Palestra do PósCom debate interesses coletivos diante da pandemia da Covid-19

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Movimentos sociais arrecadaram mais de 4 mil toneladas de alimentos, produziram conteúdos informativos e criaram ações para impulsionar a economia local que gera renda e trabalho em bairros periféricos.

texto: Andrezza Steck | edição e revisão: Daniel Jacobsen e Cecília Miliorelli

O Programa de Pós-graduação em Comunicação e Territorialidades (PósCom) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) realizou, na última quinta-feira (17), mais um painel do 6° Seminário de Comunicação e Territorialidades. Com o tema “Ativismo e Comunicação em tempos de pandemia: a atuação dos movimentos sociais”, os convidados conversaram sobre como o campo comunicacional responde ao momento atual e quais são os espaços  destinados às vozes dos grupos periféricos diante do novo coronavírus (Covid-19), refletindo sobre os caminhos possíveis para o mundo pós-pandêmico.

Para eles, os desafios enfrentados pelos movimentos sociais em uma nação que ocupa a 7ª posição no ranking de países mais desiguais do mundo, perpassa o preconceito. No debate os mediadores e professores do curso de Comunicação Social da Ufes, Daniela Zanetti e Rafael Bellan, atribuem os obstáculos às questões estruturais resultantes de um modelo econômico elitista e oligárquico que moldou a sociedade brasileira.

“Nós temos ciência de que somos referência nas mais diversas buscas para nossa comunidade”

Em 2018, o ódio ganhou espaço e as discussões nas redes sociais durante as eleições. O extermínio do ativismo foi promessa de campanha do então candidato, Jair Bolsonaro, que assegurou “botar um ponto final em todos os ativismos do Brasil”. Encerrado o processo eleitoral, a repressão, agora com endereço fixo, elevou o patamar às instituições,  que se utiliza de dispositivos legais, para desempenharem ações arbitrários.

Em contrapartida, a ascensão do novo coronavírus, principalmente a partir de fevereiro, só aumentou a demanda dos ativistas em meio à quarentena. A precarização das moradias nas periferias, a falta de saneamento básico, acesso à informação e aos equipamentos de proteção individual –  como máscara e álcool em gel –  e a fome foram alguns dos desafios dos ativistas. A partir desse contexto fica a pergunta: Como os movimentos sociais têm se apropriado dos recursos comunicacionais e batalhas discursivas?

A fundadora do Coletivo Minas da Quebrada, Lia de Oliveira, contou na palestra como foi a primeira reação da comunidade em Cariacica com o impacto da Covid-19. Inicialmente, foram realizadas ações para arrecadar alimentos e roupas, mas outras foram necessárias: “Veio aquela preocupação para conseguir informação. Se nem a gente tinha acesso à informação, os nossos [moradores] também não estavam recebendo. Era preciso ter uma informação correta e em uma linguagem que fosse compreendida”, disse Lia.

O isolamento social inviabilizou as atividades da rádio e o trabalho de informar aos moradores sobre as novas normas sanitárias e as medidas de proteção contra a doença passaram a ser pauta do antigo jornal impresso do bairro. 

“A chegada da pandemia nos assustou muito por conta da falta de informação. A periferia é a última a receber informação de forma correta”, Lia de Oliveira./FOTO: Reprodução

“Nós temos ciência de que somos referência nas mais diversas buscas para nossa comunidade. Através do jornal, conseguimos comunicar a nossa comunidade para poder iniciar um diálogo e sanar as principais dúvidas”, afirmou a ativista.

Comunidade Unida

O Banco Bem, banco comunitário, é um exemplo de ativismo no Espírito Santo. Criado em 2005 ele possui sua própria moeda (e-dinheiro) e está disponível em nove bairros; Itararé, Jaburu, Bairro da Penha, Bonfim, Engenharia, Consolação, Floresta, São Benedito e Gurigica, a região  conhecida como Território do Bem. A maioria dos projetos desenvolvidos nos bairros são demandas dos próprios moradores. Como a o Varal Agência de Comunicação elaborado pela ONG Ateliê Ideais parceira do Fórum de Desenvolvimento Comunitário. 

“Nem todo mundo tem dados para ficar online nas redes sociais”

A jornalista e coordenadora do Ponto de Cultura Varal Agência de Comunicação/Ateliê de Ideias, Geisiane Teixeira, explica que o Varal possui duas atribuições. A primeira é criar uma mídia comunitária. O jornal Calango Notícias foi pensado como uma rede de informações para os 11 bairros integrantes do Território do Bem e possui uma linha editorial voltada para a construção de uma identidade social positiva do território. O método é simples e eficiente: “falar do território para o próprio território e mostrar as potencialidades dos bairros para fora”, afirma a jornalista.

