O Earte é bom para quem?

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As diferentes realidades vivenciadas pelos estudantes da Ufes geram opiniões adversas sobre o Earte

Repórteres: Jonathan Neves | Karla Silveira | Letícia Soares | Milena Costa | Edição: Gabrielly Minchio | Ilustrações e infográficos: Maria Izabel Ichisato | Audiovisual: Beatriz Moreira | Produção: Weslley Vitor

Com o início do Ensino-Aprendizagem Remoto Temporário Emergencial (Earte) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) as atividades presenciais – suspensas devido ao isolamento social provocado pela pandemia do novo Coronavírus – deram lugar às feitas remotamente. Celulares e computadores agora substituem a presença física e, por meio deles, é possível realizar reuniões, trabalhar, estudar ou apenas matar a saudade dos amigos e familiares. Porém, é preciso destacar que, os sinais de wi-fi e os fios de internet ainda não fazem parte de todos os lares brasileiros. 

Neste cenário, estudantes com menor poder aquisitivo se veem em desvantagem em relação aos alunos com condições financeiras, quando vão equipar seus locais de estudo, por exemplo. Essa realidade reflete na discrepância do número de discentes da rede pública que não possuem acesso à internet: são 26% contra apenas 4% de educandos da rede privada, resultado da pesquisa do Instituto DataSenado. Diante deste dado, desses 26% de alunos que estão desconectados, quantos estudam na Ufes e foram atingidos pelas dificuldades das aulas a distância e quais impactos essa situação trará a saúde mental, física e financeira deles?

A estudante de Licenciatura em Ciências Biológicas do Centro Universitário Norte do Espírito Santo (Ceunes), Carol Souto, viu toda sua rotina ser alterada por conta da pandemia. A jovem precisou retornar à casa dos pais em Minas Gerais após três anos estudando na Ufes. Para conseguir ter um ambiente de estudos adequado, ela sentiu a necessidade de reconfigurar o espaço do imóvel. “Eu já não tenho mais o quarto que eu tinha antes. A solução que nós encontramos, em meio ao Earte, foi fazer da sala um quarto para mim”, explica.  

Tratando-se do acesso à internet, por estar em uma cidade interiorana, Carol relata que o sinal não possui tanta qualidade. O computador, por sua vez, foi adquirido por meio de um auxílio fornecido pela Universidade. Porém, como o valor não era o suficiente para comprar um equipamento novo, ela foi à procura de um notebook usado. 

Já para o aluno de Engenharia Civil, Leonardo Casotti, a realidade é diferente. Além de possuir um espaço privado para estudar e um computador, o estudante tem acesso a duas internets diferentes em casa. “Mesmo assim, às vezes eu ainda tenho problemas, de uma internet cair ou de outra não estar funcionando e eu ter que sair de uma e entrar em outra. Então, se eu, que estou com duas, já tenho dificuldade, imagina para uma pessoa que não tem condições ou que não tem uma internet tão boa na região em que ela mora”, reflete. 

Em um estudo feito pelo TIC Domicílios 2019, foi observado que o Brasil possui 134 milhões de usuários de internet. Nesse levantamento, que foi realizado pelo Centro Regional para o Desenvolvimento de Estudos sobre a Sociedade da Informação (Cetic.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, 47 milhões de pessoas seguem fora da rede, sendo que 35 milhões delas estão em áreas urbanas e 12 milhões, em áreas rurais.  

Se o número de usuários parece elevado, a mesma observação não é feita sobre a qualidade da internet brasileira. No ranking “Digital Life Abroads”, da InterNations, que classifica os países em razão da quantidade de serviços governamentais on-line e outras facilidades – como internet de alta velocidade e agilidade para realizar pagamentos on-line -, o Brasil está na 50º posição dos 68 países avaliados. Em se tratando da facilidade de se conectar à internet e da velocidade de acesso, a posição do país despenca para 62º. 

