Mulheres enfrentam mais dificuldades que os homens para se profissionalizar no esporte

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Mesmo após revogação de legislação que proibia a prática de algumas modalidades por mulheres no Brasil, público feminino ainda enfrenta mais limitações que o masculino no cenário desportivo

Andrezza Steck e Síntia Ott

No dia 14 de abril de 1941, durante o governo de Getúlio vargas, foi outorgado o Decreto-Lei nº 3.199, documento que na época deu origem à entidade dirigente dos desportos no Brasil, o Conselho Nacional de Desportos (CND), extinto em 1933. O decreto também estabeleceu as bases de organização dos desportos no Brasil e reduziu, através do artigo 54, a autonomia das mulheres no esporte.

Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país. (Art. 54°, Capítulo III – Das Confederações Desportivas – Decreto-Lei n° 3.199, de 14 de abril de 1941)

No decreto não há menção de nenhuma modalidade. No início da Ditadura Militar, entretanto, o CND proibiu expressamente a participação das mulheres em qualquer tipo de luta, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo (ginástica que consiste no levantamento de pesos e halteres) e beisebol. A decisão foi acatada pelo governo militar e assinada pelo então presidente e general Eloy Massey Oliveira de Menezes. 

Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo-aquático, pólo, rugby, hanterofilismo e baseball (Art. 2°, incluso no Decreto-Lei n° 3.199  no dia 2 de agosto de 1965) 

Além do veto à participação em determinadas modalidades esportivas, as mulheres que desejassem praticar esportes não mencionados na nova legislação deveriam se submeter às regulamentações das entidades internacionais dirigentes de cada desporto. Quando o desporto em questão não tivesse um dirigente internacional, elas deveriam solicitar uma autorização ao CND.

O caminho que o público feminino precisou percorrer para recuperar seus direitos foi longo. De acordo com a pós-doutoranda em História pela Ufes Lívia Rangel, a reivindicação pela igualdade de direitos é uma mudança lenta e gradual, “o que se nota historicamente é que as mudanças positivas no ingresso de mulheres no esporte ocorreram no compasso de mudanças culturais e econômicas que afetavam, além do padrão de vida, da modernização da estrutura urbana e das formas de sociabilidade, as próprias relações de gênero, isso especialmente a partir dos anos 1920 e 1930, no Brasil” , afirma.

Somente em 1976 o Decreto-Lei n° 3.199 foi revogado. Os impactos foram tamanhos que a desigualdade de oportunidades para profissionalização nos desportos entre homens e mulheres persiste até hoje. Rangel reforça, “Há uma profunda relação entre o longo processo de inserção da mulher no esporte e sua condição social”, afirma.

Mas para entender melhor esse problema é preciso investigar como ele se materializa  no cotidiano de esportistas e professoras. É o que se buscará esclarecer agora.

O simples fato de você ser uma mulher torna tudo mais difícil. É preciso ser 10 vezes melhor em determinadas coisas, constantemente te testam ou avaliam se você realmente sabe o que está fazendo. Fernanda Lima, técnica de basquete

Fernanda Lima tem 26 anos e começou a jogar basquete com 11 anos. Aos 17, após sua última participação em uma competição da categoria de base, optou por encarar a carreira de treinadora, pois se indentificava com a prática do ensino.  “Desde pequena falava que queria ser professora, então foi a união de duas paixões, basquete e ensinar”, recorda ela. 

Fernanda Lima já treinou equipes de basquete femininas e masculinas. Foto: arquivo pessoal.

Atualmente Lima é professora de educação física no Colégio Marista, localizado no Espírito Santo, e técnica de basquete das categorias U10 e U12 da mesma escola. Também é técnica das equipes adultas masculina e feminina de basquete Gorilas, da NBA (National Basketball Association) Basketeball School e do RED´S feminino adulto, além de embaixadora do Esporte Universitário. 

Lima treinou seleções capixabas e uma equipe nos Estados Unidos por 2 meses para competições nacionais. Ela chegou a conquistar premiações em campeonatos estaduais e brasileiros e, ao longo de sua carreira, foi adquirindo estabilidade profissional. Contudo, admite que não foi fácil.

Gabriella Pereira tem 26 anos e é preparadora física no Espírito Santo. Aos 17 anos iniciou sua carreira como atleta de futsal. Ela comenta que aos 14 anos já pensava em se profissionalizar em algo relacionado ao esporte.

