INCERTEZAS DO EARTE: Como ficou a situação da universidade com a Covid-19

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repórter: Isabella de Paula | edição  Andrezza Steck

Com a nova realidade da pandemia, o calendário acadêmico sofreu modificações e as medidas adotadas pela Ufes até o momento não incluem os calouros do 2º semestre de 2020 no ensino remoto, questão que ainda será discutida pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe).

Ser aprovado no vestibular de uma universidade pública é o sonho de muitos jovens brasileiros, ainda hoje. Conquistar uma vaga no curso dos sonhos e ter acesso a uma educação gratuita e de qualidade não é tarefa fácil, no entanto grande parte dos finalistas do ensino médio e de cursinhos de pré-vestibular se aventuram nessa jornada em busca do diploma. 

Este ano, em especial, surge um novo obstáculo, além dos já esperados para ingressar no ensino superior: a pandemia da Covid-19, que pegou a todos de surpresa e demanda novos recursos técnicos e administrativos das instituições, a fim de oferecer o ensino a distância aos estudantes. 

Após quase seis meses com as atividades acadêmicas suspensas, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) aprovou no dia 18 de agosto, por meio da Resolução CEPE Nº 30/2020, o Ensino-Aprendizagem Remoto Temporário e Emergencial (Earte), formato de ensino virtual com o objetivo de substituir as atividades presenciais que foram paralisadas por causa do novo coronavírus. 

Com a atual realidade, o calendário acadêmico precisou sofrer alterações e as medidas adotadas pela universidade até o momento não incluem os novos ingressantes do 2º semestre de 2020 nessa modalidade de ensino. Eles devem começar os estudos apenas no ano seguinte.

Incerteza leva estudante a iniciar estudos em particular  

O estudante de Medicina Ivo Carvalho, recém-aprovado na Ufes, explica como está sendo o processo de inserção nessa modalidade online.

“No meu caso, quem passou na metade do ano, precisa esperar um pouco, porque agora a Ufes está fazendo a reposição de todos os estudantes do primeiro semestre, que deveriam ter começado  as aulas em março e finalizado por volta de junho […]”.

Ele acredita que suas aulas devam começar no início de fevereiro do próximo ano, segundo a previsão anunciada pela universidade, mas a oferta de disciplinas vai depender do contexto de pandemia em 2021. 

“A minha turma vai começar as aulas em fevereiro, pelo menos é a previsão, mas ainda não se sabe se, com o desenvolvimento da doença aqui no Estado, o ensino vai ser Ead (Ensino a distância), híbrido ou, em uma possibilidade otimista, se pode voltar a ser 100% presencial.” 

Ivo Carvalho, calouro de Medicina da Ufes

FOTO: arquivo pessoal

O calouro conta que devido à essa situação e já sabendo que só começaria os estudos no próximo ano, decidiu realizar o primeiro semestre em uma instituição particular na qual foi aprovado a fim de eliminar matérias futuras.

“Quando passei na Ufes, eu decidi fazer a matrícula e continuar meus estudos na particular, porque eu sabia que só iria ter aula no ano que vem, então minha intenção era terminar esse período na minha faculdade e tentar cortar matérias depois.”

Contudo, mesmo estudando regularmente, Ivo admite que a aprovação no vestibular despertou uma ansiedade em iniciar as aulas na instituição pública, desejo que foi adiado por alguns meses. “Eu queria ter começado logo, fiquei bem ansioso, principalmente quando eu passei. O sentimento veio logo à tona e a vontade foi de começar logo em seguida, caso não tivesse essa pandemia […]”, comentou.

Proposta de resolução da Ufes inclui novos estudantes no Earte

A servidora do Departamento de Registro e Controle Acadêmico da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) Anita Oliveira Lacerda explica que já existe uma proposta de resolução para definir novas medidas acadêmicas, contudo o documento ainda precisa passar pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) e pela Câmara de Graduação da universidade. A última reunião do conselho aconteceu no dia 23 de novembro, mas não houve nenhuma discussão sobre os caminhos que serão seguidos para o próximo semestre.

“O conselho de Ensino e Pesquisa tem autonomia para propor e votar as resoluções novas. Depois que elas são aprovadas no Cepe, são publicadas no Departamento de Administração dos Órgãos Colegiados Superiores (Daocs)”, informa Anita.

Ela afirma que a única certeza até o momento é que haverá sim o Earte no próximo semestre e os novos ingressantes serão incluídos no formato virtual, mas não há divulgação dessas definições ainda.

“A gente não sabia como iria ficar a situação da pandemia, mas já há definição para incluir esses novos alunos no Earte”.

Anita Lacerda, servidora da Prograd

Sem discussão sobre o próximo ano até o momento 

O secretário geral do Diretório Central dos Estudantes da Ufes (DCE), Marcos Herkenhoff, explica que as discussões sobre 2021 ainda não começaram no Conselho. “A reunião do Cepe já aconteceu, porém não começamos a discutir o período que vem ainda. Deve acontecer uma sessão extra nas próximas semanas para ver isso”, explica.

FOTO: Arquivo pessoal

Ele acrescenta que nos próximos dias também devem acontecer encontros com estudantes dos centros acadêmicos para conversar sobre o assunto.

Sobre a modalidade de ensino pretendida para o próximo semestre, Marcos comenta que existe uma proposta de ser híbrida, presencial e virtual, contudo, devido às incertezas de uma segunda onda do vírus, não é possível nenhuma confirmação ainda. “A discussão está bem menos polarizada. As posições estão indefinidas. Muita gente em dúvida sobre o que acha dessa ideia de ensino híbrido no período que vem. A gente ainda não elaborou uma posição com as entidades. Eu acho que as pessoas não vão se pautar radicalmente contra o ensino híbrido, embora tenham ressalvas, uma vez que a situação tem piorado em relação à pandemia […]”, conclui

Redução no valor dos auxílios da Assistência estudantil

Crédito: Filipe Castilhos

Outra questão que influencia diretamente na vida estudantil de muitos universitários e que passou por alterações administrativas é a assistência estudantil.