Local de estudos de Leonardo Casotti (à esquerda) e de Carol Souto (à direita). A estudante conta que o ambiente foi improvisado. “A mesa meu pai conseguiu um vidro e fez o suporte com algumas coisas que ele tinha aqui em casa, até o suporte do mouse é improvisado (bandeja de presunto)”.  

Realidades diferentes, opiniões diversas   

Leonardo vê como ponto positivo do Earte a não necessidade de deslocar-se para aprender. Por morar e trabalhar em Vila Velha e estudar em Vitória, o jovem enfrentava muito trânsito, principalmente nos chamados “horários de pico”. Já Carol, não vê nenhum benefício no ensino remoto, porém, carrega como aprendizado os conhecimentos tecnológicos que está adquirindo nesta fase “Nós estamos aprendendo mais, mesmo que ‘à força’, sobre essas plataformas como Google Classroom e Google Meet”. 

As turmas dos entrevistados também possuem opiniões diversas sobre as aulas online. “Os meus colegas têm gostado bastante do Earte, sobretudo pela questão de deslocamento. Mas eu vejo que, no meu curso, tem muitas pessoas com condições financeiras boas, então acho que essa questão influencia muito. Grande parte delas tem um espaço privado, um bom computador e acesso à internet, porém, acredito que essa não seja a realidade da maioria da Ufes”, pondera Leonardo.

“Os comentários dos meus colegas têm sido, praticamente, os mesmos que os meus: quase todos são contra, não concordam que seja um ensino inclusivo e que atenda a todos os alunos. Conheço várias pessoas que estão tendo dificuldades com o Earte  e eu sou uma delas. Há pessoas próximas que não estão conseguindo nem assimilar o conteúdo nem acompanhar o professor”, explica Carol, que possui, em sua turma, representantes discentes em vários âmbitos da Ufes, como no Centro Acadêmico e nos Conselhos Departamentais. 

No entanto, ao serem questionados se a desigualdade social pode afetar o desempenho dos estudantes no Earte, a resposta de ambos foi alinhada para “sim”. Leonardo acredita que “a desigualdade ocorra de forma enorme na Ufes. Existem pessoas com muito pouco e pessoas com muito. Eu acho que afeta principalmente quem não tem condições de ter um espaço privado para estudar, que é o principal”. E Carol pontua: “Acho que afeta sim, tendo em vista de nós não termos um local adequado, condições para comprar um livro e uma mesa de estudos. São poucas coisas que eu estou citando, mas que afetam diretamente no desempenho do aluno”.  

Inclusão das pessoas com deficiência 

Além dos problemas relatados por estudantes nas redes sociais, uma questão pouco abordada pela comunidade acadêmica neste período, entrou em pauta: o acesso e a inclusão das pessoas com deficiência no ensino remoto. Dados do Censo da Educação Superior indicam um aumento de 120% no número de alunos com deficiência que estão matriculados nos cursos de graduação, no período de 2009 a 2018. Porém, apesar do crescimento, esse número corresponde a apenas 0,5% dos 8,45 milhões de estudantes de ensino superior no país. 

No dia 2 de outubro, o graduando em Ciências Sociais, Samuel Martins, que é uma pessoa com deficiência intelectual, publicou um IGTV em seu Instagram mostrando os obstáculos que tem enfrentado em meio ao Earte. No vídeo, gravado pela mãe Lúcia Mara Martins, o estudante – cujo notebook usado foi doado e não está em boas condições – não consegue ouvir o professor durante uma aula síncrona e pede ajuda no chat. No entanto, ele não obtém retorno dos colegas e, por estar sem monitor no momento para lhe dar o auxílio adequado, se retira da aula. Até o momento da escrita desta reportagem, o vídeo conta com mais de 20 mil visualizações e 411 comentários.

