A diferença entre educador e acadêmico

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Um pouco sobre a trajetória de um japonês que “veio com defeito”

Por Marina Coutinho

“Eu costumo dizer que vim com um defeito de fábrica”, ironizou Fernando Yonezawa. “Nunca fui bom em matemática, mesmo sendo japonês, e sempre me interessei por diferentes formas de arte, além de filosofia e sociologia”. Por meio da sensibilidade e a capacidade de desenvolver pensamento crítico, Fernando Yonezawa traçou seu próprio caminho.

A minha primeira aula com Fernando foi em 2019, de políticas públicas e educação. Um professor que não cobrava chamada, dava aula em pé fazendo rabiscos rizomáticos no quadro, apresentava inúmeras questões em sala que deixavam meus olhos atentos e minha mente a mil por hora. Muitos participavam e enriqueciam as discussões.

Depois de passar dois anos lecionando na Universidade como professor temporário, Fernando passou a enviar currículos para todos os cantos do país e surgiram algumas oportunidades à sua escolha. O raciocínio do professor foi bem simples: “volto para Campinas, um lugar que não tem nada, vou para o interior de São Paulo que tem menos coisa ainda, ou vou morar na praia?”. Fernando mudou-se para Vitória, Espírito Santo, para dar aulas em em uma faculdade particular do Estado e lecionar na UFES como professor orientador de pós-graduação e psicologia institucional. 

O professor afirma que hoje faz o que realmente gosta: pensar na educação pelo viés da Esquizoanálise, lecionar e manter seus projetos com escolas públicas locais.

O espaço para arte

Marbarú Arte e Filosofia é um lugar onde a arte se encontra diretamente com a psicologia. A regra era, preferencialmente, tirar os sapatos na entrada antes do tatame e andar por todo o espaço descalço ou de meia. Foi a primeira vez que eu vi golpes da arte marcial, Aikido, ao vivo, a primeira vez que dancei dança do ventre e tomei chá de anis estrelado. Marbarú era o espaço que Fernando tinha, junto com sua companheira Ângela, e convidava alunos não só para performar e vivenciar arte, mas para fazer revolução. Rodas de discussão, dinâmica corporal, cine debate… a possibilidade do espaço Marbarú é infinita.

As memórias

Ao longo de sua infância e adolescência Fernando escutava muito dos pais que era fundamental para o Brasil investir em educação, e que dessa forma, o nosso país pudesse “evoluir”. Mesmo sendo uma afirmação genérica e simplista, como o próprio professor definiu, foi algo que o marcou muito e acabou moldando certezas ao longo de sua jornada.

A paixão pela esquizoanálise surgiu a partir da filosofia de Gilles Deleuze com Félix Guattari e foi cultivada desde a graduação quando as doenças psicossomáticas aguçaram a curiosidade de Fernando, ao tentar compreender psique e corpo através da iniciação científica. A partir desse momento, surgiu mais uma grande paixão, que está com ele até hoje: a pesquisa.

A academia sempre pareceu um ambiente de hierarquia e vaidade que não interessava ao professor. Há alguns anos, em uma recepção de calouros na Universidade que lecionava na época, os professores costumavam sentar nas cadeiras e os alunos no chão da sala. Era imposto uma hierarquia explícita quando os professores, se encontravam em um nível superior aos alunos, que sentavam no chão e os observavam de baixo para cima. Para que houvesse uma comunicação linear e uma facilidade de diálogo sem autoritarismo, Fernando preferiu sentar no chão, junto aos alunos, afinal, não era necessário usar uma cadeira. Todos estavam na mesma sala de aula e tinham o mesmo objetivo: apresentar o curso e conhecer os alunos novos.

Essa não foi a primeira vez que, não só Fernando, mas qualquer pessoa que já esteve em um ambiente escolar, pôde presenciar um olhar de desdém hierárquico, seja de um professor, coordenador, diretor ou qualquer funcionário da instituição. Independente de qual local seja, a hierarquia se faz muito presente. Quando algo incomoda, nem que seja pouco, é papel daquele que se sente incomodado procurar questionar porque a sociedade ensina e permite que seja dessa forma. E se possível, lutar contra, sempre. Pelo visto, Fernando, me parece que as aulas de educação anarquista tem surtido algum efeito para a aluna que vos fala.

