“Eu estava no lugar certo e no momento certo”

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Maeli Radis

“Não é só ver a possibilidade, é se enxergar nela”. Nascido em Vitória e criado em Nova Brasília, Cariacica, Rafael Castro, 28 anos, parece ter sido um daqueles casos que estavam no lugar certo, no momento certo.

Conheci o Rafael em 2018, como Diretor Geral e co-fundador do Solares, um projeto de extensão da Ufes que estuda e desenvolve aplicações para energia solar. Estudante de engenharia elétrica na época, ele era responsável por comandar o time que construiu o primeiro barco movido a energia fotovoltaica do estado e campeão nacional do Desafio Solar Brasil (DSB), um rali de barcos solares. Hoje, o Solares já construiu o primeiro ponto público de distribuição de energia solar da universidade e também foi responsável pelo incentivo e estudo do projeto de energia fotovoltaica nos prédios da Ufes. 

O Solares surgiu em sua vida enquanto era calouro, em meados de 2013, quando ouviu de um certo professor Juan Romero, do Departamento de Engenharia Mecânica da Ufes, que queria ativar um projeto de extensão que mexia com energia solar. Na época, o projeto era embrionário e estava desenvolvendo um carro para competir na Austrália. “Era absurdo conseguir 1 milhão para construção e competição” mas ele estava lá e trabalhou muito mais que a maioria. “Eu já tinha o perfil de ser incisivo e, depois que passei a noite fazendo um trabalho que não era minha responsabilidade e fui criticado pelas irresponsáveis que não fizeram, fiquei meio puto”.

Acervo pessoal

Nessa época o projeto não deu certo mas serviu para que o Rafael soubesse do Ciências sem Fronteiras, um programa criado em 2011 e extinto em 2017, que financiava intercâmbios internacionais para estudantes de graduação e pós graduação. 

“Uma colega do time me contou da oportunidade de ir para a Alemanha, que eu nem sabia que era possível. Eu tinha acabado de terminar um relacionamento do ensino médio, juntei isso com minha vontade de ser livre e fui. Eu nem acreditei muito que era verdade até estar lá. Poucas horas antes do embarque estava no Banco do Brasil pegando os euros que tinha cambiado”. 

O engenheiro ainda conta que a experiência foi muito enriquecedora e aproveitou para fazer o que o programa oferecia: expandir horizontes. “Eu nem sabia alemão, então passei os primeiros meses focado nisso. Depois, aproveitei para estudar o que não era ofertado no Brasil, como energias renováveis. Não fazia sentido continuar minha grade com matérias regulares se eu tinha nas mãos uma coisa muito melhor”.

Enquanto estava na Europa, Rafael visitou outros países. Nesta foto, está em frente a Estação Central de Amsterdã/Acervo pessoal.

Fazer escolhas que o permitia adquirir um olhar novo sobre o mundo faz parte da vida de Castro. Começou aos 12 anos saindo da casa de sua mãe, em Cariacica, para morar com o pai, em Vila Velha. Esse movimento foi para enxergar as possibilidades que não via na época. “Era um bairro muito periférico. Meus primos estavam envolvidos com tráfico de drogas, eu via minha avó indo buscar meu tio na boca de fumo e entendi que tinha que sair dali para vencer na vida. Uma das minhas primeiras lembranças, com 4 ou 5 anos, é de alguém, provavelmente minha mãe, dizendo que só estudo, a faculdade ou alguma coisa do tipo iria me levar além”. 

Em Vila Velha, as coisas não eram tão mais simples quanto imaginava. Ele morou com seu pai e outros três ou quatro tios que ajudavam na oficina do avô. “Era um monte homem, às vezes o negócio era difícil, mais por um desleixo de serem ‘machos’ morando juntos”. Por conta dessa realidade na oficina, Rafael acabou convivendo com pessoas mais velhas e amadurecendo cedo. Ele contou que preferia assim. E foi nessa época que conheceu um senhor. 

“Ele me dava uns livros e batia um papo comigo. Provavelmente foi ele que me falou do Ifes. Me contaram que era a melhor escola do estado e de graça, e se era a melhor, eu tinha que estudar lá”. Depois de três tentativas, ele passou em eletrotécnica, o curso mais concorrido da época. “Eu só escolhi porque me falaram que era o mais difícil. Só por isso dá para enxergar um traço da minha personalidade, achar que, por enfrentar um desafio grande demais, por si só, já me traria algum mérito”.

O Ifes definiu a profissão que ele escolheria e passar na Ufes era quase como uma obrigação. Os últimos meses de pré-vestibular foram corridos e ele conta que estudava até em pé no ônibus, voltando para casa. “Eu ainda dava algumas aulas de reforço, então a rotina era uma bagunça. Eu aproveitava as próprias aulas do cursinho para estudar, saia da sala e ia para o corredor. Eu achava que as aulas estavam abaixo do que eu precisava”. 

