Cinema e Audiovisual: palco de muitas trajetórias

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Repórter: Agnes Gava // Edição: Larissa Tallon

No aniversário de dez anos do curso de Cinema e Audiovisual, alunos relembram suas vivências e contam suas expectativas para o futuro da graduação.

O curso de Cinema e Audiovisual, uma das três graduações do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), abriu sua primeira turma em 2010. Mesmo sendo o curso mais novo do Departamento, desde o início a graduação tem sido parte da história de muitos estudantes.

São histórias como a da Jessica, Shay, Sunshine e do Waldir, que, entre aulas, projetos de extensão, estágios e movimento estudantil, descobriram que o Cinema podia ser uma paixão e uma ferramenta de transformação.

“Eu pude sentir a força que o audiovisual tem no âmbito social”

– Jessica Ribeiro

Jessica Ribeiro, de 28 anos, descobriu o Audiovisual enquanto ainda cursava Jornalismo, e foi participando de algumas matérias optativas que seu interesse pela área começou a crescer. Em 2015, após se formar no primeiro curso, iniciou a nova graduação. 

Um ano depois, ela ingressou no Grupo de Estudos e Pesquisa em Populações Pesqueiras e Desenvolvimento no ES (GEPPEDES), que na época realizava pesquisas específicas com as comunidades pesqueiras de Regência e Barra do Riacho, muito afetadas pelo rompimento da barragem de Mariana.

Em parceria com o grupo Cultura Audiovisual e Tecnologia (CAT), coordenado pela professora Daniela Zanetti, Jessica e o GEPPEDES produziram dois documentários com os títulos “Tomaram nossas águas” e “Rio de conflitos”, além de uma cartilha e um livro sobre as lutas e reivindicações dos moradores da região.

Após um ano de produção, o projeto foi recebido pela comunidade com agradecimentos e emoção. Jessica pôde, então, compreender a força social de sua profissão: “Senti o poder que o audiovisual tem, como um meio pelo qual as pessoas podem ser vistas e ouvidas”.

Documentário Rio de Conflitos, produção GEPPEDES e CAT

“Foi interessante viver essa experiência multidisciplinar que a universidade pública permite”

– Shay Peled

Foi também em um projeto de extensão que Shay Peled encontrou a oportunidade de experimentar e se arriscar dentro do Cinema. Formada em 2018, hoje Shay é diretora e produtora audiovisual, e lembra como a sua participação no Janela – Núcleo de Produção Audiovisual foi importante para seu crescimento.

“O Janela foi um ambiente ótimo para testar várias funções diferentes do cinema, e pude, assim, entender qual eu me encaixava melhor. Além de tudo ser decidido em grupo, o que ajuda a trabalharmos o senso coletivo, afinal cinema só se faz com união de forças”.

Para ela, o momento mais marcante de sua graduação foi a produção do filme-escola “Refúgio”, projeto orientado pelos professores Gabriela Alves e Marcus Neves, e desenvolvido a partir de uma parceria de estudantes dos cursos de Cinema, Música e Direito, profissionais formados nas áreas e pesquisadores da Ufes.

“Eu chamo de ‘filme-escola’ porque tivemos oportunidade de treinar nossas funções de forma mais profissional, além de usar equipamentos melhores, emprestados em parceria com produtoras externas à Ufes. O filme ainda tinha ligação com o curso de Direito, pois lidava com a temática da imigração. Foi interessante viver essa experiência multidisciplinar que a universidade pública permite”.

Bastidores do curta-documental “Refúgio”, de 2018

Shay dirigiu outros filmes, como “Ociosa”, “À Tua Sombra” e “Jardim Secreto”. A última obra, um curta produzido em 2018, conta a história de Eugênio Martini, comerciante que instalou mais de cem câmeras de vigilância no bairro Centro de Vitória, e rendeu à diretora o prêmio da Mostra Foco Capixaba do Festival de Cinema de Vitória, em 2019.

Jardim Secreto, 2018. Direção de produção, produção executiva, roteiro e montagem por Shay Peled

“Eu tenho muitas histórias de como o Cinema fez e faz diferença na minha vida, elas não caberiam aqui”

– Sunshine Zanoni

Além de produzir e até atuar em diversos filmes desenvolvidos na graduação, Sunshine Zanoni também é integrante ativa do Centro Acadêmico de Cinema e Audiovisual (CACAU) desde seu 1º período. Hoje, ela reflete sobre a importância do Centro para o curso e para os estudantes, e conta sobre a luta que estão enfrentando para a conquista de um espaço físico.

