Ethel Maciel: epidemiologista capixaba que ganhou grande destaque no combate à pandemia da Covid-19

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Julia Lopes

Uma das epidemiologistas mais importantes no Brasil durante a pandemia de Covid-19, a capixaba Ethel Maciel, de 52 anos, tem uma trajetória de destaque na Universidade Federal do Espírito Santo e no Brasil. 

Durante a pandemia do coronavírus, que se iniciou em março de 2020 no Brasil, a epidemiologista foi indicada para participar como consultora do Ministério da Saúde no Plano Nacional de Vacinação contra à Covid-19. Em 12 de dezembro de 2020, o Ministério da Saúde entregou o plano nacional de vacinação do governo federal ao STF (Supremo Tribunal Federal) alegando que o grupo de cientistas, em que Ethel estava incluída, foram colaboradores da criação do documento. Porém, os cientistas alegaram não ter tido acesso ou aprovado o plano. 

Diante do episódio, Ethel Maciel se manifestou publicamente em suas redes sociais e na imprensa sobre o acontecido e ganhou grande notoriedade nacional quando contestou o Ministério da Saúde e alegou não ter acessado o documento e nem contribuído para sua criação, tendo conhecimento do mesmo através da imprensa. Além disso, Ethel afirmou em entrevista à CNN Brasil que a principal discordância entre os pesquisadores e o Ministério da Saúde foi a respeito da formação do grupo de prioridade para a vacina e que algumas populações que também são vulneráveis deveriam ser incluídas.  

“Acabou que eu fui uma das pessoas que falei desse erro do ministério, essa falta de respeito e que o ministério estava errado. Eu citei quais os pontos que estavam errados, então eu acabei ganhando um reconhecimento nacional, quebrando aquela bolha aqui do Espírito Santo e depois disso eu tenho sido fonte para diversos veículos de jornal e televisão sobre a Covid-19 e tenho auxiliado no combate a pandemia.”, explicou a pesquisadora.

Muito ativa em suas redes sociais, Ethel Maciel tem 15,4 mil seguidores no seu Instagram e informa na sua biografia da rede que é: “Enfermeira. Pesquisadora. Doutora em Epidemiologia. Professora Titular da Ufes. Feminista e ativista pelos Direitos Humanos.” Mas, a professora da Ufes além disso tudo, começou sua trajetória na dança, especialmente no balé. 

Bailarina apaixonada pela ciência

Ainda adolescente, com 14 anos, Ethel Maciel veio de Baixo Guandu, interior do Espírito Santo, para Vitória estudar, em busca por melhores oportunidades na capital. Na época, a professora da Ufes dançava balé e aos 17 anos começou a dar aula de dança para se manter financeiramente. Ethel contou que nessa fase ficou muito em dúvida do que fazer, mas disse que sabia que queria estudar algo da área da saúde. “Não sabia muito bem o que fazer, eu escolhi enfermagem, comecei o curso. Fiquei muito na dúvida sobre seguir ou não, se ia continuar minha carreira de bailarina ou não.”, contou Ethel. 

Com isso, a estudante teve que conciliar sua carreira de bailarina, junto com as aulas de dança de ministrava e com os estudos na universidade, o que fez com ela ficasse desperiodizada na faculdade. 

A cientista contou que foi durante sua graduação que se interessou pela pesquisa, no início dos anos 90, no seu 4º período, quando conheceu uma professora que acabara de voltar do doutorado. “Depois que eu conheci essa professora, eu decidi que queria fazer pesquisa. Já no quarto período comecei a fazer iniciação científica. Não tinha um programa formal ainda na UFES. No meu penúltimo período, eu conheci a disciplina de epidemiologia, me apaixonei por ela e decidi então que eu queria fazer  pesquisa na área”, lembrou.

No sétimo período, Ethel teve uma super oportunidade e recebeu uma bolsa de pesquisa para coordenar, por três meses, uma pesquisa de ensaio clínico de um novo medicamento nos Estados Unidos, no “conceituado” Instituto de Pesquisa do Exército Americano. Na época, o Instituto desenvolvia uma pesquisa com o Instituto Nacional de Saúde para criar as primeiras vacinas contra o HIV e Ethel participou disso tudo. “Eu fiz meu treinamento nesse nesse grupo e pesquisava na Marinha em Washington. Eu fiquei lá 3 meses aprendendo, foi maravilhoso, uma experiência assim para o resto da vida né.”, lembrou animada.