Lúcia relata que, o vídeo foi gravado em um momento de sofrimento. “Eu queria mostrar que a acessibilidade não tem a ver só com a questão do uso de um equipamento, mas também com o auxílio que vem dos próprios colegas. E a Ufes não tinha preparado ninguém para o Earte”, salienta Lúcia, que também é mãe de outro filho com deficiência intelectual e autismo. A mãe destaca que, o objetivo do vídeo não era atacar o professor tampouco a monitora – segundo ela, o filho foi avisado pela monitora que iria se atrasar para a aula -, mas sim para mostrar que este é um problema estrutural da Universidade. 

A Universidade possui 66 anos de existência. E por que agora com o Earte ela não estava preparada? É uma questão estrutural. Se a Universidade não estava preparada para o presencial, ela estaria preparada para colocar o ensino remoto?

Lúcia Mara Martins, sobre a inclusão das pessoas com deficiência no ensino remoto 

Apesar do problema recente, Lúcia destaca que, desde que seus filhos ingressaram na Ufes, em 2018, ela vem mostrando as dificuldades de acessibilidade das pessoas com deficiência. “Foi desde o primeiro dia que saiu o nome deles no edital do Sisu, sendo aprovados para fazerem os cursos na Ufes. Gostaria de lembrar que, eles são os primeiros estudantes com deficiência intelectual a ingressar em seus devidos cursos. A graduação que eles fazem não possui nenhum outro estudante com deficiência”, relata ela, que também tem o filho Bruno estudando na instituição, no curso de Serviço Social.  

“A acessibilidade e a inclusão não são feitas só pelo professor e pelo monitor, devem ser feitas pela comunidade acadêmica, desde o reitor até o estudante que está em sala de aula com um aluno com deficiência”. 

Lúcia Mara Martins 

Por meio de nota pelo Twitter, a Universidade destacou que “os estudantes que possuem algum tipo de deficiência, e são atendidos pelo Núcleo de Acessibilidade da Ufes (Naufes), são acompanhados por monitores de modo a terem um atendimento individualizado necessário à construção de estratégias que oportunizem a inclusão e a aprendizagem desses estudantes”. 

A instituição ainda ressaltou que “no contexto do Earte, reforçou o atendimento, inclusive com o lançamento do portal earte.atendimento.ufes.br, no qual é disponibilizado um suporte para professores e estudantes de todos os campi da Ufes. O atendimento visa solucionar questões referentes a uso de ferramentas de webconferência, plataformas de ensino e esclarecimento de dúvidas sobre as atividades de ensino-aprendizagem em ambientes virtuais”. 

Em resposta à equipe do Universo Ufes, o Núcleo de Acessibilidade da universidade alega que, ao tomar conhecimento do caso, a instituição promoveu a escuta e o diálogo entre todos os envolvidos.

“O professor da disciplina realizou um atendimento individualizado com o estudante a fim de ouvir as demandas dele e realizar a melhoria do processo de ensino-aprendizagem. A mãe participou dessa escuta e também pôde expor suas solicitações à equipe do Núcleo de Acessibilidade da Ufes. Ao fim dos encontros individualizados, todos os envolvidos participaram de um momento coletivo, que fortaleceu os vínculos entre o estudante e a universidade”, afirma a nota.

O Núcleo também menciona que promove o acolhimento desde o ato da matrícula e durante o semestre para orientações em acessibilidade, além de produzir e adaptar materiais didático-pedagógicos, disponibilizar tradutor e intérprete de Libras, dentre outras medidas tomadas para auxiliar os alunos com deficiência.

Confira um trecho da entrevista com Lúcia Mara Martins no vídeo abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=ewl_5E_IXmY

Ensino à distância na quarentena e a realidade dos estudantes

Após a universidade adotar o modelo de ensino a distância, muitos problemas sociais vividos pelos estudantes vieram à tona.

Burocracia e dificuldades de acesso às salas virtuais, falta de estrutura e de aparelhos eletrônicos. Essas são algumas das situações enfrentadas por alunos da Ufes na adaptação ao período especial do Earte. 

