A mulher por trás do nome

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Por Miranda Perozini

Sentada em frente ao que parece ser uma larga janela, Ruth de Cássia dos Reis encara a mim como diz encarar a vida: com serenidade. Os olhos azuis, que naquela manhã combinavam perfeitamente com o tom de sua camiseta, brilhavam ao relembrar alguns dos momentos marcantes de sua trajetória. 

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Ruth iniciou a sua trajetória na Universidade Federal do Espírito Santo ao ingressar no curso de Economia. (Foto: Facebook)

Enquanto tentava contato com Ruth, semanas antes da entrevista, senti-me receosa. Como muitos de seus alunos e ex-alunos, acreditei que Ruth fosse um tanto inacessível. Relativamente fria. 

Me enganei.

Feliz ao perceber que cometi um erro, me comprometi a escrever para que todos também se descobrissem enganados. 

De sorriso fácil e conversa leve, Ruth é fiel ao destino. Enquanto narra sua história, em seu amplo apartamento na Praia do Canto, e ao lado de seu primeiro amor, o marido com quem é casada há 40 anos, o tom de voz da professora universitária, aos 62, é de quem não se arrepende de suas escolhas. 

Nascida  e criada na cidade da goiaba e da cachaça, Ruth dos Reis faz juz ao povo hospitaleiro e persistente de São Roque do Canaã. Mulher em uma família predominantemente masculina, e constantemente tida por seus irmãos como a ponta mais fraca da corda, ela nunca quis depender de ninguém.

Dedicou-se aos estudos e, sem titubear, optou por ingressar no curso de economia da Universidade Federal, e por isso, mudou-se da pequena cidade do interior para à capital, aos dezenove anos. Não soube me dizer o motivo de, em 78, ter escolhido economia; como também diz não fazer ideia do que a trouxe até os prédios da Comunicação Social. O curso, à época recém criado, atraiu seus olhares o bastante para  levar a  então adolescente às ruas e redações.

Vivenciar tão cedo um período político conturbado e um jornalismo de trincheiras fez com que Ruth desenvolvesse um bom feeling –  a sensibilidade tão almejada entre os colegas de profissão.

Sensibilidade esta que leva por toda a vida, e acredita ser a chave para a serenidade. Ruth diz que ser jornalista é assistir o mundo da primeira fila. “Ter contato com diversas realidades é o que nos faz ainda mais humanos. Assistimos às mudanças do mundo dia após dia. O que parece ser uma pauta cotidiana é, na verdade, uma pecinha que compõem o quebra cabeças do cenário em que vivemos”, ela explica, com muita confiança.

Mãe de dois filhos, ela leva seu telefone até a câmera de seu computador, alto o bastante para que eu consiga ver o seu papel de parede: Uma foto dos dois netos. 

Animada, comenta o quanto seus filhos sempre foram muito diferentes, e traçaram caminhos distintos demais ao longo da vida. A questiono sobre a criação dos meninos, e a conciliação da maternidade com os estudos, tão nova. Ruth me responde com uma frase de sua falecida mãe, “Eu nem me lembrava que tinha 20 anos”, fazendo-me sorrir em resposta. “As coisas sempre fluíram”, ela completa.

Não atentar-se à idade e não ceder às armadilhas do tempo e dos pequenos conflitos, é para Ruth, simplesmente viver. Dançar ao acaso. 

Lidar com as diferenças e os imprevistos,  são alguns dos principais valores de um bom comunicador. “O jornalismo me ajudou muito a respeitar os acontecimentos, e a alteridade das pessoas. Por exemplo, fico muito feliz em ver um dos meus filhos seguir a carreira da comunicação, mas também respeito o fato do meu mais velho amar as ciências jurídicas, e ter uma personalidade diferente. Pessoas são diferentes, não podemos nos irritar por isso, devemos celebrar isso”. 

Em um mundo focado na alta produtividade, e na conquista de objetivos cada vez mais cedo, falas como a da professora Ruth podem soar um tanto conformistas. 

Entretanto, ela nega que tenha esperado demais para que as coisas acontecessem. “É claro que eu sempre tive aspirações pessoais e principalmente profissionais bem claras. É um erro pensar que precisamos sentar e rezar para que tudo mude. Precisamos aproveitar bem as oportunidades, e foi o que fiz”, declara. 

Reconhecendo seu contexto de privilégio, Ruth afirma com propriedade que a maioria das pessoas não possui a mesma oferta quando o assunto é estudos e carreira. 

E ainda sobre carreira, a trajetória da professora universitária é impecável. Em memorial apresentado à Comissão Especial (CES) do Centro de Artes, da Ufes, como requisito parcial para progressão funcional à classe de Professor Titular, Ruth descreve em cerca de 74 páginas a sua caminhada acadêmica e profissional.

De estagiária em A Tribuna, correspondente da Folha de São Paulo, orientadora e coordenadora do mestrado, à Superintendente de Comunicação da UFES, e professora titular após mais de décadas de Universidade. 

Pergunto se um dia imaginou conquistar tanto prestígio e renome no campus onde entrou pela primeira vez, sem consciência do futuro que a aguardava. “Na verdade, eu não trabalhei pensando nisso, ou lecionei com esse intuito. Muito do que vivo é consequência do meu longo trabalho, mas não foi meu objetivo. Fico feliz de saber que tenho todo esse ‘prestígio’, mas a sala de aula, a pesquisa e a universidade para mim, são simples. Eu aprendo muito mais que ensino”. 

De rotina tranquila, ainda que exaustiva, atrelada a todo o contexto pandêmico, Ruth divide o seu tempo entre a casa, o contato com os filhos, a prática de crochê, cuidado com as plantas pela manhã, o trabalho remoto, orientações de pesquisa e mestrado e, claro, algumas aventuras na cozinha. 

Ansiosa para voltar a passar o seu tempo nas salas de aula e sentindo falta das conversas de corredor, a professora comenta que a vida antes da pandemia era focada não só em trabalho mas em viagens para visitar os filhos, que moram no Rio de Janeiro e no Canadá. 

Encarar os olhos de Ruth de Cássia dos Reis, escutar a sua risada e seus devaneios sobre a vida, em um papo descontraído, ainda que por detrás de uma câmera, há alguns quilômetros de distância, sem a companhia de um cafézinho do Honofre, é tocar e entender muito de sua essência.

A primeira mulher nomeada professora titular do Departamento de Comunicação Social da Ufes, professora de disciplinas essenciais, e orientadora e pesquisadora em trabalhos de peso, assina seu nome na história do campus e de centenas de alunos com a notoriedade que seu lattes extenso exige, e com a simplicidade e leveza que sua alma carrega. 

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