Eu sou apenas uma moça latino-americana, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior?

Share Button

Repórter: Beatriz Moreira e Letícia Soares/ Edição: Wesley Vitor

“Doutora”. Quem diria que Gracielle um dia receberia esse título? Na sua família, por enquanto, é a única que pode ser chamada assim. Quando saiu de Cristal do Norte, distrito de Pedro Canário, no interior do ES, rumo à Vitória, capital do estado, quase ninguém imaginava que ela iria tão longe. Mas Mainha sempre acreditou.

Mainha é mãe, bisavó e porto seguro que deu suporte à Gracielle Abreu no mundo dos estudos. Agora, é também seu anjo da guarda. À ela, que lhe criou com muito esforço e e sufoco, Graci dedica todas as suas conquistas – e foram muitas.

Ilustração: Maria Izabel Ichisato

Aos 17 anos, foi com muito aperto – mas também esperança – no coração que Gracielle deixou Mainha em Cristal. A menina chegou à capital para estudar Fisioterapia na Emescam (Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia), depois de ter conseguido uma bolsa de estudos.

Quem acolheu a jovem interiorana foi sua “família de férias”, como brinca Gracielle. “Minha mãe biológica mora em Vila Velha, apesar de não morarmos juntas eu tinha contato, vinha aqui todo ano passar férias e ficar com minha família”. Ainda assim, nada se comparava ao colo de Mainha. 

O período de adaptação foi difícil. Na cidade grande, aquele ditado “onde o filho chora e a mãe não vê” nunca fez tanto sentido. Mas, mesmo não estando por perto, Mainha sentia as mesmas dores de Gracielle que, por diversas vezes, pensou em desistir e voltar para Cristal. 

Ainda bem que não o fez. A menina humilde e assustada com o ritmo frenético da capital perdeu o medo do mundo e viaja para vê-lo de perto sempre que pode.

Gracielle é Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local pela EMESCAM. Ela também é professora do ensino superior na faculdade onde se formou na graduação e ainda é membro da Associação Brasileira de Ensino em Fisioterapia (ABENFISIO), compondo a seção estadual da associação no Espírito Santo. Tudo isso aos 28 anos de idade.

Como membro da ABENFISIO ela ainda recebeu, no período das eleições municipais deste ano, o convite para compor a seção nacional e representar o Espírito Santo em todo o Brasil em relação ao ensino em fisioterapia, mas recusou o chamado. “Eu ainda não estou pronta para isso, mas foi um marco o convite ter chegado assim”.

Gracielle fala de todas as suas conquistas com muito orgulho. Ela também considera o reconhecimento dos seus alunos como um grande triunfo. Ela conta com humor que, mesmo sendo a  professora chata e durona, foi eleita como Professora Homenageada duas vezes. Os estudantes entenderam a importância dela para as formações deles.

Mesmo com esse extenso currículo de respeito e os vários títulos acadêmicos que trazem estatutos sociais, quando questionada sobre como ela quer ser lembrada, responde sem nem pensar duas vezes: “como defensora do SUS”. E Gracielle realmente luta por isso. Na sala de aula, ela define como seu objetivo mostrar aos alunos a importância do Sistema Único de Saúde. Tarefa nada fácil, diga-se de passagem.

Defensora do SUS

Foto: Arquivo Pessoal / Ilustração: Maria Izabel Ichisato

A doutora, que leciona para as turmas de Medicina e Fisioterapia na Emescam, faculdade particular de Vitória, confessa que é difícil fazer seus alunos entenderam a relevância do SUS. “Eles vivenciam realidades completamente diferentes das pessoas que dependem do Sistema”. 

Além disso, ela também pontua que a visão de alguns alunos é bastante distorcida. Afinal, o SUS não se trata só de atendimentos médicos e muitos não sabem disso. “A água limpa que chega na casa deles, a imunização que eles têm com as vacinas e até a segurança de que eles estão comendo em um restaurante limpo na rua é por causa do SUS”.

Gracielle aponta que esse forte estereótipo de que a saúde pública não presta é generalizado. Na sua visão, contudo, o principal problema do Sistema é de ordem administrativa. Para ela, a gestão da saúde pública no Brasil precisa melhorar. “A gente não tem que considerar o SUS como algo pronto. Ele precisa ser desconstruído e reconstruído constantemente. Isso não significa de forma alguma que ele deve ser destruído, como estão tentando fazer. ”

Pesquisa na pandemia

“Panorama da violência contra a pessoa idosa no Espírito Santo: uma análise dos casos notificados entre 2011 e 2018.” A tese. Ilustração: Maria Izabel Ichisato

Foi ainda na graduação que Gracielle teve o primeiro contato com a temática de sua tese, que viria a defender no doutorado – mas ela ainda não sabia. Na faculdade, ela foi convidada a participar do “Programa de Educação para o Trabalho em Saúde (PET-Saúde)” que tinha como foco a saúde do idoso – no qual atuou por 2 anos.