Em setembro, após seis meses de aulas suspensas, a Ufes retomou as atividades acadêmicas em regime remoto. Com o anúncio, a instituição disponibilizou o “Auxílio Inclusão Digital Emergencial” para garantir o acesso ao novo ensino para os estudantes que não têm essa infraestrutura. 

Quem são os alunos beneficiados?  

Para receber o auxílio equipamento no valor de R$ 1.400 e/ou o auxílio internet de R$ 100 por mês, os estudantes deveriam estar regularmente matriculados no semestre especial, não possuir computador nem acesso à internet e ter renda bruta mensal igual ou inferior à 1,5 salário mínimo per capita. Esta parcela representa cerca de 29% do corpo discente da Universidade, como mostra o questionário do Grupo de Trabalho (GT), criado pela Ufes, que recebeu cerca de 11.656 respostas dos estudantes matriculados. 

Maria das Graças, de 45 anos, é uma das alunas beneficiadas pelo auxílio. Aluna do segundo período do curso de Arquivologia para ela acompanhar as aulas de casa está sendo difícil. “Em casa é sempre mais complicado por conta do ambiente diferenciado e da concentração, além do comprometimento que devemos manter durante as aulas”, conta. 

“Não se compra um computador com R$ 1.400” 

Mesmo com o auxílio no valor de R$ 1.400, Maria encontrou dificuldades para comprar um computador devido à alta nos preços de equipamentos eletrônicos. Pela International Data Corporation (IDC), depois do início da pandemia, é possível observar que os valores desses eletrônicos aumentaram mais de 60%. Um dos principais fatores que implicaram nesse crescimento foi o aumento do dólar, que de R$ 4,28; em 31 de janeiro, passou para R$ 5,51 em 24 de setembro. Para exemplificar: usando o comparador de preços Buscapé, um notebook da Lenovo subiu de R$ 1.363,64 para R$ 2.299,99 entre fevereiro e setembro deste ano. 

No intuito de driblar essa dificuldade, a estudante explicou que teve de optar pela compra de um desktop usado, já que está desempregada e não tem condições de arcar com um valor maior do que o recebido pelo auxílio. “Comprar um computador novo era impossível, então comprei um de segunda mão e ainda precisei adquirir teclado, mouse, fone e outros acessórios essenciais”. O monitor, que ainda faltava, ela recebeu a doação de um com a ajuda do cunhado. “Costumo dizer que o auxílio conseguiu suprir 50% das minhas necessidades. Ele não resolveu tudo, mas, ao menos, ajudou”, conclui. 

Em nota, a Universidade contou que o valor disponibilizado pelo benefício foi definido após orçamento realizado pela coordenação do Núcleo de Acessibilidade da Ufes (Naufes), tendo como base os valores que estavam no mercado.

“O acesso às aulas vai além do equipamento” 

Graça conta que nunca havia tido a experiência de estudar à distância e que, para ela, as atividades remotas ainda são uma novidade. “O Earte é algo que ainda estou me adaptando, pois nunca fiz aulas a distância e, no meu caso, é tudo novo: um desafio que vai além da aquisição de equipamentos”.  

Ela relata, ainda, que teve dificuldade para se adaptar à nova rotina de estudos. “No começo, eu acompanhava as aulas pelo celular e, para cada matéria, os professores estavam colocando três ou quatro atividades para entregar na semana. Para dar conta de tudo isso, era complicado”, crítica. 

No entanto, apesar das incertezas causadas pela pandemia, a discente afirma que não pensou em desistir do curso e que, desde o início, já esperava por uma solução da Universidade em relação às aulas. “Para mim, perder seis meses já foi um atraso na minha vida acadêmica. Então, queria uma solução da Ufes em relação às aulas e eles criaram o Earte que, ao meu ver, ainda precisa ser aprimorado”. 

