Pesquisadora, mãe e mulher: a trajetória de Fabiana Turino

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Agora doutora em Saúde Coletiva, Fabiana precisou enfrentar adversidades para defender sua tese, que foram desde uma pandemia mundial à contínua desvalorização da ciência.

Repórteres: Gabrielly Minchio e Karla Silveira | Editor: Weslley Vitor | Ilustrações: Maria Izabel Ichisato

A pandemia fez com que houvesse adaptações para conviver em meio a esse novo caos sanitário. E na área acadêmica não foi diferente. A dinâmica de defesas de uma dissertação de mestrado ou de uma tese de doutorado se transformou. Antes, uma sala de aula que era dividida entre o olhar atento da banca de orientadores e a expectativa dos parentes e amigos deu lugar ao ambiente virtual muito mais impessoal e frio. 

“Eu acho que essa pandemia obrigou o mundo a se virtualizar”. Com mais de uma década desde que iniciou a carreira acadêmica na área de Farmácia, Fabiana Turino, hoje com 41 anos, experimentou o novo ao apresentar sua tese de doutorado, no dia 30 de outubro de 2020, em um cenário diferente.

Animada com o momento, ela compartilhou, em sua rede social, o link da sala em que ocorreria sua defesa. Da mesma forma, o Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) também o distribuiu em seu site, trazendo data e horário marcados. Na banca, estavam professores de renome internacional: um, encontrava-se em Boston e outro, em Londres. Naquele ambiente também se fazia presente uma professora do Rio de Janeiro que é “uma sumidade em saúde pública no Brasil”, como diz Fabiana. A então doutoranda, a propósito, tinha como tema de pesquisa: “Organizações Sociais de Saúde como forma de privatização do Sistema Único de Saúde.

Próxima de apresentar os resultados de sua tese, Turino e os demais presentes foram surpreendidos com ataque de invasores. “Começaram a usar palavras de baixo calão, a fazer barulhos, colocar músicas e falaram que estava ‘tudo dominado’, que aquela sala era deles”. Rapidamente, ela precisou tomar o controle da situação, adicionando os participantes em uma nova sala virtual e, desta vez, mandando o link para cada pessoa que estava a acompanhando para evitar que a situação se repetisse.

Apesar da atipicidade do momento, Fabiana tinha total domínio do assunto e sua apresentação ocorreu perfeitamente bem. O que foi reconhecido, posteriormente, pela banca, que elogiou a postura da agora doutora, que conseguiu se manter centrada mesmo em meio a um tumulto inicial. 

“É muito importante, hoje, a gente repensar sobre a forma de como tornar essas defesas públicas, mas não atrapalhadas, nesse sentido”. – Fabiana Turino

Fazendo uma retrospectiva pela vida de Fabiana, encontramos uma pessoa resiliente, com capacidade de se reinventar. Por três anos seguidos ela tentou ingressar na carreira de medicina, porém, frustrou-se e decidiu tirar um tempo para ver o que queria fazer dali para frente. Enquanto trabalhava para se sustentar, já que não morava mais com os pais, foi estimulada pelo namorado da época a voltar a estudar.

Em meio a pesquisas do que poderiam a atrair, deparou-se com o curso de Farmácia, que abrilhantou seus olhos por conta da identificação com a área. Por ter tomado a decisão em um período posterior aos vestibulares tanto das faculdades privadas – que eram poucas, na época – quanto da Ufes – única universidade pública até hoje no estado -, precisou esperar e, com isso, ingressou na Escola Superior São Francisco de Assis (Esfa), em Santa Teresa.

Sendo uma faculdade particular e no interior, foi preciso ralar muito para se manter por lá. As mensalidades tinham de ser pagas e o pai, que era comerciante e tinha acabado de “quebrar”, teve dificuldades em ajudar a filha. Somado a isso também havia a vizinhança pouco simpática a vinda de estudantes para a cidade interiorana. “Tive que chegar e conhecer as pessoas, formar um grupo e montar uma casa”. 

Para vencer a barreira financeira, Fabiana foi monitora de Química Orgânica durante três anos na faculdade e, também, deu aulas nas escolas públicas de ensino fundamental I e II da própria cidade. O resultado dessa experiência foi a identificação com esse novo nicho sendo uma área que também gostou de atuar. 

Mesmo com todos os percalços no caminho, Turino reafirma que a escolha por Farmácia foi um achado: “não identifiquei dificuldades na graduação, porque cada período que passava, eu me apaixonava mais ainda pelo curso”. 