Na volta para o Brasil, Ethel chegou cheia de inspiração e boas experiências. Decidiu organizar um serviço de pesquisa na Ufes, o Centro de Pesquisa Clínica, dentro do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (HUCAM). Depois de um tempo, Ethel passou no concurso público em 1994, para uma vaga na Vigilância Epidemiológica, mas ela acabou sendo cedida pelo Estado para continuar trabalhando no núcleo dentro da universidade que tratava sobre doenças infecciosas.

Ainda em 1994, a pesquisadora conheceu outra paixão, ensinar. Foi quando começou a dar aulas como substituta na Ufes. Em 1997 passou no concurso para ser professora universitária efetiva, sendo assim até hoje.

A pesquisadora continuou estudando e passou na prova do mestrado em Saúde Pública na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) em 1997. Depois do mestrado, veio o doutorado de epidemiologia na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)  em 2001. “E aí foi foi bem desafiador, realmente descobrir aquilo que eu queria fazer para o resto da vida.”, contou a epidemiologista.

No ano de 2006, Ethel Maciel ganhou uma bolsa de pós-doutorado na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, dedicando-se à pesquisa até 2008. “Foi uma experiência maravilhosa, porque dentro da área de epidemiologia a Universidade Johns Hopkins é considerada a número um do mundo nessa área. Foi uma oportunidade de conhecer muitas pessoas que eu lia nos livros, então foi uma experiência realmente maravilhosa e que marcou muito minha vida.”, lembrou Ethel.

Hoje, Ethel é presidente da Rede de Pesquisa em Tuberculose, doença em que se dedicou à maior parte da sua pesquisa, desde 1994. Também é bolsista de produtividade do CNPQ na área de epidemiologia e foi presidente do Congresso Brasileiro de Epidemiologia, conseguindo um grande reconhecimento dentro da sua área de atuação. 

Atualmente, Ethel é consultora da OMS (Organização Mundial da Saúde) no Programa Nacional de Tuberculose, também no Ministério da Saúde aqui no Brasil e se dedica paralelamente a estudar a área de estratégias de enfrentamento de controle das epidemias e pandemias. Já se dedicou aos estudos das epidemias do Zika Vírus, Febre Amarela e agora da Covid-19. 

Mais recentemente, por conta de toda sua trajetória e expertise, Ethel se dedica à divulgação científica em vários meios de comunicação, principalmente tratando sobre o tema do novo coronavírus. 

“Coloquei toda minha atenção, tudo o que eu tinha estudado esse tempo todo para ajudar a sociedade, o Estado e o Brasil no enfrentamento dessa pandemia.” Ethel Maciel.

UFES

Além disso tudo, Ethel foi vice-reitora da Universidade Federal do ES entre 2016 e 2019. Ela chegou a se candidatar à reitoria para 2020-2024 e ganhou as eleições com 26 votos, porém não foi nomeada pelo presidente Jair Bolsonaro ao cargo de reitora. Foi a primeira vez que isso aconteceu na Ufes, em que o presidente não respeitou a opção majoritária da comunidade acadêmica. 

A epidemiologista falou sobre a importância da universidade pública para a sociedade: “Para mim ela é o centro da minha minha luta. Entender que  a universidade pública, gratuita e de qualidade deve servir à sociedade. Acho que nós termos consciência do nosso papel social é muito importante e a sociedade compreender a importância do Servidor Público também é nossa missão, a gente tem que mostrar para eles a nossa importância. A universidade é fundamental para o desenvolvimento do país.”, afirmou.

Por fim, Ethel concluiu a entrevista dizendo: “Eu acredito, eu tenho muito orgulho da nossa instituição, à Ufes representa para mim a minha vida, eu vivi uma grande parte dela, à maior parte dela agora na universidade né e eu tenho assim um carinho muito grande, eu tenho orgulho de dizer que eu sou da UFES em todos os lugares que eu estou.”, falou com orgulho. 

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