Da sala de aula ao resgate das raízes quilombolas

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Desde que visitou a comunidade de Monte Alegre pela primeira vez, ela ouve relatos de um povo para construir memória sobre a escravidão. Conheça a pesquisa de Geisa Ribeiro

Alexandre Passos

“Os escravizados simplesmente desapareceram após a abolição? Eu acredito que não. Para quem conviveu com essas pessoas, a escravidão foi ontem.” Esta é a conclusão da pesquisadora da Ufes Geisa Lourenço Ribeiro. Desde a sua primeira visita à comunidade quilombola de Monte Alegre, na zona rural do município de Cachoeiro de Itapemirim, ela tenta redefinir a noção coletiva de tempo e memória sobre o período da escravatura negra no Brasil – último país das Américas a abolir o sistema.

Capixaba nascida em Vitória, mas que morou a vida inteira em Cariacica, a professora, de 34 anos, busca entender “o que veio após” a assinatura de um documento que pouco garantiu condições de reparação. “Estava interessada em saber como essas pessoas se inseriram no mundo livre e como se construíram ao longo do tempo”, justifica a pesquisadora.

O desejo de estudar a população negra é fruto de um processo de auto aprendizado. Compreender-se enquanto negra em uma sociedade que a chamava de “moreninha” despertou sua curiosidade. “Eu nem me via como negra de fato. Só fui me descobrir negra na faculdade”, revela.

O interesse atravessou questões pessoais e se conectou com a necessidade de entender o tratamento pejorativo e preconceituoso dado aos corpos negros. Nos primeiros passos acadêmicos, contou com o suporte da professora Adriana Pereira Campos. “No segundo período, ela me deu aula de História da África. Acabei me aproximando do tema e fiz uma pesquisa com ela durante a graduação”, explica.

Professora de História do Ifes de Viana, Geisa tinha como foco do doutorado descobrir o que fizeram e como viveram os escravizados libertos da Região Central, hoje conhecida como Grande Vitória. 

Suas principais fontes de pesquisa eram os inventários, a partir dos quais era possível mapear integrantes e gerações de famílias descendentes de escravizados. No entanto, a atuação baseada nas documentações escritas era limitada. Ela precisava de uma visão mais humana, mesmo que trabalhasse com números. Foi quando uma mensagem em seu Facebook a surpreendeu.

CAMINHO CRUZADO COM A FAMÍLIA VENTURA

Um homem chamado Leonardo Marcelino Ventura escreveu a Geisa: acho que encontrei minha família na sua dissertação. Ele era líder quilombola da comunidade de Monte Alegre, no interior de Cachoeiro de Itapemirim, e estava escrevendo um livro de memórias sobre sua família. Ao pesquisar na internet a respeito de suas raízes no município, Leonardo encontrou textos publicados por Geisa que abordavam a escravidão na região de Cachoeiro. O impacto desse contato tão inesperado foi crucial para a pesquisadora.

Naquele momento, mesmo sabendo que o projeto ficaria mais custoso, resolveu atender ao chamado de Leonardo e mudou seu local de investigação. Mergulhou na história daquela comunidade. E para conhecer de fato era preciso ver de perto. Olhar no olho. Enxergar.

“Num primeiro momento, não tive coragem de ir a campo porque não me sentia preparada”, confessa. Foi só depois de fazer uma matéria de História Oral com a professora Maria Cristina Dadalto que ela passou a se sentir instrumentalizada para a visita. 

Como quem desbravava pela primeira vez o próprio estado em que nascera há três décadas, Geisa abraçou a missão. “Não estava acostumada a pegar o carro e botar na estrada. A única estrada que conhecia era a de Cariacica a Santa Maria de Jetibá”, relembra.