Gustavo Forde, pró-reitor de Assuntos Estudantis e Cidadania, menciona que os auxílios são fundamentais para assegurar aos alunos da Universidade o acesso ao Earte. “O objetivo dos auxílios é viabilizar a participação dos estudantes nesse processo não só das atividades curriculares, mas também das atividades acadêmicas de forma ampla, englobando ensino, pesquisa e extensão”. 

Porém, vale lembrar que, ao oferecer o ensino remoto, a Universidade expôs as dificuldades dos alunos que vão além do acesso à internet como dificuldades sociais e estrutura.

“Falta silêncio em casa” 

Para Karina Oliveira, aluna do curso de Letras, mesmo tendo acesso ao computador e à internet, em casa não há um local adequado para acompanhar as aulas. “É desanimador. Eu entro na sala virtual e não consigo me concentrar por conta da falta de silêncio e do próprio espaço em casa, já que não tenho um local adequado”. 

Com o início das aulas remotas e as atividades do estágio, a estudante tem passado mais tempo conectada ao seu equipamento eletrônico. “Com a retomada das aulas, tenho ficado das 9h às 18h em frente ao computador. É claro que com alguns intervalos, mas a maior parte do tempo é estudando para as disciplinas e projetos do curso”, salienta. 

Em relação à participação nas aulas, a estudante tem enfrentado dificuldades. “Fiz a matrícula em uma disciplina e, para participar das aulas, eu tive que primeiro ligar para um colega de curso para, assim, entrar em contato com o professor e conseguir o acesso à sala virtual”.

Plataforma online para orientação 

Para ajudar os alunos a encontrar informações essenciais sobre as atividades acadêmicas do período especial, a Ufes disponibilizou o site “earte.ufes” com uma seleção de materiais para os estudantes e docentes.  

No portal, é possível encontrar orientações para acesso ao sistema remoto das aulas, ao “peça e pegue”, que é de empréstimo de livros, e aos materiais para pesquisa, dentre outros.  

A plataforma também tem disponível soluções de estudos para os alunos da graduação e pós-graduação; e um espaço para cursos de formação didático-pedagógica para apoiar os professores e gestores. Entre essas possibilidades, há atividades práticas, videoaulas, cursos e dicas de rotinas de estudo. 


Estagiários em home office enfrentam os desafios de preservar seus direitos

Estagiar durante a pandemia: pressão por produtividade, estudo deixado de lado e violação da lei de estágio

O estágio supervisionado é, para os estudantes de ensino superior, uma oportunidade de se preparar para o mercado de trabalho e, quando remunerado, uma fonte de renda. Por meio dessa experiência, o aluno desenvolve habilidades profissionais e se habitua à dinâmica do ofício escolhido. Na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), conforme dados da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), são 1.811 estudantes que estagiam e que, desde setembro, tentam conciliar estudo remoto com o estágio.  

Devido à pandemia de Covid-19, o sistema de trabalho nas empresas mudou. Em uma pesquisa realizada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), foi concluído que 46% das empresas adotaram o esquema de home office durante o isolamento social provocado pela disseminação do novo coronavírus. Apesar da comodidade de trabalhar em casa ser tentadora, o sonho pode se tornar pesadelo a partir do momento em que os horários de trabalho e de descanso não são bem delimitados ou respeitados pelo contratante.  

Com o uso de dispositivos eletrônicos cada vez mais enraizados no cotidiano, muitos gestores podem acabar mandando mensagens corporativas fora do horário de expediente dos funcionários. Tal ato potencializa-se a ser uma invasão da privacidade do profissional e pode afetar a sua vida pessoal. Um levantamento realizado por nossa equipe de reportagem com cerca de 130 estudantes da Ufes apontou que 48,6% dos alunos que estagiam se sentem pressionados a responder mensagens mesmo fora do horário de trabalho.    