Com a pandemia o trabalho na redação do jornal dobrou. A partir de ações de outros coletivos e organizações sociais, o jornal se mobilizou e começou a produzir material informativo para os moradores: “As ferramentas que produzimos no jornal são repassadas pelo ‘zap’ para os moradores. Nem todo mundo tem dados para ficar online nas redes sociais. E muitas operadoras de telefonia oferecem o WhastApp gratuito”, lembrou.

No debate Geisiane Teixeira problematizou questões estruturais nos bairros periféricos: “como vamos pedir para o morador fazer quarentena se sua casa é um ambiente insalubre?”/FOTO: Reprodução

A segunda atribuição do Varal é realizar a assessoria institucional do ateliê e dos respectivos projetos do território. A distribuição de doações pelo banco comunitário é uma delas. A partir da plataforma digital do e-dinheiro, disponível nos 110 bancos comunitários no Brasil, elaborou-se uma ação para incentivar que as doações fossem realizadas via banco comunitário, evitando assim o furo da quarentena e com isso o aumento dos riscos de contágio pelo contato com cédulas de dinheiro. Outro objetivo foi proporcionar a autonomia para o morador comprar o que ele precisa de acordo com sua necessidade, além de incentivar o comércio local.

Teixeira afirmou que a proposta, além de criar uma transparência de dados dos valores doados, continua com a arrecadação de donativos através do e-dinheiro para manter a “roda girando”. “Hoje nós temos cerca de 60 comerciantes que aceitam a moeda digital. É importante manter o dinheiro dentro da comunidade, pois ele gera trabalho e renda, isto é, os estabelecimentos continuam funcionando e geram oportunidade de trabalho dentro dos próprios bairros”, finaliza.

Novos caminhos e desafios

Passados sete meses da chegada da Covid-19 ao Brasil, o cenário atual do país é conturbado com o aumento do desemprego. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) divulgada em agosto, a taxa de desemprego subiu para 13,3% no trimestre encerrado em junho, atingindo 12,8 milhões de pessoas e mais de 8 milhões de postos de trabalho foram fechados devido a pandemia. 

“É importante manter o dinheiro dentro da comunidade, pois ele gera trabalho e renda”

A perspectiva é que a retomada da economia seja lenta. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é esperado um recuo de 6,5% na economia brasileira em 2020. Números que só agravam o já existente abismo social e econômico no Brasil.

Esta semana o relator especial da Organização das Nações Unidas, Baskut Tunkat, pediu a abertura de um inquérito contra o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. No pedido, além de questionar a gestão durante a pandemia do novo coronavírus, Tunkat denuncia violações na área ambiental e dos direitos humanos.

Ana Flávia Marques é pesquisadora do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da ECA-USP/FOTO: Reprodução

Diante do confuso cenário político, social, econômico e sanitário, a jornalista e diretora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Ana Flávia Marques pontuou a importância dos movimentos sociais para o enfrentamento da Covid-19. A união de duas frentes do ativismo – Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo – conseguiu arrecadar mais de 4 mil toneladas de alimentos. Para a reflexão sobre os caminhos possíveis para o mundo pós-pandêmico a jornalista afirmou que algumas organizações sociais não acompanharam a evolução do campo da comunicação como, por exemplo, “a distribuição do conteúdo e como furar a bolha” das novas tecnologias.

“Os movimentos sociais tradicionais são mais rígidos; para eles você tem que ter mais controle”

“Os movimentos sociais e as organizações mais tradicionais no Brasil sempre tiveram uma visão muito funcionalista da comunicação”.

Outra dificuldade citada pela jornalista é um novo fluxo da forma de comunicação e organização. Com a inserção de novas tecnologias o trabalho linear e cooperativo se firmou. O entendimento de “tempo” também se transformou e ocupou a dinâmica do trabalho. “Os movimentos sociais tradicionais são mais rígidos; para eles você tem que ter mais controle”, ressaltou.

Próximo Encontro

O próximo painel será realizado no dia 22 de setembro, às 18 horas. O tema “Corpos e existências LGBTQIA+ a partir da arte e cultura” será debatido pelos convidados Thiago Torres e Ramayana Lira com mediação de Erly Vieira Jr. A transmissão será ao vivo pelo canal do PósCom no Youtube.

Evento

O 6° Seminário do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Territorialidades da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que este ano discute o tema “Caminhos da comunicação no mundo em crise”, está contecendo desde o dia 1º e vai até 29 de setembro, excepcionalmente de forma remota e virtual em decorrência da reprogramação de atividades na Ufes, ocasionada pela atual pandemia do novo coronavírus. O seminário é composto por painéis dos alunos e debates com convidados. 

Assista à palestra completa clicando aqui.

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