Da rotina de mercado para as salas de aula: a trajetória de uma professora e pesquisadora em comunicação.

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Leonardo Miranda

“Deixa eu procurar o que tem de mais louco aqui”. Foi assim que Hervacy Brito se formou em Publicidade e Propaganda, na Ufes. Uma adolescente tranquila e estudiosa, que amava ler e escrever, mas apaixonada pelo rock and roll e o estilo alternativo do canal MTV. A escolha da linharense é o resultado da soma de todas as suas características. No dia da recepção de calouros, durante a apresentação do curso, ela teve certeza do que seria quando crescesse. “Me encantou, me encheu os olhos, achei que era uma coisa divertida, criativa, alegre, e isso me atraiu”.

Hoje aos 44 anos, e já sendo uma profissional com experiência de mercado, ela atua como pesquisadora e ministra aulas para os cursos de Comunicação Social da Ufes. Sua trajetória é marcada por grandes conquistas, como seu período de trabalho na Rede Gazeta. “Foi muito bacana. Eu era do departamento de TV, e a Globo tem muita ferramenta, ela investia muito em cursos técnicos, especialmente para os profissionais. Foi uma oportunidade de me profissionalizar muito”.

Mas como qualquer outro estudante, Hervacy também teve muitas dúvidas e incertezas sobre qual carreira seguir. Ela conta que se questionava pois já tinha experimentado diversas áreas durante a graduação, como o trabalho na Rádio Universitária e estágios em agências de comunicação. Mas foram suas amigas que lhe disseram que ela tinha um grande potencial como redatora, algo que ela explorou em agências de propaganda depois de formada. Ela relata que na época, as atividades exercidas eram muito mais monótonas e regradas do que atualmente, e que por conta disso, sentia a vontade de fazer mais do que estava previsto no escopo do seu cargo. 

Mas logo em breve, o marketing começaria a ganhar espaço em sua vida. Após se tornar mãe, ela passou a trabalhar com atendimento e execução de contas em agências de publicidade, pois existia uma dificuldade em conciliar a carga horária do trabalho de redatora com esse novo momento. “Você como executivo de contas começa a lidar bastante com o marketing, e ele é muito desafiador. Pois é necessário uma aptidão para se adaptar às transformações do mercado”.

Nesse momento, Hervacy faz uma primeira reflexão sobre o mercado de comunicação. Ela diz que a partir dos anos 2000, e com a ascensão da internet anos depois, ela percebeu uma mudança gradual no perfil dos profissionais, que estão cada vez mais aptos para atuarem em diversos cargos, e que admira bastante essa mudança. E simultaneamente, o papel do consumidor também mudou, se tornando cada vez mais ativo. Pois hoje, a informação e o conhecimento não se concentram na mão das grandes empresas, na verdade, é uma relação de troca. E complementa ao dizer que acha necessário apurar o olhar de percepção das necessidades do outro. “Há uma demanda por transparência. Há uma demanda por sensibilidade. Não podemos deixar que a nossa sensibilidade se endureça”, diz ela. 

A trajetória de Hervacy ainda guardava algumas surpresas. Ao ser levada por sua irmã a uma palestra acadêmica na USP, cresceu uma vontade de fazer mestrado. A partir desse momento, ela começou a dar aulas para conseguir realizar esse desejo, “comigo aconteceu o caminho inverso”, ela afirma. Foi quando ela conseguiu uma oportunidade como professora na Faculdade Pitágoras em Linhares. Ela descreve essa experiência como transformadora e de muito aprendizado, “a gente se descobre professor em sala de aula”. 

Durante sua carreira acadêmica, ela diz que foi se apaixonando cada vez mais pelo trabalho como professora, e que o mestrado contribuiu muito na sua formação como docente. “O mestrado foi um processo de desconstrução, para eu me desvencilhar da visão de mercado que eu ainda tinha”. Ela ainda ressalta a importância da ciência e da pesquisa para a formação de profissionais em comunicação. “O papel da academia precisa ser crítico”, pois de acordo com ela, as provocações causadas pela ciência contribuem para que o mercado possua volatilidade. 

Por fim, a professora se diz apaixonada pelo ato de ensinar, e que a sua felicidade está em ver as conquistas de seus alunos. “Eu acho muito importante conhecer meus alunos. Sempre busco conhecer cada um pelo nome, entender as necessidades, dificuldades, sonhos e objetivos. É o que eu falei anteriormente, a sensibilidade e percepção do outro são características necessárias para qualquer profissional”.

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