Porém, direcionada pela paixão por temáticas ligadas à saúde da mulher na fisioterapia, ela ingressou no mestrado com essa proposta. E foi nesse período que veio o primeiro baque de sua vida acadêmica. “Minha orientadora disse: ‘não, o mestrado é na área social, eu acho que tem mais a ver a gente trabalhar a questão do idoso no contexto do PET’. Aí eu falei: então tudo bem, vamos trabalhar o idoso, comecei a trabalhar a temática e não parei mais.

Finalizado o mestrado, a busca pelo título de Doutora sucedeu pelo estudo do idoso focado nos determinantes sociais da saúde. Contudo, após um ano e meio de pesquisa, a aposentadoria de sua orientadora culminou em mais um baque. A linha de pesquisa da nova orientadora era outra: Violência.

Ilustração: Maria Izabel Ichisato

Se para alguns pesquisadores foi um desafio dar continuidade às suas pesquisas neste período de pandemia originada pela proliferação da COVID-19, para Gracielle a experiência foi outra. “Admito que continuar a pesquisa durante a pandemia não teve tanto impacto, porque eu já estava na fase de escrita da tese. Se é que teve alguma influência, posso até dizer que me me ajudou um pouquinho, porque eu tive mais tempo em casa para escrever.” 

Defender a tese de doutorado no formato online possibilitou que pessoas importantes na vida da Doutora assistissem à defesa. Como, por exemplo, uma grande amiga e ex professora de Gracielle, do pequeno distrito de Cristal do Norte, que a estimulou a sair de lá para estudar. A participação não seria possível no modo presencial devido à longa distância entre o distrito e a capital. Apesar de Gracielle mencionar que não foi como gostaria, ressalta que tiveram pontos positivos.

De graduados, mestres, doutores e, de todos aqueles que obtiveram um ensino público gratuito nas universidades se espera que retribuam à sociedade aquilo que lhes foi investido de alguma forma. Uma das parcelas que Gracielle vem devolvendo à comunidade do Estado do Espírito Santo casou-se certamente com o período de isolamento social.

De acordo com o secretário nacional de promoção e defesa dos direitos da pessoa idosa, Antonio Costa, o aumento dos índices de registro de casos de violência contra o idoso no Brasil aumentaram durante o período de distanciamento social. No começo da pandemia o Brasil registrou 3 mil denúncias de violência contra o idoso, em abril esse índice passou para 8 mil e, em maio, foi para quase 17 mil.

E, nesse contexto, ao ser questionada sobre qual a relevância de sua tese intitulada “Panorama da violência contra a pessoa idosa no Espírito Santo: uma análise dos casos notificados entre 2011 e 2018.” para a sociedade, Gracielle respondeu sem hesitar:

“Eu acredito que a minha tese tem uma grande relevância, principalmente a nível estadual. Porque não se tinha esse levantamento ainda de como eram e quais eram as características da violência contra o idoso aqui no Estado. E, agora, principalmente nesse momento de pandemia, eu acho que os dados levantados pela tese são importantes para ajudar a direcionar onde que os serviços de saúde, principalmente, mas também serviços de segurança e de assistência social devem procurar e cuidar desses idosos. Porque além de estudar a violência em si, as prevalências de doenças e tudo mais, eu analisei as características, os fatores associados a esses agravos. Então eu acho que a minha tese pode direcionar a quais são os idosos que têm a maior probabilidade de sofrer violência e quais as características envolvem esses idosos. E, isso pode facilitar para os agentes triarem essas pessoas e ter uma observação mais direcionada, uma escuta mais atenta  para essa população.”

Mas por que “principalmente o pessoal da saúde”? Gracielle explica que, muitas vezes, a única oportunidade de o idoso vítima de violência demonstrar, falar ou apresentar quaisquer indícios que tornem possível identificar que ele seja vítima de violência é durante a consulta, em que se pode estar distanciado da família.

Ilustração: Maria Izabel Ichisato

“Doutora”. Quem diria que Gracielle um dia receberia esse título? Na sua família, por enquanto, é a única que pode ser chamada assim. Quando saiu de Cristal do Norte, distrito de Pedro Canário, no interior do ES, rumo à Vitória, capital do estado, quase ninguém imaginava que ela iria tão longe. Mas Mainha sempre acreditou!

Deixe uma resposta