Professoras contam suas experiências com EAD

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Reportagem: Clara Curto e Isabela Luísa // Edição: Heloísa Bergami

 Profissionais lamentam perda do contato físico e explicam o prejuízo no processo de aprendizagem

Diante do cenário atual, com a pandemia do coronavírus, toda a sociedade se viu obrigada a enxergar saídas para continuar produzindo, trabalhando e vivendo. Entre os profissionais que sofreram maior impacto estão os professores. Da educação infantil até a pós-graduação, todos passaram por um período de incertezas e adaptações.

É o caso da professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faesa, Viviane Lima Pimentel. Ela deu início às aulas no formato virtual logo no início da pandemia, no dia 23 de março. A professora explica que as mudanças são significativas e ocorrem em todas as etapas do processo de aprendizagem, desde a relação com o aluno, até o planejamento das aulas. Antes, o que ela fazia em pé, olhando no olho, agora é sentada na frente de uma tela,  vendo fotos e letras. “A maior perda para o professor é o contato com o estudante, em que a gente cria laços de afetividade e há trocas na relação. Eles não abrem mais a tela e ligam a câmera. A única hora que eu consigo ter contato é durante a orientação do trabalho de conclusão de curso, que sou só eu e o aluno”, lamenta.

No ensino fundamental e médio, as modificações na aprendizagem também foram significativas. A professora de Artes de uma escola estadual do Espírito Santo que ela preferiu que não fosse identificada, Dulcemar Pereira, está trabalhando com o ensino remoto desde abril de duas formas: atividades aplicadas na sala de aula virtual e exercícios impressos para os alunos que não tem acesso à internet.

O novo método de ensino, para Dulcemar, impacta no crescimento pessoal dela e dos estudantes. “A aprendizagem remota tira o contato que é essencial na constituição do ser humano. As dúvidas que surgem na aula e as intervenções feitas por colegas e professores são importantes para aprendizagem mútua.”

As mudanças acontecem também para quem já tem experiência com o ensino à distância (EAD). A professora do departamento de Desenho Industrial da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Andreia Lins, trabalha com EAD há anos e, mesmo assim, explica que a experiência é diferente, até pelo fato do modelo adotado pela instituição ter caráter emergencial.

“Nunca se aprendeu tanto a ensinar como neste momento”

Andreia Lins, professora do departamento de Desenho Industrial da Ufes
Dulcemar Pereira precisou aprender novas tecnologias para o EAD (Créditos: acervo pessoal)

Espaço físico

Os problemas no ensino remoto ultrapassam as barreiras das escolas, faculdades e universidades e entram na casa das docentes. A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faesa, Viviane Lima Pimentel, já tinha um escritório em casa, mas por causa da necessidade de uma internet de muita qualidade para ministrar as aulas, teve que mudar seu ambiente de trabalho para a sala de casa, que não possui iluminação nem mobília adequada, o que ela considera, nesse momento, “ser o de menos.”

Para a professora de Artes, Dulcemar Pereira, a saída foi trabalhar no quarto, onde já existia um ambiente para realizar trabalhos corriqueiros e que se tornou um lugar de permanência. Sentada ao lado da sua cama, ela faz reuniões, prepara atividades e leciona. “A falta de separação do espaço físico chega a confundir, então, às vezes acordo e, ainda na cama, já abro o ambiente virtual da sala de aula e os grupos com outros professores para me atualizar do que está acontecendo. Isso antes mesmo de tomar um café ou um banho, porque entendo que já estou no meu ambiente de trabalho.”

Dividindo espaço

A professora do departamento de Desenho Industrial da Ufes, Andreia Lins, mora com seu marido, que também é professor, e com seu filho, que está tendo aulas virtuais. Por isso, teve que adaptar a casa inteira para o novo momento. “Dois professores não coabitam o mesmo espaço falando, então a gente teve que ocupar a casa de uma forma diferente, aprender novos modos de nos comunicar, participar de várias reuniões… São coisas que passaram a ser corriqueiras. A casa e o trabalho se misturam, então, por exemplo, eu estou no meu horário de trabalho e Valmir (marido) decidiu mexer na elétrica. São coisas que a gente está a aprendendo a lidar.”