Em 2010 ingressou em uma graduação de educação física e, assim que se formou, abriu um estúdio de treinamento funcional, onde faz preparação física de atletas de judô, karatê e futebol. Em 2015 ela começou a cursar um mestrado em educação física e hoje atua na primeira Estação Cidadania Esporte, em Cariacica (ES), atendendo crianças em diversas modalidades esportivas.

Gabriella Pereira é uma das empreendedoras que sofrem com as dificuldades impostas às mulheres no mercado desportivo. Foto: arquivo pessoal.

Pereira adverte que empreender no Brasil é burocrático, pois quando abriu seu estúdio teve dificuldades para conseguir o financiamento. “Eu tinha pouca idade quando comecei e os bancos não dão credibilidade para quem não tem experiência na praça, então eu tive que me virar sozinha. Hoje estou com 4 anos no mercado, mas ainda há muitos desafios. São muitos impostos e poucos retornos, mas a gente vai contornando e seguindo”, detalha. 

Atualmente a preparadora física gera emprego e renda para outras pessoas que prestam serviços a ela, evidência de que as mulheres são tão capazes quanto os homens no que se refere à atuação profissional no mercado desportivo. Porém, ela relembra que entrar e permanecer no mercado de trabalho esportivo capixaba é mais complicado quando se é do sexo feminino. 

Maria Emília tem 28 anos e é ex-jogadora profissional de basquete. Ela jogava em Campinas (SP), no Campeonato Paulista A1, mas abandonou a carreira em 2018. “Infelizmente a instabilidade me fez desistir do esporte profissional. Percebi que precisava de algo mais estável para uma melhor qualidade de vida”, diz. Hoje é professora de educação física na rede municipal da Serra (ES).

Maria Emília abandonou as quadras como jogadora de basquete, mas não como professora. Foto: Arquivo pessoal.

A professora começou a jogar basquete graças a um primo seu, o ‘Casé’. Este já atuava profissionalmente e, quando Emília tinha 13 anos e uma altura respeitável, ele a levou para jogar basquete no Clube de Regatas Saldanha da Gama (ES). Daí em diante, ela começou a se destacar em campeonatos, fato lhe rendeu propostas para atuar em outros estados.  Aos 16 anos, recebeu a primeira proposta, mas acabou não indo. Aos aos 23, após concluir sua faculdade, recebeu sua última proposta e aceitou se tornar atleta profissional. 

Emília participou de competições de basquete estaduais, integrando a seleção capixaba, e nacionais, competindo nos Jogos Brasileiros pelo Colégio Americano Batista. Nas estaduais, conquistou premiações nas categorias sub13, sub15 sub17 sub22 e adulto. Também já recebeu os títulos de melhor jogadora, destaque e cestinha. 

Gabriella Bastos é uma motociclista de 35 anos, mais conhecida como ‘Gabi Rancing’ na modalidade esportiva. Ela corre profissionalmente desde 2010 nas 500 milhas de Interlagos, em São Paulo, onde conquistou o 4° lugar na categoria 600.  Foi aos 15 anos que comprou sua primeira moto, uma troca que ela fez com os pais. Ao invés de comemorar com festa ou viagem, preferiu dinheiro.

pódio motovelocidade

Gabriella é a única mulher no pódio de vários campeonatos de motovelocidade. Foto: arquivo pessoal.

Gabriella começou a praticar motociclismo num pequeno espaço chamado BKR, na Serra (ES), com uma moto Honda CBR 600. O local não chegava a ser um autódromo, mas atendia às necessidades iniciais dela, porém, foi interditado por questões judiciais, o que a obrigou a correr em outros locais. Foi assim que acabou indo para as 500 milhas de Interlagos (SP) e se profissionalizando em cursos de pilotagem. Um dos vários que fez foi o de instrutora de pilogem, que a habilitou a ministrar cursos para iniciantes. 

Alguns dos seus títulos mais recentes são os de 3° lugar no GP Gerais,  em 2016, na categoria 1000 cilindradas; 4° lugar no Campeonato Uruguaio de Motovelocidade na categoria Supertock 1000; 3°no Track mix GP Gerais, em 2017 e vice campeã do Desafio Plan Speed Park de Motovelocidade, em 2018. Esse ano ela consquistou o título de vice-líder da Taça Carioca de Motovelocidade.

Em todos esses campeonatos, Gabriella era a única mulher. Ela ressalta que sempre estava em desvantagem, pois o tipo de pilotagem exigia dela mais força e resistência do que dos homens, já que o biotipo masculino se adapta com maior facilidade ao esporte. “Me esforço para me manter na ponta e, às vezes, tenho alguns contratempos com pilotos iniciantes, pois estes não aceitam perder posição para mim por eu ser mulher. Se acham na obrigação de me passar pelo simples fato de serem homens ”, desabafa. Segundo ela, os motociclistas costumam não levar em consideração sua experiência e nível de pilotagem.