Mantendo contato por e-mail e Facebook com Leonardo, que a abasteceu com dicas caso o GPS falhasse, ela chegou à comunidade. Entre tantos sentimentos, Geisa destaca a sensação de encontro pessoal. Para ela, parte de sua ancestralidade também residia ali, naquela comunidade longínqua que nunca tinha visto antes e que nem imaginava visitar. Ela comungava, enquanto mulher negra, do laço de pertencimento, por vezes esquecido, do qual é possível sentir que ainda existem raízes vivas e fortes num solo duramente arado pela escravidão.

“Visitar a comunidade quilombola me fez perceber como a gente sabe pouco sobre essa realidade no Espírito Santo. Como pode um estado que foi o segundo maior em concentração escrava na segunda metade do século XIX não ter memória sobre a escravidão?”

SIMPLESMENTE MONTE ALEGRE

Geisa conseguiu traçar a ancestralidade da família de Leonardo até meados do século XIX, chegando a dois ancestrais africanos que foram trazidos à região como escravizados.

Na comunidade, uma das primeiras pessoas com quem ela conversou foi Seu Alécio, pai de Leonardo. O senhor de 89 anos, descrito por Geisa como lúcido e ativo, recordava com detalhes sua árvore genealógica. Ao falar sobre o avô materno, chamado Leonardo Veridiano (cujo nome também foi dado ao seu filho), Alécio revela que o pai de sua mãe nasceu “ingênuo”. O nome é dado às crianças nascidas após a Lei do Ventre Livre (de 1871), mas cujas mães ainda eram escravizadas, como no caso de Raquel Veridiano, bisavó de Alécio.

O outro lado desta genealogia também é revelador. E ainda mais próximo da escravidão. O avô paterno de Alécio, Marcelino Ventura, foi um escravizado. Ou seja, Seu Alécio faz parte, apenas, da segunda geração nascida após a abolição. As memórias que ele tem de seus antepassados são, obrigatoriamente, memórias da mais marcante opressão imposta à população afro-brasileira. Ao mesmo tempo, são memórias familiares, das quais se compartilham com afeto as lembranças de seus entes queridos. Para Geisa, absorta naquele momento, foi como se ela encarasse o passado frente a frente, ouvindo histórias da boca de um neto da escravidão.

“A escravidão terminou há pouco tempo para essas pessoas. Parece longe para quem não tem memória, mas para aquela geração do Seu Alécio foi ontem. Isso é muito forte”

Leonardo Ventura, responsável por despertar o interesse de Geisa na realidade quilombola, publicou seu livro de memórias Simplesmente Monte Alegre em dezembro de 2016. À época da primeira visita da pesquisadora, uma das filhas do escritor estava fazendo mestrado em Pernambuco; outra, tinha acabado de passar na Ufes; e ainda outra, formada pelo Ifes. “É uma ignorância nossa achar que as comunidades são isoladas, quando não são. Ali existem pessoas com trajetórias incríveis de luta e sucesso que eu não conhecia e passei a conhecer por este contato”, avalia a experiência.

REFÚGIO NA EDUCAÇÃO

Ao tomar conhecimento da jornada pela educação que as filhas de Leonardo traçavam, foi impossível não lembrar de sua própria. Geisa cresceu ao longo da década de 1990. Como todas as outras, uma década difícil para os brasileiros pobres e da periferia. E há de se admitir que o país se acostuma com suas trágicas dificuldades. Acostuma-se à fome e ao desemprego, à violência e ao desamparo, à carência e ao descaso. Por isso, Geisa fugiu. Sua rota de fuga foi a educação.

Estudante de escola pública pela vida inteira, ela teve a oportunidade de fazer parte do Projeto Universidade para Todos, da Ufes. Acompanhou aulas gratuitas preparatórias para o Enem no último ano de seu ensino médio. Como resultado, no ano de 2005, foi aprovada em primeiro lugar para o curso de História na universidade capixaba. 

“Eu sou a primeira pessoa da minha família a completar o ensino médio e a fazer faculdade”

Geisa reflete que a única certeza que tem na vida é a de que seguirá com um valor guardado consigo desde criança e que ainda cultiva como adulta: o aprendizado. E não pretende parar. “Sou uma estudante e vou ser para sempre”, garante.

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