Apesar de ter sido fundado em 2015, o Centro Acadêmico está envolvido na maioria dos projetos do curso de Cinema e Audiovisual. Foi durante um desses projetos, a Mostra CACAU, que a estudante teve a oportunidade de atuar como intérprete de LIBRAS e apresentar o importante debate sobre acessibilidade no cinema. 

Sunshine ingressou no curso com 30 anos e conta que não é fácil conciliar as responsabilidades de trabalho e faculdade, mas que está muito feliz estudando algo que gosta. Outra tarefa difícil é escolher o dia mais marcante ao longo dos dois anos e meio de gradução. 

“Eu tenho muitas histórias de como o Cinema UFES fez e faz diferença na minha vida, elas não caberiam aqui. De como em muitas vezes ele me salvou, trouxe pessoas importantes pra minha vida, me mostrou uma possibilidade enorme de ver o mundo de maneira diferente e também de poder escrever essas várias possibilidades de mundos”

Sunshine na produção do Festival Levanty, evento transmitido pela TVE

“Foi tudo um enorme salto para meu enriquecimento profissional”

– Waldir Segundo

Durante os últimos quatro anos, Waldir Segundo descobriu sua grande paixão por cinema de horror, graças ao grupo de pesquisa Ghostec. Já o projeto Curadoria do Baile mostrou outro caminho que o então estudante poderia seguir, e como símbolo de sua jornada na universidade, o seu TCC teve como foco a junção entre os dois assuntos, horror e curadoria. 

Waldir como mediador de debate no Metrópolis

Outra experiência enriquecedora, que demonstra a importância do curso para o crescimento e a identificação de suas preferências profissionais, foi o seu estágio no Cine Metrópolis: “Foi um dos melhores empregos que eu tive, tratar direto com a distribuição e comercialização da sala de cinema e dos lançamentos de filmes, até a criação de mostras”.

Ele também expressou sua alegria com o nível em que o curso e a universidade estão, e seu orgulho dos destaques emergentes dentro do cinema capixaba. É com positividade que Waldir observa surgirem cada vez mais oportunidades para que os alunos se destaquem no cenário audiovisual. 

É o caso do estudante recém-formado Anderson Bardot, que lançou o filme Inabitáveis, tema de seu trabalho de conclusão da graduação, no Festival Internacional de Filmes de Rotterdam, um dos maiores festivais de cinema do mundo.

Concordâncias

Apesar de terem vivido histórias próprias e trilhado caminhos diferentes dentro da graduação, os quatro concordam em alguns pontos quando o assunto é Cinema e Audiovisual.

Um desses pontos é reconhecer a importância da existência do curso superior público no Estado. Jéssica acredita que isso permite que a história do Espírito Santo e do capixaba seja contada: “Quando temos um curso aqui e pessoas daqui produzindo cinema, temos o registro da nossa história, da nossa comunidade, usando o cinema como instrumento de luta e de conhecimento”.

Já sobre os desafios do curso, a falta de acessibilidade e a escassez de recursos e equipamentos é algo que preocupa os graduandos e ex-alunos. Shay conta, por exemplo, que concluiu o curso sem nunca ter tocado em uma câmera de cinema profissional. 

Sunshine faz coro à crítica, explicando como a produção cinematográfica está relacionada ao poder aquisitivo: “O curso é caro quando falamos em material de trabalho, até porque para se fazer uma obra audiovisual a gente precisa de muito mais do que uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. 

O baixo número de vagas ofertadas é algo que, para Waldir, também torna o curso menos acessível. Apenas 30 pessoas têm a oportunidade de ingressar na graduação anualmente, diferente dos cursos do próprio Departamento de Comunicação Social, que possuem ingressos semestrais.   

Apesar da campanha de descrédito constante em relação à produção cultural do país, que compromete o investimento na universidade pública e no desenvolvimento do cinema e audiovisual, os professores e graduandos têm conseguido construir um legado para o curso, com produções de excelência e que merecem o reconhecimento que têm recebido. 

E no que depender de pessoas como a Jessica, Shay, Sunshine e o Waldir, que acreditam no poder de transformação do Cinema e Audiovisual, a graduação tem um futuro de possibilidades, com muito trabalho e crescimento pela frente.

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