Trabalhando em home office, a estagiária de Engenharia Civil, Larissa*, conta que a empresa em que foi contratada tem costume de atribuir tarefas durante seu repouso. “Existe uma cobrança para estar à disposição pelo motivo de estar trabalhando em casa”, afirma. A jovem ainda relata que, durante a suspensão das aulas pela Ufes devido à pandemia, ela chegou a trabalhar mais de 8 horas por dia, sendo que a jornada assegurada em seu contrato é de 4 horas. “Eu recebia a mais, mas, mesmo sem considerar a remuneração, havia uma pressão para trabalhar dois turnos, já que estava sem aula”.

O procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) no Espírito Santo, Bruno Gomes Borges da Fonseca, explica que é preferível que o contratante respeite o horário de trabalho para envio de mensagens. “Depois do horário, teoricamente, ninguém é obrigado a trabalhar. Se as mensagens são frequentes e geram desconforto ao estagiário, a melhor maneira de proceder é dialogar com o professor orientador na instituição de ensino e o supervisor de estágio”, esclarece.

A também estudante de Engenharia Civil, Alice*, conta que chegou a fazer muitas horas extras no período em que estava sem aula. Ela afirma que não se sentiu pressionada a cumprir a jornada suplementar e que, por vontade própria, se disponibilizou a trabalhar mais. Contudo, o procurador Bruno Gomes salienta que a jornada de trabalho do estagiário prevista no art. 10 da Lei 11.788/2008 não inclui horas extras. Sendo assim, “o estagiário não deve ser contratado para substituir força de trabalho”, ressalta Bruno.  

Com a adoção do Earte pela Ufes, o ensino passou a ser online. Se, com as aulas presenciais, as vidas profissional e acadêmica eram separadas de maneira mais nítida, agora que o ambiente de estudo e trabalho se tornou o mesmo, essas relações se misturam e muitas vezes podem conflitar. 

Larissa* relata que, com o início das aulas, seu contratante passou a respeitar melhor a carga horária previamente combinada, mas, mesmo assim, às vezes ela precisa usar seu tempo de estudo para trabalhar. “Quando temos algum prazo apertado na empresa, acabo me dividindo entre aulas online e resolvendo coisas do estágio”, conta. Já Alice* tinha medo de misturar estudo e trabalho pelos dois estarem acontecendo de maneira remota, porém, a estudante afirma que está conseguindo conciliar. “Eu coloquei na minha mente que não vou misturar as duas coisas ao mesmo tempo”, conclui. 

Falas retiradas do questionário feito pela nossa equipe de reportagem sobre saúde mental e estágio em meio à pandemia.

Qual o posicionamento da Universidade? 

A diretora da Diretoria de Apoio Acadêmico (DAA) da Ufes, Denise da Costa Assafrão de Lima, afirma que, com a adoção do home office por parte das empresas, a Universidade tem tomado medidas para garantir a integridade dos estagiários. “A Prograd tem orientado todos os envolvidos no processo de estágio para que sejam garantidas, dentre outras, as seguintes condições: compatibilidade das atividades serem executadas à distância; manutenção da supervisão; existência de equipamento necessário para o desenvolvimento das atividades, sem custo para o estudante, e; acompanhamento das orientações do governo local e das normas do Ministério da Educação”.   

Caso o termo de compromisso esteja sendo transgredido, Denise orienta que o estudante procure os setores da Universidade que estejam diretamente ou indiretamente ligados ao estágio: Colegiados de Cursos; Coordenações de Estágios dos Cursos; Coordenação de Estágios da Prograd; Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, dentre outros. Além disso, os estudantes podem recorrer às instâncias externas à Ufes como Delegacias regionais do Trabalho ou Ministério Público do Trabalho.   

O art. 7, inc. V da Lei 11.788/2008 afirma que é obrigação da instituição de ensino zelar pelo cumprimento do termo de compromisso, reorientando o estagiário para outro local em caso de descumprimento de suas normas. Já a resolução interna Nº 74/2010, que institui e regulamenta o estágio supervisionado curricular nos cursos de graduação da Ufes, garante, em seu art. 18, que a supervisão dos estágios será realizada por meio de orientação, acompanhamento e avaliação pelos docentes orientadores da Ufes e pelos supervisores do campo de estágio. 

