Parque-Ufes no pique da pandemia

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por Daniel Jacobsen / edição Andrezza Steck

Na quinta-feira, eu já acordei cansado. No resto da semana também, mas essa crônica é sobre a quinta. Dormi bem não, viu… Sabe aqueles mosquitos que nos privilegiam com uma sinfonia zumbida? Fui privilegiado a noite toda, da quarta pra quinta. Não matei o mosquito, sou vegano. Levantei de manhã já pensando em deitar de novo. Acumulei aproximadamente 850 tarefas do Earte, talvez uma a mais ou uma a menos; se levantasse mais tarde não daria tempo de fazer tudo. Quis devolver alguns livros da biblioteca da Ufes que estavam comigo desde o início da pandemia. O empréstimo não ia vencer, mas como eu iria precisar solicitar outros, achei melhor devolver esses que já não seriam necessários.

No caminho até a Ufes, dormi melhor no Transcol do que havia dormido na noite anterior. Cochilinho dos estudantes justos. Chocado fiquei quando cheguei lá. Gente correndo, caminhando, se alongando logo cedo, usando o espaço físico da universidade que está com as atividades presenciais suspensas  desde março.

As calçadas e passarelas viraram pistas. As áreas com grama receberam os praticantes de yoga (onde ainda cabe gente, porque tem uns matos precisando de corte). Espaços maiores se transformaram em campos para brincar com os cachorros. E haviam muitos!

Aparentemente, Vitória tem um novo parque. Se não fosse a Fernando Ferrari cortando os dois espaços, poderia ser uma extensão da Pedra da Cebola. E a Ufes é linda, não é? Os jasmim-mangas estão floridos, espalhando flores de várias cores pelo chão. Todo tipo de árvore no interior do campus de Goiabeiras faz a paisagem reforçar a hipótese de um parque.

Percebi que o espaço de lazer estava consolidado, mas o campus ainda é local de trabalho para muitos. Alguns professores estão utilizando salas e equipamentos. Funcionários da limpeza e alguns técnicos completam o quadro.

A Universidade está vivíssima!

As atividades nos campi da Ufes  estão suspensas até dezembro de 2020, com possibilidade de prorrogação, mas dentro do possível as produções continuam. A Ufes enquanto polo do saber funciona então em uma outra territorialidade, a digital. Se as salas de aulas e laboratórios não podem comportar as medidas de biossegurança que protejam alunos e professores, o virtual está a todo vapor. Aulas, eventos técnico-científicos e exposições em ambientes digitais tentam dar conta do tripé ensino-pesquisa-extensão. O resultado e reconhecimento vêm em forma de premiações: a excelência está mantida.

Divagando sobre o novo momento da universidade, despertei quando quase fui atropelado por um grupinho que corria sem máscara na passarela. Ok que correr de máscara é complicado, mas eles que andassem, então. Meu novo vício é reparar em quem está sem máscara e fazer comentários mentais sobre o “chifre” dessas pessoas dificultar o uso da peça. Vi um meme falando isso no Twitter e levei pra vida.

Mesmo morrendo de sono, precisando de uma xícara grande de café, me senti contagiado pelo ânimo das pessoas se exercitando na Ufes. Se eu morasse mais perto, talvez pudesse usar o espaço também. Estou sedentário desde o começo da pandemia (desde antes da pandemia, na verdade, mas finge) e começar algum exercício seria ótimo. Abandonei a ideia quando pensei que teria que acordar ainda mais cedo para fazer isso.

Chegando na biblioteca, abri a mochila para pegar os materiais que iria devolver. Aí que veio a surpresa. Sonâmbulo que estava quando saí de casa, peguei a pilha errada de livros em cima da minha mesinha. E lá estava eu tentando devolver para a biblioteca os meus próprios livros: um Rowling, um Christie, dois Maias e um Aciman um pouco empoeirado. Percebendo o erro guardei tudo na mochila. Fui até lá à toa.

Quase atropelado pela segunda vez saindo da biblioteca, mas agora por um grupinho com máscara, comecei a correr também. Aproveitei a ida à Ufes de um jeito ou de outro porque me recuso a fazer esse trajeto todo em vão. Mas cansei. Como eu disse, sedentário. Depois de correr um bom trecho no parque-Ufes, vou tirar uma folga de algumas semanas antes de fazer outro exercício.

Os livros certos, os da biblioteca, continuam na minha mesinha. Já corri o bastante. Se eles tiverem pressa para serem devolvidos, eles que corram.

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