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faesa, Viviane Lima Pimentel, também passa pela mesma dificuldade. Ela mora com a filha, que teve que se adaptar aos horários da mãe, não podendo assistir televisão na sala a qualquer momento ou ir à cozinha de pijama logo que acorda para não correr o risco de aparecer durante a aula da mãe. “A sorte é que a gente se dá muito bem e conseguimos nos organizar dessa forma, abrindo mão de muita coisa.”

Dulcemar já não consegue separar trabalho de descanso (Créditos: acervo pessoal)

Horário de trabalho

Os novos métodos de ensino requerem práticas que não eram cobradas anteriormente dos professores e que acabam demandando mais tempo deles. Antes, o docente planejava a aula remotamente, ministrava presencialmente e, ao final, corrigia atividades. Agora, o processo é mais demorado, como explica Viviane. “O que a gente utilizava de horário extra-aula para planejamento e correções se tornou diário em termos de produção de vídeo, baixar aula gravada, subir para Youtube, aprender e testar novos programas.” Para ela, os momentos em que se está realizando tarefas relacionadas ao trabalho triplicou.

A professora de Artes, Dulcimar Pereira, também notou um aumento significativo na demanda de trabalho. Isso porque foi necessário aprender a utilizar ferramentas que não faziam parte do dia-a-dia presencial e a se relacionar com o aluno de outra maneira. 

Além de professora, ela também assume o papel de coordenadora de área da escola em que trabalha. Por isso realiza atividades como entrar em contato com os alunos e pais para verificar se eles estão conseguindo acessar o ambiente virtual, tirar dúvidas, e auxiliar no processo de aprendizagem que é novo para todos.

Já a professora da Ufes, Andreia Lins, não notou uma grande diferença na carga horária. Para ela, a maior mudança é que no presencial o conteúdo programado está pronto e são feitas poucas alterações. Agora, a maior dificuldade é a de gravar os seus conteúdos com tranquilidade, assumindo as imperfeições e aceitando-as. “Gravar e se ver gravado é difícil, porque ali você tem que ver e assumir os seus erros e tiques. Você tem que pensar que é assim que é possível e falar para si mesmo: isso está bom, passei a mensagem. E não se preocupar tanto com detalhes, afinal na sala de aula você também teria erros, você gaguejaria, e não dá para ter o preciosismo de querer fazer o processo perfeito. Não tem um cenário, um chroma key, estamos fazendo o possível. Por isso que eu falo que é emergencial”, finaliza.

Perdas e ganhos

Para Andreia, o ensino à distância tem perdas e ganhos. Os novos hábitos de realizar todas as atividades de ensino de casa é capaz de aumentar a interação da família com os estudos, que antes via apenas uma parte do processo, agora vê ele por inteiro. “Muitas vezes a gente só via o nosso filho saindo e chegando em casa reclamando, mas não via ele vibrando com uma informação, e agora isso é possível.”

Apesar disso, a professora da Ufes lamenta algumas experiências que são perdidas durante esta caminhada, como as aulas práticas de fotografia no Centro de Vitória, que ela realizava com os alunos. Ela entende que são vivências que não são possíveis de acontecer neste momento por questões de segurança, para que ninguém se exponha ao vírus.

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Faesa, Viviane Lima Pimentel, que orienta alunos no Trabalho de Conclusão de Curso, também notou que é possível o projeto ser realizado a distância, o que ela considera um ganho. Além disso, a realização de reuniões, mesas redondas e palestras com pessoas que não seria possível fazer presencialmente se tornou possível à distância.

Porém, a falta de trocas prejudica a relação do professor com o aluno e até o andamento da disciplina. Segundo ela, muitas vezes o rumo da aula é ditado pelos olhares de quem a assiste, identificando se existem dúvidas ou curiosidades no que está sendo dito. “São perdas tanto em termos pessoais quanto em termos de aprendizagem.”

A professora de Artes, Dulcimar Pereira, conta que o ambiente virtual proporciona a realização de atividades com uma riqueza de recursos que, muitas vezes, não estão disponíveis na sala de aula presencial. Os vídeos, imagens, hipertextos e jogos interativos auxiliam no processo de conhecimento e chamam a atenção dos alunos.

Mas ela lembra, ainda, da importância da presença física e do contato, que é diminuído no online. “Na sala todos nós interagimos e surgem questionamentos e comentários que, às vezes, virtualmente os alunos deixam passar. Isso pode interferir na formação de sujeitos mais críticos e atentos”, explica Dulcemar.

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