Suelen Dalmaso tem 28 anos e é árbitra de basquete. Seu contato com a prática esportiva se deu na infância, e isso a influenciou a cursar uma graduação de educação física. Após concluí-la se deparou com um mercado de trabalho saturado, mas encontrou uma saída no basquete. 

Suelen Dalmaso viu no basquete uma oportunidade de se inserir no mercado. Foto: Fernando Robert

A árbitra já participou de competições estaduais e nacionais, somente não de internacionais por não possuir a formação completa requisitada para as árbitras, mas pretende se profissionalizar na área. Também ainda não recebeu premiações, mas ela é esperançosa e confiante quanto ao seu futuro no basquete. “É só o começo da minha carreira. Tenho certeza de que um dia as premiações virão”, garante. 

Suelen questiona a caracterização do basquete como uma modalidade masculina, pois, de acordo com ela, há muitas mulheres que jogam e estas possuem as mesmas qualidades e competências que os homens no esporte. Apesar desse impasse, ela destaca que houve alguns avanços no cenário do basquete nacional e cita como exemplo o aumento da quantidade de mulheres árbitras nos últimos anos.

Busca pela igualdade

Coadjuvantes de suas próprias histórias, as mulheres que sonham em trabalhar com esporte enfrentam dificuldades como o assédio e o machismo durante a profissionalização. Segundo uma pesquisa realizada pela ONG Women in Sport entre setembro de 2017 e março de 2018, com 1.152 mulheres, 38% das entrevistadas já sofreram preconceito no esporte.

A treinadora de basquete Fernanda Lima diz  que hoje já sabe se defender, mas na época em que era atleta a situação era diferente. “Quando mais nova eu era mais vulnerável [ao assédio], e isso acontecia com maior frequência. Hoje em dia, me imponho mais e acabo espantando [os assediadores]”, afirma.

A árbitra Suelen Dalmaso sofreu assédio em campeonatos nacionais, inclusive em um campeonato feminino onde só tinha mulheres, cometido pelo treinador de uma das equipes. “Na hora eu fiquei em choque, sem saber o que fazer. Mas depois eu comuniquei ao meu coordenador de arbitragem e ele mesmo foi até o técnico e mandou ele pedir desculpas”, lembra.

A pesquisa ainda revela que 40 % das participantes responderam que o gênero influencia negativamente na imagem profissional delas. Esta é uma dura realidade na vida da preparadora física Gabriella Pereira. Frases como “você tem que colocar um professor para trabalhar com você, se não os homens não vão treinar aqui” e “você vai perder alunos”, são comuns no seu dia a dia.

Dona de uma academia, Pereira ressalta a ‘desconfiança’ da própria sociedade com profissionais mulheres no esporte. “Hoje em dia, a minha competência fez com que esse tabu fosse quebrado mas, diferente dos homens, nós, mulheres, precisamos sempre estar provando que somos capazes”, conclui.

Sobre o mercado de trabalho dos desportos, Fernanda declara que o cenário é difícil para homens e mulheres, mas que para estas  o caminho é mais árduo. “Só sentindo na pele para saber”, completa.

A presença maciça de lideranças do sexo masculino em entidades esportivas é outro entrave à participação efetiva e horizontal das mulheres nos desportos.  Na Federação Capixaba de Basquetebol (FECABA), por exemplo, Lima revela que o órgão “não fez nada pelo basquete feminino” estadual nos últimos 10 anos e que, hoje, as mulheres ocupam funções na arbitragem, mas os cargos de diretoria ainda são preenchidos por homens.

Dentro dos ambientes de ensino-aprendizagem a situação não é muito diferente. “Minha formação foi praticamente conduzida por homens, pouquíssimas mulheres passaram em minha trajetória”, desabafa Lima.

A pós-doutoranda Lívia aponta que a falta de representação das mulheres em todos os setores do esporte tem enormes consequências.  “A defasagem na representatividade de mulheres em postos estratégicos resulta em prejuízos e problemas como disparidade salarial, falta de patrocínio, sexualização e a objetificação dos corpos femininos, além carência de suporte”, detalha.

A discriminação de gênero no esporte, portanto, dificulta as chances de profissionalização e construção de carreiras na área para as mulheres. Fernanda atesta que as cobranças no esporte são maiores para as mulheres em relação aos homens, fato que faz do machismo algo recorrente no universo esportivo.

