma encruzilhada e tinha uma ponte.
Embaixo da ponte, o rio que tudo lava (e leva).
Morrer mar.
Nascer nuvem.
Viver rio que nunca para.
No caminho, há quedas, obstáculos e corredeiras.
A menina ainda não sabe.
A mulher já esqueceu.”
Antonia Faleiros

No canavial, o temor era constante. Aos 12 anos, seu corpo estava em transformação. Ser atacada por um homem lhe traria olhares de reprovação, seria sua culpa naquele imaginário social. “Uma mentalidade extremamente perversa com as mulheres e, ainda hoje, vem à tona”, desabafa. O respeito tinha gênero: homens respeitavam homens. Era um acordo: não se mexia com mulher de outro homem, e nem era pelas mulheres. A lembrança mais marcante daquele trabalho é justamente o medo da vulnerabilidade àquela situação. “Alguns pais matavam (a outros) ou matavam suas filhas. A moral sexual com o viés de olhar para a mulher acontece de forma dura. A sociedade não iria nem acreditar na minha fala”, argumenta.

“O trabalho infantil, em geral, acontece principalmente porque os pais não têm recursos e, em algumas situações, nem a visão de estimular os filhos a estudar.”

Antonia Faleiros é a mais velha entre os irmãos. Ao todo, têm cinco. Sua irmã mais nova nasceu 11 anos após um período difícil na família, em que a mãe engravidou em quase todos os anos, mas perdia os bebês. Como irmã mais velha, a juíza foi a acolhedora, a companheira e a cuidadora do lar. O ponto de firmeza dos seus pais. Tinha, ainda, outros papéis a cumprir: os serviços domésticos e o zelo pelos irmãos. Brincar não era um desses papéis, não sobrava tanto tempo. Era um padrão familiar de sua época: a mais velha era quase uma segunda mãe dos outros. Quando encontrava algum momento ocioso, subia em árvores e pulava. Não tinha modos, gostava das “brincadeiras de menino”. Passar roupa, mimar e cuidar de bonecas não lhe atraiam. Já fazia por obrigação em casa.

“Hoje, entendo que o motivo é porque não via graça em brincar de algo que era parecido com o que eu fazia como operação. As ‘brincadeiras de menino’ eram coisas que eu não fazia como obrigação, eram mais divertidas. Às vezes, eu até tomava umas chineladas para aprender a ter modos”, relata. 

Muitas coisas não eram para meninas. Estudar não era para meninas. Sua mãe fora proibida de ir à escola, embora quisesse muito estudar em um colégio interno, mas não tinha a permissão de seu pai. Estudou até a antiga 4º série. Em contraste, as boas notas, o desempenho nas atividades escolares e a leitura se tornaram valores centrais na educação de seus filhos. Com o apoio da mãe e uma força subversiva, Antonia Faleiros teve o diferencial para buscar um novo rumo e romper com aquela realidade. A luta pessoal contra a desigualdade social era um enfrentamento a um sistema de crenças e preconceitos, um imaginário social construído e reforçado por uma naturalização das opressões.

As poucas oportunidades que teve foram bem aproveitadas. Antonia formou-se no Ensino Médio e fez magistério. Foi professora em escolas e em aulas de reforço de Língua Portuguesa e Matemática. Saiu do interior para Belo Horizonte, capital de seu estado, em busca de maiores oportunidades. Viver em uma grande cidade a assustava. Os ruídos, a pressa, a insensibilidade do olhar, a solidão em conjunto e as notícias sobre a violência não permitiram uma adaptação tranquila. Ainda assim, fugir daquele mundo não era mais uma escolha. Antonia conseguira um emprego. Cuidava das tarefas do lar de uma família mineira e, assim, podia se manter na cidade. Quando terminava o serviço, ia para a casa de uma tia que vivia ali próximo. Era no cruzamento da rua Tamoios com a rua Rio de Janeiro, próximo à Igreja de São José. A parente, no entanto, não existia: Antonia passava a noite em um ponto de ônibus. No local, funcionava uma central telefônica e, por isso, a movimentação era intensa, além das baldeações de ônibus. Antonia sabia que não poderia dormir na casa de sua patroa.

O perigo das ruas a assustava, ainda que ela não soubesse. Suas roupas eram longas, confortáveis e escondiam seu corpo. Se um homem se aproximasse de forma estranha, ela tomava o primeiro ônibus que chegasse ou ia para uma cabine telefônica. Antonia pensava em manter-se nessa condição por pouco tempo, pretendia conseguir outras formas de viver na capital mineira. As madrugadas eram ociosas, já que ela não podia dormir, mas a leitura era uma companheira até o amanhecer e foi por meio dela que Antonia descobriu um concurso oficial de justiça. 

Passou a buscar cursinhos, mas percebeu que não poderia pagar as mensalidades, taxas e apostilas. Na lixeira, notou folhas de estudo descartadas. Eram manchadas, borradas, com muco de nariz, preenchidas, mas continuavam sendo folhas de estudo. Passou a pegá-las toda semana, as carregava consigo durante o dia e, por elas, aprendera noções de direito. Decorava termos como se estivesse lendo a bíblia, apenas o suficiente para fazer o concurso. Em certo momento, as folhas começaram a aparecer em uma cesta seca, sem tantas manchas ou sujeiras, o que facilitou seus estudos. 