Questionada sobre a fiscalização da efetividade dos contratos, a diretora do DAA alega que essa supervisão é de competência dos cursos de graduação. Procurados, coordenadores de diversos cursos alegaram que esse controle é de domínio da Prograd.       

 *Nomes fictícios a pedido das entrevistadas. 


Preservar a saúde mental é um enorme – e invisível – obstáculo na corrida por produtividade no Earte

Ansiedade, depressão e estresse dificultam aprendizado dos estudantes da Ufes no ensino remoto durante a pandemia de Covid-19

Dizem por aí que o ano só começa depois do carnaval. No calendário, é o mês de janeiro que estreia o ano, mas planners e agendas pessoais, geralmente, só são ocupados depois da folia. É quando aquela famosa lista de “coisas para fazer no novo ano” começa a valer. Entrar na academia, focar nos estudos, procurar um novo trabalho e mudar de apartamento são exemplos de planos comuns que ficam agendados para o pós-festa. Há, porém, aqueles que gostariam de adiá-los ainda mais e brincam que facilmente poderiam “emendar” o carnaval ao Natal. Neste ano, contudo, a divindade ou a força – ou seja lá o que for – que rege o universo parece não ter entendido a piada e, por ironia, está quase finalizando a proeza de juntar as duas datas.

O coronavírus chegou ao Brasil logo depois do carnaval. Todos aqueles projetos marcados para o fim da festa tiveram de ser adiados. A pandemia do Covid-19 obrigou que ficássemos em casa com o mínimo de contato com outras pessoas. Já se passaram sete meses – agora só faltam dois para o Natal – e a situação não mostrou uma melhora significativa. Em meio ao aumento dos casos e do número de mortos pela doença, um inimigo ainda mais silencioso do que o vírus começou a agir. Parte da população tem sentido o coração disparado, enjoos, dor de cabeça, falta de sono e até tremores pelo corpo. Nem sempre tão diferente dos sintomas de Covid, estes podem ser alguns dos sinais de ansiedade e depressão.

Além de obrigar o adiamento de planos, a pandemia do novo coronavírus colocou o mundo em um cenário completamente desconhecido. O sentimento de frustração foi inevitável. Lidar com ele também ficou mais difícil. O bem-estar físico, mental e social entraram em desequilíbrio e a capacidade de resiliência foi afetada. O grupo de pesquisas em Psiquiatra da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) fez um mapeamento da saúde mental dos brasileiros neste período. Cerca de metade dos entrevistados para a pesquisa “CovidPsiq” alegaram piora durante o isolamento. Entre estes, estudantes e pessoas mais novas apresentaram os quadros mais graves de ansiedade, depressão e estresse. 

Em períodos de normalidade, antes da Covid-19, a saúde mental já era uma preocupação para com os estudantes de graduação. Não são raras as reclamações de ansiedade ou sentimentos de tristeza profunda e desesperança, como mostrou a mais recente pesquisa nacional do perfil de estudantes de graduação das Instituições Federais. As dificuldades emocionais já estavam, inclusive, entre as principais motivações para abandonar o curso. 21,2% dos graduandos pensaram em desistir da formação devido à problemas de saúde física ou mental.   

A fim de ajudar esses jovens universitários, a psicóloga Ana Carolina Maffazioli se colocou à disposição para atender estudantes de graduação cobrando um valor bem inferior ao do mercado. A ação da profissional é motivada, inicialmente, pela sua própria experiência. Carolina conta que sentiu falta de acompanhamento psicológico durante sua formação superior. Além disso, ela também acredita que a juventude é um dos períodos mais importantes do desenvolvimento humano, mas ainda muito pouco estudado. “Não tem aquela mesma dedicação dos profissionais como tem a adolescência ou a infância, mas a juventude é uma das fases mais críticas”, afirma.  