Suelen Dalmaso fala sobre experiência na carreira esportiva

Ela diz que é constantemente testada e avaliada durante seus jogos. “Quando peço tempo técnico muitas vezes as pessoas vão para trás do banco ouvir minhas instruções para terem certeza se sei ou não o que estou fazendo”, expõe. O sentimento diante de tais situações, segundo ela, é de impotência e indignação.

Para Rangel a discriminação de gênero no esporte é estrutural, pois “reflete um problema social e cultural mais amplo, que inclui conceitos pré-estabelecidos a respeito da capacidade física e intelectual das mulheres, a respeito dos lugares que elas tradicionalmente devem ocupar”, finaliza. 

Muito mais que dinheiro

Para além de práticas sociais no cotidiano, o reconhecimento da competência da mulher em ser atleta e o tratamento igualitário podem ser medidos através da falta de patrocínio e outras formas de incentivo.

A ex-jogadora profissional de basquete Maria Emília recebeu um único apoio, o da família. ”Nunca obtive nenhum tipo de suporte. A mulher é desvalorizada em todas as instâncias. Conseguir patrocínio é extremamente difícil para qualquer esporte feminino. Quando se consegue é muito menor do que um time masculino recebe”, afirma.

Mesmo com inúmeros resultados e vitórias, a pilota de motovelocidade Gabriella Campos, não tem patrocínio e conta com a ajuda de vários amigos para seguir no esporte. Por isso não participa do campeonato brasileiro, um dos principais campeonatos nacionais do calendário da categoria. “Eu corro uma etapa ou outra, na esperança de alguém ver o meu bom desempenho e ajudar a conseguir um patrocínio. Por isso, faço o circuito carioca, que é mais perto e eu gasto menos. O brasileiro está inviável pra mim por falta de apoio”, conclui.

Por falta de patrocínio a motociclista Gabi Racing depende muito do apoio de amigos para seguir competindo. Foto: arquivo pessoal.

Além da ausência em campeonatos, a falta de investimento atinge diretamente a rotina de treinamentos. No caso de Gabriella, além de não ter um local para treino, ela deixa de praticar para economizar o jogo de pneus, que custa aproximadamente R$ 1.700, para utilizá-los só nas corridas, “A maioria dos pilotos treina todos os fins de semana. Eles têm autódromo próximo, um lugar para treinar. Eu passo um mês sem ter contato com minha moto de corrida”, explica a atual vice-líder da taça carioca de motovelocidade.

O problema vai além…

Melhora na qualidade de vida, na sociabilidade e na cognição. Esses são alguns dos benefícios que a atividades físicas e esportivas (AFEs) oferecem às pessoas. Praticá-las regularmente é um hábito adquirido, um tipo de uma cultura que pode ser moldada e disseminada assim como os valores e os princípios. 

A importância das AFEs foi detectada por instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Governo brasileiro, que periodicamente lançam campanhas e criam políticas públicas de incentivo à prática de exercícios físicos e esportivos. Com esse intuito, o Relatório Nacional De Desenvolvimento Humano Do Brasil de 2017 apresentou dados sobre o índice de práticas de AFEs na sociedade brasileira e conclui que fatores como gênero e renda são determinantes na construção cultural do hábito esportivo.

Os homens são sempre os que mais praticam atividades físicas e esportivas entre os 15 e 39 anos em comparação às mulheres.

O relatório analisou um grupo de 113 homens e 88 mulheres com idade igual ou superior a 15 anos durante todo o ano de 2015. Ao final da pesquisa constatou que ser mulher, possuir renda domiciliar per capita baixa e/ou ser negra resulta em menor índice de prática de AFEs. 

De acordo com os dados do relatório, os homens são sempre os que mais praticam AFEs entre os 15 e 39 anos em comparação com as mulheres. A maior disparidade de prática de AFEs entre homens e mulheres é encontrada no grupo  de 15 a 17 anos, com uma diferença de 85 pontos a menos para as mulheres no índice de prática de AFEs, seguida pela de 18 a 24 anos. Essas são as faixas etárias em que as entrevistadas para essa reportagem relataram ter seus primeiros contatos com o esporte de forma profissional.

O único momento em que as mulheres praticam mais AFEs que os homens é partir dos 40 anos.

Quando se trata de renda domiciliar per capita,os homens atingem índices maiores em todos os grupos. As mulheres sem rendimento ou que ganham até 1 salário mínimo são as mais afetadas.

No quesito raça, as mulheres negras atingem índices menores que as brancas. Enquanto as primeiras alcaçam a pontuação de 97, as negras não passam de 79, uma diferença de aproximadamente 10%.

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