Por ter muita afinidade com os estudos, se especializar parecia um caminho natural para Fabiana. Após concluir o ensino superior, ela casou-se e foi morar na cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. Neste período, compartilhou sua vida e rotina com o marido, que, na época, estava fazendo mestrado. “Esse universo sempre permeou a minha vida, desde quando eu finalizei a minha graduação”.

Porém, por conta de toda a dificuldade financeira que havia passado no período da faculdade, a profissional almejava, naquele momento, experiência de mercado para ganhar dinheiro. E, durante os dez anos em que trabalhou no serviço público com medicamentos de alto custo, na Farmácia Cidadã, Fabiana foi mãe por duas vezes. “Para a mulher é muito complicado nesse sentido, porque a gente engravida, pare, amamenta. E, então, em um determinado momento da nossa vida a gente para pra viver em função de outras pessoas. E eu parei pra viver em função de dois filhos. Como uma gestação foi perto da outra, com a diferença de 1 ano e 10 meses, ficou bem puxado pra mim”.

Contornando os novos entraves em seu caminho, a doutora nunca deixou de trabalhar, porque “sempre quis ser reconhecida enquanto Fabiana, farmacêutica, e não apenas como mãe de alguém”. E, em sua jornada no mercado de trabalho, chegou em um momento que se sentiu acuada por enxergar uma necessidade de se qualificar. Foi quando quis buscar novos horizontes e ter um desafio inédito: decidindo, em abril de 2014, prestar o processo seletivo para o Programa de Mestrado Saúde Coletiva da Ufes. 

Ao ingressar no mestrado com a experiência como farmacêutica, a proposta inicial de pesquisa de Fabiana envolvia a abordagem sobre medicamentos de alto custo voltados para a saúde mental. Porém, sua orientadora estudava um tema novo para a época: as Organizações Sociais de Saúde (OSS). E ela propôs essa temática para que a mestranda, no período, seguisse como linha para sua dissertação. “Como era algo novo, para a época, tive que me debruçar muito e entendê-lo”.

Em meio a essas pesquisas a fim de ter uma dimensão sobre do que se tratavam essas OSS, como atuavam e onde estavam atuando, Turino descobriu que já havia OSS operando no estado. “E foi quando delimitei meu objeto de pesquisa que era estudar as Organizações Sociais de Saúde nos hospitais públicos do Espírito Santo”, conclui.

Com uma pesquisa com foco bem delimitado, ela tinha como nova proposta fazer um estudo quantitativo e qualitativo, utilizando-se, também, do método comparativo. Nesse sentido, a doutora comparou três hospitais sob gestão de OSS com outros três hospitais públicos que são administrados diretamente pelo Estado. Sendo os hospitais públicos o antigo Hospital São Lucas, Dr. Dório Silva e Antônio Bezerra de Faria. Já os geridos pelas OSS foram: Jayme Santos Neves, o Hospital Central e o Hospital Estadual de Urgência e Emergência (HEUE), que passou a funcionar em setembro de 2014, nas mesmas instalações do extinto extinto São Lucas.

Tomando como exemplo para explicar essa situação relacionada às gestões, Fabiana citou o Hospital Jayme Santos Neves, localizado em Serra. Após ser construído e equipado, a gestão dele foi transferida para uma OSS, conhecida como Aebes (Associação Evangélica Beneficente Espírito-Santense), que o gere até hoje. Por este motivo e por meio dos resultados trazidos em seu estudo, a doutora afirma que tem “a propriedade para dizer que o Jayme é considerado um hospital público com um dono, porque tem um gestor que não é público, mas privado”.

“A partir do momento que começamos a implicar mais com o tema ou toma-se raiva dele, ou defende-o ou o ataca”. 

Ao finalizar uma obra, a maioria dos escritores orgulha-se de sua produção. Porém, poucos sabem o caminho percorrido até chegar a este patamar. Fabiana define seu processo de escrita no mestrado como algo “doloroso”, porque, segundo ela, ao estudar sobre o tema, pode-se chegar a dois caminhos: o da defesa ou o do ataque. E, em seu caso, por ter transferido esta raiva para a escrita, enquanto mestranda, foi alertada pela co-orientadora que não era este o percurso a ser seguido. Por isso, foi necessário que ela “se afastasse” do tema para reescrever sua dissertação. 

Finalizado o mestrado, os resultados obtidos por Fabiana foram categóricos: os hospitais geridos pelas Organizações Sociais de Saúde gastavam mais recursos do que os três hospitais de mesmo porte administrados pelo estado. “Um outro apontamento que fiz na minha dissertação foi que o volume de recursos da saúde transferidos para esses hospitais geridos pelas OSS chegou a quase 12% do volume total de recurso do estado do Espírito Santo para a saúde”.

