Empreendedorismo feminino negro cresce no ES por meio de ações afirmativas

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Encontro Das Pretas – Edição Vale.
Foto: Divulgação Das Pretas

Dados apontam que maior desemprego entre mulheres negras é um dos principais fatores para elas começarem a empreender.

Aline Almeida, Júlia Cássia e Rayla Corrêa.

Marcado pelo desenvolvimento tardio, o quadro do empreendedorismo sustentado por mulheres negras vem ganhando novas projeções. Segundo o último Anuário das Mulheres Empreendedoras e Trabalhadoras em Micro e Pequenas Empresas, 51% das mulheres negras trabalham por conta própria.

Apesar do número ser animador, também revela que muitas mulheres pertencentes a esse recorte social tomam a iniciativa de embarcar em um emprego informal mais por necessidade do que por vontade. Essa realidade é expressa no registro de 17,4% de mulheres negras com ensino médio desempregadas em 2015, contra 11,6% da média feminina, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda de acordo com a pesquisa, comparado às mulheres brancas, a taxa de analfabetismo ainda é o dobro.

       Empoderar mulheres negras, combater o racismo e influenciar o empreendedorismo é o papel do Instituto Das Pretas, que vem há três anos, trazendo o protagonismo feminino preto periférico para as diversas áreas de atuação. “O Das Pretas é uma organização não governamental que nasceu da necessidade de mulheres pretas desenvolverem suas tecnologias e ações. Sediado em Vitória (ES), vem  desenvolvendo ações afirmativas para levar para todos e todas o sentido de “quilombar”. Para isso são realizadas ações como o Quilombinho”, contou Danny Borges, diretora do Das Pretas.

Danny Borges
Foto: Arquivo Pessoal

O Quilombinho é uma colônia de férias realizada nos meses de dezembro e junho, voltado para crianças entre cinco e 11 anos, onde são desenvolvidas atividades sobre e para o público negro, desde a história à matemática desenvolvida no continente Africano. O objetivo é a imersão das crianças negras e do autoconhecimento como tal. Dentro da Instituição há outras ações, como a festa Bekoo das Pretas, marcada pelo protagonismo preto e periférico, no qual artistas independentes têm espaço para apresentar seus produtos como empreendedor do ramo artístico. 

“A festa teve início em um local em Vitória conhecido como “Beco das pulgas”, e, a partir dali, cresceu e foi preciso um espaço maior. Hoje, a festa ocorre na  quadra de uma escola em Vila Velha”, disse Danny Borges.

Além desses projetos, o Instituto trabalha com mais cinco, entre eles o Encontro das Pretas. Priscila Gama, presidenta Das Pretas, disse que esse encontro é totalmente voltado para o empreendedorismo de mulheres negras e que vem crescendo a cada ano. 

Priscila Gama
Foto: Arquivo Pessoal

“O encontro nasceu a partir da necessidade de mulheres escoarem seus produtos já desenvolvidos e formalizados. São vários anos de edição e vejo que tudo vai muito além de uma venda. É ir ao encontro do nosso ser, ver nosso produto sendo valorizado e poder compartilhar isso com outras mulheres pretas”, afirma Priscila. 

Por meio desse projeto, vidas de empreendedoras foram transformadas. A professora Patrícia Luiza Ferreira Borges foi em todos os Encontros desde a primeira edição. “É empolgante ver várias mulheres negras empreendendo e colaborando. É uma sensação muito diferenciada, pois nós nos sentimos num lugar seguro, num lugar de pertencimento, diferente do que costumamos lidar no dia a dia. Além das feiras, nós sempre temos rodas de conversas, mesas redondas, palestras, que abordam as nossas questões, como a solidão da mulher preta, aceitação do nosso cabelo, hipersexualização, entre outros” disse. 

Patrícia Luiza Ferreira Borges
Foto: Arquivo Pessoal

Patrícia contou que o encontro a ajudou na formação de sua identidade como mulher negra, pois fez com que ela se sentisse pertencente a um grupo, além de o encontro fomentar a busca de conhecimentos no assunto. 

“Sabemos que o problema do machismo é ainda mais agressivo com as mulheres pretas, então nossos encontros também fortalecem a discussão sobre esse viés. Outro ponto importante que temos nesse momento juntas é que adquirimos conhecimento para traçar estratégias de resistência”, completou.

