Covid-19 e rotina de trabalho: impactos da pandemia na vida de professores da Ufes

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A pandemia não só interferiu na maneira de ensinar e aprender, mas também afetou a saúde física e mental de professores e alunos.

Repórter: Thauane Lima / Edição e Revisão: Aline Almeida

A Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) implementou o Ensino de Aprendizagem Remoto Emergencial (Earte) como alternativa para continuar com as aulas em meio à pandemia. Embora as atividades presenciais estejam sendo substituídas provisoriamente por aulas remotas, o formato usado é diferente da modalidade EAD (Educação a Distância) tradicional, em que o conteúdo é, na maioria das vezes, assíncrono, auto instrucional e conta com apoio de tutores.

Entenda a diferença:

Apesar do trabalho remoto, alguns professores, como a doutora em Ciências Sociais Maria Cristina Dadalto, não conseguiram fugir do coronavírus. Maria Cristina foi diagnosticada com a doença no meio do semestre especial do Earte e conta que se sentia muito cansada, mas resolveu continuar trabalhando mesmo assim. Uma alternativa que zela encontrou foi dar um prazo maior para o envio das atividades assíncronas, ou seja, atividades realizadas fora do horário da aula online.

“Quando terminava a aula síncrona eu me sentia esgotada fisicamente. Como eu poderia descansar depois, optei por manter a atividade. A correção dos trabalhos está sendo em um ritmo muito mais lento que eu previa por conta da sensação de cansaço e esgotamento. Então, combinei com os alunos um prazo maior para a entrega das atividades”, disse.

O professor de engenharia Herbert Barbosa Carneiro, do Centro Tecnológico (CT) da Ufes, que no momento desta entrevista estava no hospital internado com Covid-19, falou com o Universo Ufes e contou como está lidando com a situação.

“Fui internado há alguns dias, após o diagnóstico da doença. Estou na fase do controle da coagulação do sangue para evitar os riscos de trombose. Está tudo sob controle pois já tenho previsão de alta hospitalar. Para não precisar interromper a disciplina e prejudicar o semestre letivo, ao saber do diagnóstico, adiantei com todos os meus alunos as atividades que deverão ser entregues até o final do semestre”, afirmou Hebert.

O professor faz um alerta aos mais jovens para que tenham cuidado e sigam todas as recomendações a fim de não se infectarem e nem transmitirem a doença. “Muitos jovens acham que por não terem os sintomas da doença, não há perigo. Porém, essas pessoas podem ser vetores de transmissão do vírus. Essa doença não é brincadeira. Lavem as mãos sempre e usem máscara ao sair de casa”, aconselhou.

Além de precisarem lidar com a ameaça da pandemia, os professores tiveram que readaptar a maneira de ensinar e se adequarem à nova realidade de home office. De acordo com a presidenta da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes), Ana Carolina Galvão, as condições de trabalho dos professores pioraram após a implantação dessa modalidade de ensino.

Presidenta da Adufes, Ana Carolina Galvão, destaca os problemas que os professores estão vivenciando com o Earte./Foto: Arquivo Pessoal

“Os professores estão trabalhando com condições bastante precárias. A gente tem recebido muitos relatos de dificuldades. Essas dificuldades são diversas. Alguns enfrentam dificuldades de acesso à internet, pois nem todos têm acesso à internet para a realização do trabalho. Outro fator é a falta de equipamentos em casa, por exemplo, se você tem três pessoas em que trabalham de forma remota ou crianças em idade escolar e somente um computador, essas pessoas precisam dividi-lo”, disse.

Além dessas dificuldades, Ana Carolina destacou outros problemas que o teletrabalho trouxe como o número de horas de trabalho, que é muito maior do que antes do Earte. Ela contou que tem muitos professores desenvolvendo problemas físicos de saúde, como dores na coluna e tendinite. Também destacou a dificuldade em conciliar tudo isso com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos.

“A universidade nos colocou em trabalho remoto, mas os prazos exigidos para cumprimento das tarefas continuam os mesmos. O tempo que eu demoro para preparar uma aula presencial é diferente do que eu demoro para preparar uma aula online, na qual eu tenho que usar recursos tecnológicos que eu não estou familiarizada. Isso tem causado uma sobrecarga para os professores e percebo que as profissionais mulheres estão sofrendo ainda mais isso”, desabafou a presidenta.

Todas essas mudanças na forma de ensinar e aprender gerados pela pandemia exigiram uma adaptação drástica a essa nova realidade, o que gerou um estranhamento. Para a estudante de ciências sociais Evelyn Cristina Santana Pereira, o Earte levanta importantes questões sobre o modo como a sociedade enxerga o que é o estudo, a educação e as relações de trabalho nesse espaço.

“Nós somos criados distantes da educação, já que essa se restringe ao espaço institucional. Portanto, o que a condição do Earte impõe é, primeiramente, um sentimento de estranhamento, já que entendemos desde cedo que a instituição, como a escola e a universidade, é o espaço da educação. Nós tivemos que nos inserir novamente no ambiente familiar, algo não estimulado pelas instituições de ensino. Os reflexos disso são vários: dificuldade em estabelecer um ‘novo’ espaço de estudo e de trabalho, incompreensão por parte dos familiares de que você demanda do mesmo tempo que anteriormente doava às instituições, etc.”, afirmou. Todas essas questões afetam a saúde mental de professores e alunos. Para a psicóloga Abigail Marinho, o que faz um professor existir é o encontro entre ele e o estudante e o ensino remoto dificultou essa interação. 

Psicóloga Abigail fala sobre os desgastes do ensino remoto./ Foto: Arquivo Pessoal

De acordo com a psicóloga, o desgaste emocional e psicológico não tem como ser impedido e o modo remoto de educação tem afastado não somente as pessoas, mas os sentimentos.

“O que se pode fazer para melhorar essa situação é falar sobre esse desgaste. Quando o professor expõe a sua vulnerabilidade na tela, há uma troca de experiências e identidades com os alunos. Quando isso ocorre, gera uma empatia. Não expor esse desgaste faz tudo virar uma bola de neve”, explicou.

Abigail afirma que a vulnerabilidade cria um vínculo entre o docente e o discente. Outra dica bem simples que ela deu para tentar amenizar as distâncias geradas pela pandemia é todos ligarem as câmeras durante a aula. “Dói muito para um professor dar uma aula e ver um monte de fotos quadradas na tela. Se encontrar na aula é um encontro de identidades. O ensino existe para gerar esses encontros”, completou.

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