Cléber Carminati: do Balão Mágico a fundador do curso de Cinema

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Professor fez parte de um dos movimentos estudantis da década de 1980 da Universidade e desde lá já via o vídeo como um caminho para críticas sociais atreladas a arte

Repórter: Heloísa Bergami // Edição: Cássia Rocha

Repórter (R): Acho que antes de começarmos a falar do curso em si, podemos falar da sua trajetória no movimento estudantil. Você foi do Balão Mágico, um grupo icônico não só na história do curso de Comunicação Social, mas da Universidade. Desde lá você tinha esse olhar diferente para o audiovisual? 

Cléber Carminati (C): De fato eu posso dizer que participei desse movimento. O vídeo estava surgindo como tecnologia. Nos anos 1980 tínhamos os primeiros video-cassete, então nós já nos apropriamos disso para fazer registros. Em 1985 fizemos uma greve para reivindicar equipamentos. Nós usamos na Ufes direto. Fizemos experimentos de vídeo, uma ficção científica do diretor Sérgio Medeiros chamada Refluxo. Era bem amador. Já tínhamos o cineclube e ele já influenciou na nossa formação cinéfila. Mas criamos uma sala de vídeo na biblioteca onde assistíamos filmes locados. Fizemos trabalho de vídeo comunitário também. Mas não tínhamos como nos projetar como realizadores porque não tínhamos ilha de edição. Quebramos essa coisa de só fazer audiovisual com equipamento completo.

Isso influenciou na hora de criar o novo curso. Na comunicação já tínhamos alunos interessados no audiovisual e o Reune foi a nossa oportunidade. 

R: Como estudante, você via essa demanda para um curso voltado para isso?

C: A gente tinha uma demanda de cursos que poderiam trazer coisas novas. Tentávamos nas aulas, mas não tínhamos essa dimensão ainda. Mas uma coisa que tínhamos intenção e não conseguimos foi de criar uma TV livre. Conseguimos a rádio.Mas essa ideia do curso acabamos desenvolvendo via projeto de extensão, por exemplo. Isso virou uma forma de registro comunitário. Acho muito interessante como até hoje temos o registro de ações policiais pelo celular e vira uma denúncia, por exemplo. É uma forma que a gente vê que isso continua. O vídeo é usado como uma ferramenta política. O que deu mais certo foi o vídeo voltado para as comunidades indígenas.

R: E como professor, que fatores você via não só na Comunicação, mas na indústria cinematográfica capixaba, na Universidade e afins, que impulsionaram a criação do curso? 

C: Lá nos anos 1980, começaram os primeiros festivais de vídeo, que virou o festival de cinema de Vitória. Tinha lugar para exibir, mas em questão de retorno era mais publicidade e registro de eventos. Isso gerou uma nova linguagem. Em termos de mercado, só fizemos esse levantamento quando criamos o curso. Na época já havia mais leis e formatos, visto que o curso foi criado em 2010. Então a gente via um mercado de atuação para os formandos, não só aqui no ES. Me parece que tudo isso ainda está em movimentação. Ainda temos muito o que avançar e evoluir. Dependemos do mercado e de incentivos. 

R: O curso é o único no ES, não tem nem em faculdades particulares. Você acredita que isso é um ponto que traz mais diversidade para a Universidade e para o ES?

C: Isso é muito legal. Os cursos a partir do Reune foram a oportunidade de trazer mais cursos e mais professores para a Ufes. A instituição ainda não tinha Sisu, mas alguns alunos [de fora do ES] já faziam o vestibular. Quando veio o Sisu vieram muito mais. Temos a necessidade do intercâmbio.

R: O curso foi feito a partir do projeto Reune. Sem esse projeto, você acredita que hoje teríamos ou não um curso de cinema no ES?

C: Não. Principalmente no Departamento de Comunicação. Já tínhamos uma demanda professor x aluno muito alta. Se não fosse essa política não teria condições nenhuma. Com ele já foi difícil. Tínhamos poucos professores para um curso com muitas discussões.

R: 10 anos depois, o que você vê de evolução no curso?

C: A grande questão é que implantamos o curso e ficamos um tempo para entrar os 6 novos professores. Assim que completou o corpo docente vimos o curso encorpar. Ali tomamos dimensão que o projeto se concretizou. Agora podemos ver o que precisamos melhorar, crescer, reformar… Antes percebíamos um curso equilibrado, agora vemos uma turma mais masculina, talvez seja pelo horário do curso. Fico contente com o que nós temos. Investimos em documentário mas acredito que precisamos de mais recursos e reforçar algumas áreas.

R: Quais as maiores dificuldades que o curso enfrenta atualmente? 

C: No geral, toda a comunicação sofre. Há uma desesperança na educação com o governo federal atual. Houve muito corte. Precisamos de equipamentos, softwares…O Cacau também está atuando com os alunos.

R: O que você espera pro futuro do curso de cinema?

C: Eu sou muito otimista. Hoje tem uma sessão de cinema virtual com trabalho dos alunos. Eu imagino um curso muito aberto, voltado para arte com atuação na comunicação. Queremos alunos com formação crítica, humanista que veremos com um ensino diverso. Mas eu penso um curso que se abre para o mundo. Eu acho que a tecnologia nos favorece desde que tenhamos a ousadia de usar. Temos que acreditar que está dando certo principalmente pela atualização de alguns colegas, pela paixão pelo meio do cinema… Só fico meio balançado por causa do momento político que o país vive.

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