Marcelle Soares-Santos e o mapa das galáxias

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Conheça a história da astrofísica capixaba que estuda a “energia escura”, responsável pela aceleração da expansão do Universo.

Por: Sara de Oliveira

A constatação de que o Universo está em expansão é um dos legados da ciência do século XX. Em 1998, Marcelle Soares-Santos ainda se preparava para ingressar no curso de física da Ufes, quando uma nova descoberta abalou o mundo da astronomia: uma força misteriosa estaria fazendo com que essa expansão fosse acelerada com o tempo. Anos depois, esse seria o objeto de estudo da capixaba, que faz parte do maior mapeamento de galáxias realizado no planeta.

Aos 39 anos, Marcelle é integrante do Dark Energy Survey (DES), pesquisa que explora 14 bilhões de anos de história cósmica. O intuito do projeto, que conta com pesquisadores de diversos países, é ambicioso: mapear galáxias com o objetivo de saber mais sobre a misteriosa “energia escura”, causadora da expansão acelerada.

A astrofísica capixaba também é professora na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, espaço que não foi conquistado facilmente. Ela conta que um dos maiores desafios de uma trajetória acadêmica como a dela é conseguir uma posição permanente em uma instituição de ensino superior
de alto nível e enfrentar um mercado competitivo.

“Atingir algo que era um sonho pra mim e poder trabalhar nessa linha de frente da pesquisa, em uma área que me fascina, me alegra muito. E é uma coisa que não é todo mundo que tem oportunidade, de trabalhar com uma coisa que te dá prazer”, ressalta.

No Dark Energy Survey, Marcelle ajudou a construir a DECam, uma câmera digital de 570 megapixels instalada no Chile para a observação das galáxias. Com o equipamento, a pesquisadora tenta encontrar eventos ópticos correspondentes a ondas gravitacionais que já foram captadas. Em outras palavras, a astrofísica capixaba busca pelos pontos de luz gerados por fenômenos sonoros anteriores.

Telescópio Blanco (centro), onde a DECam está instalada. Foto: Dark Energy Survey (DES)

Até 2019, o estudo já tinha catalogado mais de 300 milhões de galáxias distantes. Agora, a expectativa é que o método inovador possa auxiliar uma série de futuras pesquisas sobre a aceleração cósmica. 

Todo esse potencial rendeu à Marcelle o prêmio “Sloan Research Fellowship”, com uma bolsa de US$70.000 para dar continuidade aos estudos. Anualmente, o prêmio é direcionado a pesquisadores que estão no início da carreira.

A lista de pessoas que já ganharam o título conta com nomes de peso, como os físicos Richard Feynman e Murray Gell-Mann. Durante o anúncio dos ganhadores de 2019, o próprio presidente da fundação, Adam Falk, disse que “Ser um Sloan Fellow é estar na vanguarda da ciência do século XXI”. 

Em certa medida, a conquista também é coletiva. A astrofísica entende a importância de estar onde está e de representar quem representa. “Eu sei que a maioria das pessoas quando pensa em um cientista ou físico, não imagina uma mulher negra. Então, eu tenho uma parcela de responsabilidade”, declara.

Professores foram fundamentais

Marcelle conta que o interesse pela ciência  começou ainda no ensino fundamental, em Parauapebas, no Pará, onde foi viver com a família aos quatro anos. A cientista saiu de Vitória, no Espírito Santo, acompanhando o pai que trabalhava em uma mineradora. 

A capixaba cresceu na Serra dos Carajás, em uma comunidade com pouco mais de 5 mil habitantes, no meio da floresta amazônica. “Vi animais selvagens, como onças e cobras no quintal da minha casa”, conta.

Apesar de pequena, a comunidade contava com uma boa escola, o que foi fundamental para que a pesquisadora despertasse para o próprio potencial. “Para uma criança curiosa como eu, era muito bom ter excelentes professores que me incentivaram a buscar cada vez mais conhecimento”, relata.

Em 2017, Marcelle foi  selecionada para ser uma das seis  palestrantes na apresentação da descoberta da colisão de estrelas de nêutrons, o resultado que foi reconhecido como o resultado mais importante do ano pela revista Science. Foto: Dark Energy Survey (DES)

Após se formar na Ufes, Marcelle fez mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Foi nessa época que ela visitou, pela primeira vez, o Laboratório americano Fermilab, na região metropolitana de Chicago. Ela foi contemplada com uma bolsa de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na qual os estudantes fazem uma parte da pesquisa no exterior. “Escrevi vários artigos em colaboração com pesquisadores de lá e me interessei por continuar minha jornada acadêmica nos EUA”, conta.

O contato com os pesquisadores durante o estágio fora do país fez com que Marcelle se integrasse à equipe. Por isso, logo que terminou  o doutorado, voltou aos Estados Unidos para dar continuidade à investigação cósmica.

Tudo indica que a jornada da brasileira está só no início. No passado, 47 pessoas que foram reconhecidas pelo Sloan Research Fellowship, assim como Marcelle, receberam o Prêmio Nobel alguns anos depois. “Agora, mais do que nunca, é a hora de se engajar nessa pesquisa, porque a gente tem a possibilidade de fazer observações que não eram possíveis no passado”, conta.

A menina curiosa da Serra dos Carajás agora sonha em dividir as conquistas e possibilitar que outros jovens tenham acesso à ciência. Na Universidade de Michigan, Marcelle lidera uma equipe com cinco pesquisadores, dois deles brasileiros. “É a hora de colher os frutos de todos esses anos de investimento, produzindo não só os resultados em termos de artigos, mas disseminando isso e criando oportunidades para outras pessoas também seguirem esse caminho”,  enfatiza.

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