Pós intercâmbio na Alemanha

Depois de um ano fora do país, Castro retornou ao Brasil e ao Solares, em 2015. O projeto agora estava focado em construir um barco movido a energia solar. Mas a visão dele já era diferente. “O projeto tinha potencial para ser muito mais do que só o barco e eu já fazia questão de falar isso. Eu voltei, mas pra mim era ‘estou entrando nesse projeto para ser líder disso aqui em 6 meses’”. 

Em ordem, professor Juan Romero, coordenador do Solares, Franklin Santos, Diretor Geral do Solares, em 2016, e o Reitor da Ufes, na época, Reinaldo Centoducatte/Acervo pessoal.

Rafael então focou em fazer o projeto sair do papel. Em 2016, ele e mais três membros conseguiram ir ao DSB, em Búzios, para estudar os competidores e aprender como poderiam fazer o barco capixaba funcionar. Com todas as conversas e anotações feitas, quando voltaram, sua meta de vida era conseguir que as coisas fluíssem. “Eu não estava preocupado com o que as pessoas achavam ou não, eu ia falar o que tinha que ser feito e o que você não estava fazendo”. Montou um plano do que deveria ser feito e os membros trabalharam nas férias para cumprir. 

Sem ele o projeto não iria para frente, mas a ajuda de dois membros, em especial, foi fundamental para equilibrar as coisas. “Sem a Andressa nada disso teria acontecido. Eu era praticidade e ela era a organização, o racional. Ela foi batendo até que eu enxergasse onde estava errado. Se eu não tivesse passado por isso com ela, eu teria continuado limitado”. Já o Salume, era o mais tímido da turma, preocupado com o ambiente e com o pessoal e um grande contador de histórias. “Foi uma trinca de sucesso. Foi a sorte de estarmos no mesmo lugar. Eu não tinha poder sobre essas escolhas e foi bom tanto pra mim quanto para o Solares”.

Rafael junto ao professor Juan Romero, coordenador do projeto, e Andressa Santiago, parceira de Diretoria Geral/Acervo pessoal.

Em 2017, foram para a primeira competição. Foi uma confusão para conseguir todos os patrocinadores a tempo, o motor do barco só chegou uma semana antes do DSB. “A gente nem sabia se o barco boiava de verdade”, disse, rindo. O planejamento era terminar todas as provas, não necessariamente conquistar o pódio. E assim eles fizeram, terminando em quarto lugar “coladinho com o terceiro [risos]”.

“Quando voltamos a Búzios em 2018, sabíamos que dava para ganhar. Na última prova, enquanto via Salume completando a volta, eu, que sou uma pessoa fria, percebi que estava chorando. Passou um filme na minha cabeça de tudo que aconteceu até chegarmos ali”. O grito de campeão veio com 3 anos de projeto e aquilo era só o começo. 

Time de 2018, logo após a última volta no DSB/Divulgação.

O Solares se tornou tudo que o Rafael imaginou. A Estação Solares, feita para os alunos carregarem celulares e notebooks, foi inaugurada em agosto de 2019, no Centro de Artes; o projeto com a Ufes de instalação de painéis solares foi finalizado no mesmo ano. Além disso, foi homenageado em sessão solene, na Assembleia Legislativa do Estado, pelos serviços prestados à comunidade com a Estação Solares e o Projeto Girassol, área responsável por levar o conhecimento de energia solar às escolas e comunidades carentes.

A saída do Diretor Geral que era a cara do Solares tornou as coisas complicadas. A Ufes já não fazia sentido para ele e a transição foi conturbada. “Eu me doei muito para o Solares e me perdi no curso, foi um período obscuro. Eu sumia por alguns dias e não queria ter contato com ninguém”. Diversas vezes seus amigos tinham que procurá-lo em casa porque o contato era impossível. 

“Quando tudo aquilo passou, eu percebi onde o Solares tinha me levado. A gente sempre falou em como o projeto seria um case de sucesso e até meu trabalho é graças a ele”. Hoje, Rafael trabalha na área de vendas e também é responsável por gerir a área de marketing da Aruna, empresa de energia solar.

Rafael ainda sonha em abrir sua própria empresa e ajudar pessoas a terem a mesma perspectiva que ele. “Eu tenho consciência do privilégio que tive de estar no lugar certo para aceitar as oportunidades que me foram dadas. Eu estava no lugar certo quando soube do Ifes, quando entrei na Ufes, quando me contaram da Alemanha e quando voltei para o Solares. Tem gente que nem consegue enxergar as oportunidades que eu tive. Eu não sou muita coisa, mas poderia estar em lugares muito piores, como é o destino dos meninos de onde eu nasci e cresci. Eu não sou pedagogo ou nada disso, mas quero conseguir proporcionar para um menino a possibilidade de se enxergar em Harvard quando alguém disser que ela existe”.

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