27 mulheres reunidas para falar sobre empreendedorismo feminino no primeiro encontro do AfroLab para ELAS. Foto: Luara Monteiro

Afrolab para ELAS

Visando fomentar ainda mais o empreendedorismo feminino preto capixaba, o Das Pretas trouxe o Afrolab para o Espírito Santo. O Afrolab é um projeto de um instituto em São Paulo, o Feira Preta, uma organização com proposta semelhante ao Das Pretas. Foi fundado e administrado pela Preta Hub, que  é a consolidação de 18 anos de atuação com pesquisas, mapeamento e aceleração do empreendedorismo e consumo negro do Brasil, com a reunião de dados e conhecimento empírico sobre estes temas.

“O Afrolab aconteceu em maio deste ano e foi um sucesso. Foram mais de duzentas inscrições para o evento, diversas mulheres e empresas participaram. Tivemos a parceria do Sebrae, onde o evento aconteceu”, contou Priscila Gama

A administradora Ana Lima, que à época possibilitou que o evento fosse realizado no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), acredita que o empoderamento econômico é uma ferramenta poderosa para levar essas mulheres muito mais longe. O evento foi inédito no Sebrae capixaba, que, para ela, foi um grande passo.

Ana Lima
Foto: Arquivo Pessoal

“Foram seis dias de imersão, de muita entrega. Vi mulheres incríveis fazerem idéias de negócios desabrochar, tomar forma. Conheci mulheres fenomenais, ousadas e que merecem conquistar todo o mercado que puderem. Juntas fizemos o que há tanto não havia sido possível, que foi ocupar nosso espaço na casa do empreendedorismo capixaba”, contou a administradora.

O Sebrae Espírito Santo tem como missão promover o desenvolvimento dos pequenos negócios e o empreendedorismo no Estado. A colaboradora da instituição, Edlaine Braga, acredita que a parceria com o Das Pretas na realização do Afrolab confirma que estão percorrendo o caminho certo para o desenvolvimento sustentável do negócio e na geração de renda das participantes. Ela disse que essa não será a única parceria e que o Sebrae estará comprometido com ações afirmativas como essa.

Percebo o quanto precisamos de ações como estas para empoderar mais mulheres para se verem como empresárias e ajudá-las a tirarem seus sonhos do papel, tornando os possíveis e sustentáveis”, afirmou a diretora do Sebrae-ES.

O empreendedorismo na juventude

Dentre as diversas histórias e as diferentes formas de empreender  compartilhadas durante o Afrolab, a de uma jovem de 17 anos chamou bastante atenção. A relação de Beatriz Bispo com as box braids – tipo de trança caracterizada por ser feita desde a raiz e unir fibra sintética a cabelo natural – começou cedo, aos 14 anos. Sua mãe, Andressa Cristina da Vitória, foi a grande incentivadora para que hoje sua habilidade e paixão pela técnica se transformasse em fonte de renda. O primeiro trabalho foi em família. Ela começou trançando o cabelo da prima sem nenhum conhecimento específico da técnica, nem a vídeos tutoriais assistia.

Ana Beatriz- Foto: Arquivo Pessoal

Mas ela já vinha desenvolvendo sua técnica por meios próprios. “Eu comecei a me interessar pelas tranças porque minha mãe usava. Na época, com 10 anos ainda, eu já alisava o cabelo. Mesmo me submetendo a esse padrão, sofria bullying na escola, então foi aí que surgiu o meu interesse de colocar tranças como uma tentativa de empoderamento”, contou.

Ela começou a fazer e refazer as tranças em si mesma e assim foi  entendendo o processo. Com a prática, foi se aperfeiçoando. Hoje em dia ela atua profissionalmente como trancista e procura qualificação dentro do empreendedorismo. “Eu me inscrevi para o Afrolab, mas estava meio desacreditada, pois havia poucas vagas e, por eu ser muito nova, achei que não seria selecionada. Fiquei muito feliz quando me ligaram e informaram que eu havia sido escolhida”, relata.

Beatriz conta que aprendeu a administrar gastos e lucro. Ter participado do Afrolab, para ela foi a ponte, e por meio do Sebrae, conseguiu solução para toda a burocracia, inclusive para iniciar o registro para Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ) como Microempreendedor Individual (Mei). 

“Agora eu pretendo me especializar para cada vez mais, aperfeiçoar meu trabalho. Meu objetivo é empoderar mulheres para, a partir daí, melhorar a autoestima e a aceitação. Eu atendo meninas e mulheres negras que alisam o cabelo por não aceitar sua origem, então a trança auxilia na transição enquanto o cabelo cresce. Esse momento cria um amor e a vontade de assumir o cabelo natural”, enfatiza a trancista.

Conciliando o término dos estudos e o trabalho, Beatriz usa o espaço de casa e visitas à domicílio para atender suas clientes – Foto: Arquivo Pessoal




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