Já apaixonada pelo tema e em busca de mais respostas, apenas cinco meses depois de terminar o mestrado em 2016, a pesquisadora ingressou no doutorado. “Eu ampliei meu projeto que fiz no mestrado. Tinha estudado a atuação das OSS em âmbito local, no Espírito Santo, já no doutorado quis olhar para a situação do Brasil”. Todavia, por conta de não haver uma  política efetiva de publicização dos dados e de transparência em todo o território nacional, Fabiana precisou delimitar seu corpus e focou nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, os quais têm o maior PIB do país e onde seria possível ter acesso a essas informações. 

Em meio a sua pesquisa, Fabiana teve a oportunidade de realizar um “doutorado sanduíche” – termo que refere-se a bolsas de especialização fora do país -, tendo morado em Londres, na Inglaterra, por um ano. Este período, que foi de novembro de 2018 a novembro de 2019, exigiu adaptação, não só por parte da pesquisadora mas também de sua família: o inverno rigoroso, a procura de casa, escola para as crianças, fazer curso de inglês. Tudo isso foi adicionado às suas rotinas. “Foi muito desafiador e muito bom. Sendo importante para mim enquanto mãe, profissional e mulher”, descreve. 

O Coronavírus e a desvalorização da ciência

“Como tenho duas crianças em idades escolares, tive que redobrar a atenção, ficamos mais tempo juntos por conta de as aulas serem online etc., o que me atrapalhou muito”, comenta Fabiana. Em uma pesquisa realizada com cerca de 15 mil cientistas, produzida pelo Movimento Parent in Science, foi observado que quase 70% dos homens afirmaram que conseguiram submeter seus artigos como planejado, entre abril e maio de 2020. Já para as mulheres, o número é inferior: menos de 50%. 

Por conta da pandemia, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – da qual Fabiana era bolsista – estendeu o prazo das pesquisas e das bolsas em mais três meses. Graças a essa prorrogação, a farmacêutica pôde esticar seu período de entrega de julho para outubro deste ano, quando defendeu sua tese. Para ela, em relação à pesquisa, a pandemia não vem ao caso, pois nesses dois últimos anos de doutorado, normalmente, fica mais sozinha mesmo. “A diferença foi mais sobre o cansaço, porque trabalhei muito mais à noite, depois da crianças dormirem”. 

E engana-se quem pensa que as dificuldades de uma pesquisadora se restringem ao Covid-19. Estudiosos do meio acadêmico têm enfrentado há anos outro inimigo invisível: a desvalorização e o corte de gastos destinados à pesquisa. Conforme o relatório Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, o Brasil investiu apenas 1,26% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D), em 2017; uma porcentagem bem abaixo de países como Coreia do Sul (4,55%), Japão (3,21%) e Alemanha (3%), por exemplo.

Por meio da sua visão internacionalizada por conta do doutorado sanduíche na Europa, Fabiana aponta que o processo de desvalorização da ciência não ocorre apenas nacionalmente, mas no mundo inteiro. Porém, alerta sobre uma diferença crucial: o comportamento das populações em relação a esse desmonte não só relacionado à educação, mas também à saúde, por exemplo, é completamente oposto. 

Turino enxerga a relação dos ingleses com o Serviço Nacional de Saúde (NHS) muito mais próxima. O NHS, assim como o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, é estatal, universal e gratuito. “Nós verificamos nas mídias, nesse momento da pandemia, o quanto a sociedade tem esse sentimento de pertencimento em relação ao sistema de saúde. Então, eles foram para as ruas defender o NHS e os profissionais. Diferente daqui do Brasil, que a gente tem um discurso muito pejorativo de que o SUS não presta”.

“Como as pessoas fazem pra se manter? Eu tenho família, eu tenho dois filhos, eu sou mulher, então não tem como. Eu tenho uma profissão, eu sou farmacêutica e aí eu cheguei a esse determinado momento onde eu sou doutora e desempregada”. – Fabiana Turino

Sobre a possibilidade de realizar um pós-doutorado, Turino afirma que esta decisão está diretamente ligada a desvalorização da ciência, pois os pesquisadores do país andam sofrendo com a falta de investimento. Apenas no ano passado, mais de 12 mil bolsas de mestrado e doutorado da Capes foram extintas. E, em seu caso, para se debruçar ainda mais sobre seu tema e ter dedicação exclusiva a ele, ela afirma que, para, um auxílio seria imprescindível.

Com as bolsas de pós-doutorado cada vez mais raras, hoje Fabiana pretende olhar para novos horizontes, a fim de encontrar maneiras de continuar pesquisando este tema que tanto ama: as Organizações Sociais de Saúde, enquanto luta por uma alternativa de sustentar sua família.

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