Desde que as primeiras orientações preventivas de enfrentamento à Covid-19 foram divulgadas pela Ufes, o programa, que tem a finalidade de auxiliar os alunos com menor condição financeira de manter os estudos, precisou redistribuir seus recursos a fim de atender às novas demandas surgidas com a pandemia.

Além dos 5 tipos de auxílios já existentes, surgiram mais dois temporários para contribuir com os custos necessários de manutenção dos assistidos na universidade: o auxílio alimentação pecuniário emergencial e o auxílio inclusão digital. O primeiro é destinado aos alunos que recebem o auxílio moradia e utilizavam o Restaurante Universitário (RU), mas foram impedidos com a suspensão das atividades presenciais. O benefício foi automaticamente acrescentado ao valor depositado para assistência de moradia.

O segundo foi o auxílio Inclusão Digital Emergencial, criado para oferecer suporte técnico aos estudantes de graduação e pós-graduação que têm renda familiar bruta mensal de até 1,5 salário mínimo per capita e que não possuem acesso a equipamento de informática como notebook ou serviço de internet.

Após amplas discussões no âmbito do Fórum de Assistência Estudantil, órgão consultivo da política de Assistência da Ufes, foram aprovadas reduções nos valores pecuniários disponíveis a esses estudantes como forma de reorganizar as despesas. De acordo com informações da Proaeci , a partir do mês de dezembro é esperada uma redução no valor dos auxílios disponíveis. Até o momento, não recebemos nenhum retorno do Departamento de Assistência Estudantil para esclarecimentos de dúvidas sobre as definições para o próximo ano.

                1. Os auxílios de outubro, a serem pagos no início de novembro, terão os seguintes valores:

– Auxílio Modalidade A – R$ 400,00

– Auxílio Modalidade B – R$ 380,00

– Auxílio Modalidade C – R$ 90,00

– Auxílio Modalidade D – R$ 90,00

2. Os auxílios de novembro e dezembro, a serem pagos no início de dezembro e janeiro, respectivamente, terão os seguintes valores:

– Auxílio Modalidade A – R$ 360,00

– Auxílio Modalidade B – R$ 340,00

– Auxílio Modalidade C – R$ 140,00

– Auxílio Modalidade D – R$ 140,00

Adaptações ao ensino remoto na Pós-graduação

Como ninguém conseguiu escapar do ensino remoto, os alunos aprovados em 2020/1 nos programas de Pós-Graduação da Ufes também foram incluídos no semestre especial do Earte. Cada colegiado de curso ficou a cargo de decidir o processo mais adequado de retorno das atividades, de acordo com as particularidades de cada disciplina.

Diferente da graduação, que conta com entrada de estudantes no início e no meio do ano,os programas de Pós na (Ufes) possuem autonomia para definir as formas de ingresso, no entanto, a maioria opta pela entrada anual de novos alunos.Com isso, os ingressantes de 2020/1 já retornaram para as rotinas acadêmicas, de maneira virtual.

Na última resolução do (Cepe) voltada aos programas de Pós, foram estabelecidos alguns procedimentos e recomendações para continuidade das atividades. A principal novidade apresentada pelo documento é a autorização de prorrogar, por até seis meses, cada um dos seus prazos máximos regimentais de conclusão para os cursos de mestrado e doutorado, independentemente dos prazos máximos previstos.

Coleta de dados, prazos apertados e menor produtividade são os maiores desafios da pós

O mestrando em Psicologia Gustavo Pfister Pirola, que iniciou os estudos neste ano, relata que houve um replanejamento do método das disciplinas, contudo a oferta de matérias continua normal. “Em termos de carga horária, tivemos uma separação específica de atividades síncronas e assíncronas, ficando a cargo de cada professor distribuir isso no cronograma”, ressalta.

FOTO: arquivo pessoal

Para ele, essa mudança inesperada na forma de ensino criou um obstáculo para muitos estudantes da pós-graduação, principalmente, em relação à coleta de dados para a pesquisa do mestrado.

“Quem faz pesquisa com idoso, criança, gestante ou até mesmo na área da saúde em hospitais, está tendo que repensar o projeto de pesquisa, arranjar outras formas de coletar essas informações porque o programa de pós-graduação depende muito da prática em campo e isso não está acontecendo, por causa da pandemia.”

Gustavo Pfister, aluno do mestrado da ufes

O pós-graduando afirma que a atual situação restringiu bastante o desenvolvimento das atividades acadêmicas e também apertou os prazos de entrega dos projetos. “Uma coisa que tem preocupado bastante alunos e professores, além da dinâmica de aulas online, é o fechamento dos projetos […]”.

Mas, além da parte prática que precisou ser replanejada, outro fator que tem dificultado a vida de muitos estudantes é a queda na produtividade. Gustavo conta que está sendo cansativo ficar em casa e seus estudos não estão rendendo tanto quanto no regime presencial. “Está muito cansativo ficar em casa. Esse ano sugou muita energia minha […]. Particularmente, estou encontrando dificuldade em produzir tanto quanto eu costumava no regime presencial”, afirma.

Recomendações do MEC

Com o início da pandemia, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Ufes estabeleceu quatro portarias para viabilizar a continuidade dos estudos dos pós-graduandos.

Além das orientações e resoluções da universidade, os programas de Pós devem seguir as medidas adotadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), ambos instituídos pelo Ministério da Educação (MEC).

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