“Fui decorando e não sabia o que estava estudando, não tinha nenhuma ideia do que fosse o sistema de justiça. Pegava as matérias e decorava termos, como se estivesse decorando a bíblia, o suficiente para fazer a prova”, conta.

No trabalho, Antonia fora demitida. Na verdade, juntou suas coisas e foi embora. Com o tempo, notou comportamentos estranhos de aproximação de seu patrão enquanto trabalhava, um assédio sexual. Sua chefe, mais velha e experiente, percebeu o que estava acontecendo e assumiu o lado do marido, revelando as raízes coloniais do trabalho doméstico no Brasil: “Por isso não gosto de negrinhas dentro da minha casa”. Sem esperar mais, Antonia deixou o emprego.

O tempo na rua se transformou em dia e noite. Os dias de estudos pareciam longos e a falta de dinheiro a atingia. Após realizar o concurso, em 1985, a mineira do interior descobrira ter sido aprovada. Não somente, havia conquistado o terceiro lugar. Inimaginável, em sua visão. Não por falta de capacidade, mas pelas condições às quais se encontrava. Naquele momento da aprovação, Antonia vivia uma mudança no rumo da sua vida. 

“Era quase uma morte na família se uma filha chegasse em casa com uma barriga sem paternidade (nos tempos de trabalho no canavial). A moral sexual com o viés de olhar para a mulher acontece de forma dura e perversa.”

O dia a dia de Antonia mudara. Convivia com juízes e desembargadores. Quando criança, aquele círculo social estava fora de seu radar. Existia coisa para tudo e para ela também: tinha seu lugar reservado em trabalhos servis. Seus horizontes estavam se ampliando à medida em que seu ponto de observação mudava. Agora, ela queria ingressar no “curso de fazer doutor”.  Alguns colegas de trabalho a incentivaram e Antonia aprendia cada vez mais.Trabalhava perto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ao descobrir que poderia conciliar trabalho, graduação e ainda teria o restaurante universitário, se motivou a prestar vestibular. 

“Fui aprovada na UFMG, concluí o curso e fui descobrindo as potencialidades daquela área. Eu digo que aqueles que tiveram dificuldades e lutaram, precisam mostrar representação social ao invés de não se elevarem. Assim, outros como nós serão representados, você só sonha com o que você conhece”, opina Faleiros.

Faleiros escreveu o livro “Retalhos: Colcha de histórias para Mel dormir”, em que narra as lembranças de sua infância à sua neta. (Foto: Acervo Pessoal)

O tempo tem sido o melhor amigo de Antonia Faleiros. Em 1991, ela concluiu sua graduação e iniciou uma trajetória de cada vez mais sucesso. Foi procuradora de Belo Horizonte, procuradora da Fazendo do Estado de Minas Gerais, professora universitária, advogada, se especializou em Estudos de Política e Estratégia e em Direito Eleitoral, se tornou mestra em Segurança Pública, Justiça e Cidadania pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e, hoje, é juíza da 1ª vara Criminal de Lauro de Freitas, na Bahia. 

“Eu e outros com histórias semelhantes, quando nos fazemos tangíveis, visíveis, reais, somos representações. Não sou gênio e não tenho diferencial. (A representação) é para dizer que aqueles com ousadia e sonho podem se enxergar nesses postos, que são possíveis de serem ocupados”, defende a juíza.

A sensibilidade da juíza Antonia Faleiros a torna uma exceção à percepção social do cargo ao qual ocupa. A firmeza cujo ofício lhe exige não impede o olhar humanizado, atento e profundo sobre as desigualdades sociais e o papel do Estado em oferecer ferramentas de educação e de ressocialização de presidiários.  

“No trabalho, um julgamento nunca vai dar a resposta que as duas partes querem. Ela desagrada alguma das partes e, por vezes, até as duas. Mas podemos ouvir com atenção, receber e acolher com respeito, olhar nos olhos. Às vezes, a pessoa sabe que o filho terá uma pena, mas quer desabafar, ser ouvida e se sentir acolhida, ainda que a resposta possível não seja a desejada.”

Desta união das “Antonias”, novos sentidos das ocorrências de sua vida construíram conforto e outros sonhos. A revisitação aos sentimentos e às experiências da sua infância, tão intrínsecos à profundidade de sua subjetividade, é como um processo terapêutico, cuja juíza redescobre singularidades de sua história a cada vez em que se propõe a repetir o exercício. Em seu livro “Retalhos: Colcha de histórias para Mel dormir”, Faleiros narra à sua neta as lembranças de sua história, da carência material e financeira aos afetos vividos em família. A reconciliação entre a menina e a mulher uniu os olhares ao horizonte e fortaleceu o despertar de desejos e de planos para os próximos anos.

“Quero escrever muito mais, completar minhas lembranças, colocar tudo no papel. Quero voltar a dar aulas, ver minha neta crescer, viajar o mundo e descobrir mais lugares e novos prazeres”, almeja Antonia Faleiros. 

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