Para boa parte dos jovens, a universidade faz parte desse contexto de transição e entrada na vida adulta. Sendo assim, o ensino superior torna-se um agravante. A psicóloga citou alguns fatores que podem servir como gatilhos para a ansiedade e a depressão: “É comum surgirem questionamentos sobre a escolha feita. Muitas vezes, o jovem não é preparado nem orientado sobre como tomar decisões, então ele sofre muito para fazer isso. Também há uma perda de percepção da individualidade. Esse jovem faz sua escolha pautado naquilo em que ele se acha bom. Na universidade, ele percebe que várias outras pessoas também são boas naquilo e deixa de se sentir especial”, pontua. Além disso, o excesso de cobrança e outros fatores externos – como dificuldades financeira, problemas familiares ou amorosos – também foram citados pela psicóloga.  

Este momento de pandemia – em especial, a volta às aulas – impôs novas transições. Uma série de adaptações já precisaram ser feitas em função do coronavírus; agora, mais algumas foram necessárias para o ensino a distância. De acordo com Maffazioli, a ansiedade se agrava por conta de pequenos desapontamentos diários imprevistos e inesperados. A estudante Carol Souto confirma que a sua saúde mental piorou depois do Earte, porque ela não conseguiu se organizar diante das situações inéditas para ela. Além disso, Souto passou por uma grande mudança: ela morava sozinha e precisou voltar para a casa dos pais durante o isolamento. Se em um primeiro momento, sua maior preocupação era perder um semestre, dessa vez, ela se sente frustrada por conta do seu desempenho. “Não consigo prestar atenção e aproveitar as aulas. Não tenho conseguido acompanhar a minha turma. Estou tendo muita dificuldade”, confessa. 

O sentimento dela é parecido com o do universitário Leonardo Casotti. O estudante afirma que, durante os meses sem aula, ficou frustrado por perder um semestre e se afastar um pouco do sonho de se formar. Nesse sentido, o retorno das aulas foi um alívio. Entretanto, ele tem apresentado sintomas de ansiedade e dificuldades no seu desempenho acadêmico. “São raras as vezes em que eu consigo prestar atenção. A maioria das aulas estão cansativas e não consigo aproveitar, porque, enquanto estou fazendo atividades, fico pensando no que tenho que fazer depois”, desabafa.  

Entre os estudantes da Ufes, essas reclamações são comuns. Durante os dias 01 e 08 de outubro, rodamos uma pesquisa entre os alunos da universidade buscando entender como estava a saúde mental deles. O levantamento apontou que 71,6% dos entrevistados sentem que houve uma piora. Além disso, nosso mapeamento revelou que 55% dos alunos estão tendo problemas para dormir, 61% aumentaram muito o consumo midiático, 41% enfrentaram dificuldades financeiras e 58% tiveram alguém próximo infectado pelo coronavírus. De acordo com a pesquisa “PsiqCovid”, da UFSM, sintomas mais graves de ansiedade, depressão e estresse no isolamento foram relacionados a esses fatores. 

Não é exagero dizer que o Earte agravou o problema de saúde mental entre os universitários. Além dos danos causados pelo isolamento e pela pandemia, a educação a distância veio cobrando alto desempenho neste momento. Quando não conseguem corresponder às próprias expectativas e às cobranças dos professores, os estudantes se comparam com os colegas, ficam frustrados e sentem-se incapazes.  

A adoção do ensino a distância foi uma solução surpreendente para os alunos da Ufes dentro de um cenário macro mundialmente inesperado. Ninguém sabe exatamente como fazer funcionar, e a pressa, somada à falta de preparação, não ajudou nem os alunos nem os professores. Com os planos adiados, a esperança é de que chegue logo o carnaval, para que, enfim, depois dele, possamos respirar aqueles ares de ciclo novo. O problema é que até ele foi adiado e, por enquanto, o novo normal não se parece em nada com a normalidade. 

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