SEIS RETRATOS DE UM RECÉM DOUTOR EM TEMPOS DE PANDEMIA

Share Button

Repórteres: Jonathan Neves e Milena Costa/ Edição: Wesley Vitor/ Ilustrações: Maria Izabel Ichisato

George Bueno nos conta sobre a sua trajetória acadêmica, profissional e de vida pessoal neste momento de pandemia.

1.

O recém doutor George Bueno entrou na sala virtual. Ele é alto, dos cabelos lisos, sorriso sereno e bem mais jovem do que imaginávamos. Sentado em uma rede logo se desculpou da possibilidade de sermos interrompidos pela pequena e recém nascida Victoria Maria. 

Aracruzense nato, Bueno é formado em odontologia e defendeu sua tese de doutorado em Saúde Coletiva intitulada “Dependência de internet, ansiedade, depressão e uso de substâncias psicoativas na adolescência tardia” no mês de julho, quando a taxa de transmissão da Covid-19 no Estado era de 0.79 a cada 100 capixabas. 

Posicionado em um dos quartos da sua residência, ele nos recebeu virtualmente com um sorriso no rosto – junto ao bom humor – para contar sobre a sua trajetória acadêmica, profissional e de vida pessoal nesse momento de pandemia.

2.

Entre uma pergunta e outra, George relembrou o início da sua carreira acadêmica. Apesar da escolha da área por afinidade às disciplinas de ciências naturais e biológicas, sua trajetória com a odontologia se confunde com sua própria história. Como diz o ditado popular: “filho de peixe, peixinho é”, e com Bueno não foi diferente. As suas primeiras vivências da área vinham da sua mãe que também é dentista. 

“Quando prestei vestibular, nós escolhiamos a carreira de acordo com a aptidão em certas áreas. Eu era muito bom em biologia e química e, apesar da minha mãe ser dentista, isso foi um fator que determinou na minha escolha”, contou pra gente.

Após a conclusão do curso, ele partiu rumo ao Rio de Janeiro para uma especialização e logo depois emendou no mestrado com um projeto na área de ortodontia. “Trabalhar com projetos que envolvem a estética dos pacientes era uma área que eu gostava bastante e que me dediquei por quase seis anos”. Porém, pro doutorado Bueno desejava outra área. “Dessa vez, em especial, eu queria estudar sobre a internet e redes sociais. Era algo que já vinha desenvolvendo desde o mestrado e na Saúde Coletiva eu consegui colocar em prática”.

3. 

Sobre a sua pesquisa, Bueno estudou a dependência da internet e das redes sociais a partir de dados coletados com mais de 2.000 jovens do ensino médio, com foco no uso excessivo da internet. “O perfil desses dependentes são os mais novos, entre 15 e 16 anos, estudantes do primeiro ano do ensino médio”. As informações coletadas revelaram um grave problema: 80%  dos dependentes de internet tem chances de desenvolverem ansiedade e depressão. 

Numa época em que frequentemente as universidades são desqualificadas, principalmente na área de pesquisa e extensão, a educação pública se torna uma das primeiras áreas a sofrer com redução de  investimentos, com os cortes nos gastos do governo. Bueno ressalta a importância do financiamento, para a compra de computadores, software e outros bens que ajudaram nas pesquisas. “Nós recebemos e conseguimos investir em materiais que auxiliaram não só minha pesquisa, mas também de estudantes da iniciação científica”, explicou. 

4.

Das vivências mais recentes, ele contou como foi a experiência de defender a tese em meio a pandemia e de forma on-line. A apresentação foi no dia 27 de julho e ele falou sobre o significado desse momento na sua vida. “Defender a tese é sem dúvidas um dos momentos mais aguardados e com o maior significado. Porém, teve pontos negativos porque gosto do contato físico e nesse momento os meus familiares, amigos e até a própria banca examinadora que acompanhou a minha caminhada não estiveram presentes para compartilhar esse momento tão importante”.

Entretanto, Bueno levanta os pontos positivos. “Costumo dizer que a pandemia e o isolamento foram oportunidades que tive para conseguir finalizar a tese. Como o meu prazo final estava se aproximando e eu estava sem tempo pra me dedicar a escrita, eu consegui dar todo o gás que não tinha conseguido realizar durante toda a pesquisa”.

O ano de 2020 foi difícil para muitos brasileiros. Para Bueno foi o ano do encerramento de um ciclo que estendeu sua duração por um ano. ”Na pandemia eu tive esse alívio de finalizar o doutorado, mas ao mesmo tempo, eu estava muito sentido por que tenho amigos que perderam parentes. Eu estava vivendo uma grande alegria em um momento de muita tristeza para muita gente”. 

5. 

Durante a maior parte do doutorado, George conta que sua dedicação a tese se dava no seu tempo “extra”. “Eu estudava de manhã, às vezes tinha aula à tarde, então tinha que escrever a noite”. O dentista relata que era comum ouvir a seguinte pergunta: “Como consegue fazer tanta coisa?”. A resposta era simples: “não fazendo um monte de outras”. 

Nesse período, ele abriu mão de um rotina de lazer. “As vezes precisava faltar um encontro de família ou dormir mais tarde. Esse senso de responsabilidade aliado a uma mudança de foco é necessário”. Contudo, o dentista reconhece que se manter centrado só nos estudos pode ser problemático.

A pesquisa de George também envolvia, é claro, ir a campo coletar dados. Circulando entre escolas públicas da região Metropolitana de Vitória, o pesquisador se deparou com uma realidade espantosa. “Ficava pensando como alguém conseguia estudar naquela sala”. A falta de interesse dos estudantes e de uma metodologia atrativa por partes dos professores tornava o ambiente escolar uma verdadeira desordem. “A escola tem um papel que é maior do que o de estudar apenas. A gente sai uma pessoa diferente depois de uma experiência dessa”.

Como já dizia os cantores Chorão e Negra Li: “O jovem no Brasil nunca é levado a sério”. A experiência de George com os adolescentes de escolas públicas e privadas faz juz a canção que embalou a juventude dos anos 2000. “As pessoas dão pouca importância a adolescência. A gente percebeu que esse grupo não tem um olhar carinhoso ou de cuidado pelos gestores e responsáveis”.  

Ouvindo a história de George tudo parecia se encaixar e acontecer com certa naturalidade e sintonia. Desde a escolha da profissão até o “encontro” com sua tese de doutorado. No último ano de sua pesquisa não poderia ser diferente. No mesmo ano em que se tornou doutor, o rapaz se casou novamente e teve uma filha. “Tiveram esses acontecimentos pessoais muito positivos que coincidiram com o final da minha tese”.

6. 

Em tempos de desmonte do Sistema Único de Saúde(Sus) no meio de uma pandemia, fica claro que o serviço é fundamental para o país. George diz que o que espera para o final desse longo isolamento social é que os profissionais da saúde sejam reconhecidos. 

“Eu acho que as pessoas infelizmente vão esquecer a importância que os profissionais da saúde estão tendo nesse momento. Se depois disso os profissionais da saúde fossem mais valorizados seria mais interessante”.

Não sabemos se de fato os profissionais da saúde ou os pesquisadores serão vistos com outros olhos no final disso tudo. Porém, quando questionado sobre como gostaria de ser lembrado, George foi categórico: “Acho que todo mundo gostaria de ser lembrado com carinho. Mais do que alguém que fala, eu sempre gostei de ser alguém que age conforme com o que acredita. Eu acho que deixei essa mensagem por onde passei”.

Deixe uma resposta