Durante o mestrado, em uma escola periférica do Rio Grande do Sul escutou-se tiros muito próximos ao local onde ele e os professores da instituição estavam tendo uma reunião. Fernando, psicólogo, mestrando e participante da pesquisa, nunca tinha escutado tiros antes na vida. A partir daquele momento percebeu que estava vivenciando uma realidade completamente diferente da sua. Mais tarde notou que os tiros atingiram o carro em que tinha usado para chegar até a escola. “É bom isso acontecer, para vocês verem onde a gente está” disse um dos professores que estavam sendo acompanhados pelos psicólogos. A violência naquele local, segundo Fernando, era aleatória, havia muito apreço pela vingança e tanto os estudantes, quanto os professores arriscavam suas vidas todos os dias. 

Durante esse mestrado, pôde entrar em contato com professoras que estavam a ponto de desistir de lecionar. O trabalho cansativo e os riscos iminentes de violência pelos familiares dos alunos e pelos próprios alunos eram fatores que sufocavam os professores daquela instituição. Eles estavam adoecidos e era mais que necessário o trabalho de psicólogos naquela escola pública periférica. O acompanhamento feito com as professoras do local fez com que elas pudessem curar certas feridas e melhorar o relacionamento com alguns alunos considerados “difíceis”, causando uma aproximação natural e amigável, simplificando essa relação professor-aluno que um dia foi tão complicada. “Depois da intervenção uma professora se tornou uma grande amiga de um dos alunos da escola que antigamente tinha medo”, exemplificou Yonezawa.

Entre o mestrado e doutorado, Fernando fez trabalhos voluntários com meninos de rua, deu oficinas corporais abertas ao público no Museu da Imagem e do Som de Campinas e fez um curso de especialização em esquizodrama, em Belo Horizonte. 

O chamado

“Professor, você poderia dar aula de esquizoanálise pra gente?”. Essa pergunta foi feita no primeiro dia de aula, por uma aluna da Universidade em que Fernando lecionou temporariamente no final do seu doutorado. Surpreendentemente, em momento algum durante a trajetória de Yonezawa até esse instante, o professor se considerava de fato professor. Talvez tenha sido porque se achava muito novo perto dos graduandos de psicologia daquele lugar, mas depois da pergunta da aluna algo floresceu nele. “Quando aquela aluna me chamou de professor, me deu um baque. Naquele momento eu encontrei um lugar para oferecer o que eu tinha de melhor.” Foi a partir do respeito e afeição que a aluna colocou naquela palavra “professor” que Fernando se assumiu de fato como pesquisador, mas mesmo assim, impôs condições específicas: não seria necessariamente acadêmico.

“Então eu serei um educador”, pensou. Inspirado por Paulo Freire, pela educação anarquista, por pedagogias revolucionárias e pelas próprias ideias da esquizoanálise, Fernando entendeu que não queria ser apenas um técnico que transmite conteúdo, mas sim um educador. Além dos conteúdos ministrados nas aulas, permite questionamentos sobre sociedade e política.

Foram dois anos intensos para o educador, nas suas primeiras vezes como “professor assumido”. Yonezawa tinha a liberdade de abrir disciplinas diversas e abordar temas ricos, como vivências corporais, as obras de Nietzsche e pôde lecionar sobre esquizoanálise. Lotava a sala com 50, 70 alunos por semestre. Em nosso encontro, feito de forma virtual, pude perceber a saudade que Fernando sentia da liberdade de poder lecionar de forma livre, sem as amarras da burocracia encontradas hoje.

“Vejo a psicologia como um trabalho educacional, você aprende um novo jeito de ser, aprende a se cuidar, aprende a ser mais sensível. É preciso aprender”. O trabalho educacional permite aprender a ser mais saudável, a lutar Aikido, a lidar com as novas formas de dar aula durante a pandemia, a lidar com o fato de que, temporariamente, Marbarú Arte e Filosofia está fechado e, por fim, aprender a ser quem somos, mesmo que isso seja considerado um japonês com defeito.

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