Share Button

Os metadados correspondem a um conjunto de informações de cada indivíduo na internet. Hoje eles se constituem em informação estratégica para obter mais resultados e também para controle dos usuários.

Alexandre Barbosa e André Carlesso

Usuários ignoram Termos de Uso e Política de Privacidade nas redes. Foto: Alexandre Barbosa

“Ao clicar em Inscreva-se, você concorda com nossos Termos, Política de Dados e Política de Cookies”. Se você é ou já foi usuário de qualquer rede social, certamente já foi confrontado com esta frase ou algo parecido, e concordou. Contudo, em meio ao imediatismo contemporâneo, são grandes as chances de você ter ignorado esses tais termos antes de criar o seu perfil, ou que, provavelmente, nem mesmo tenha visto a frase, estrategicamente disposta em uma sútil fonte acima do imponente botão de “Inscreva-se”.

As primeiras décadas deste século foram marcadas pela assimilação definitiva de redes digitais à rotina urbana. Um modelo de plataforma que no início dos anos 2000 ainda era utilizado como passatempo em momentos de descontração, hoje é espaço para complexas articulações comerciais, movimentando o mercado e gerando novas especializações. Como essas redes, aparentemente transparentes e amplamente acessíveis, se tornaram tão poderosas tão rapidamente? Uma resposta para essa pergunta pode estar justamente no que ficou subentendido quando você criou seu perfil.

“Os dados são os bens mais preciosos hoje em dia”, afirma o professor do curso de Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (LABIC), Patrick Ciarelli. Postagens, fotos e qualquer outro tipo de informação pessoal publicada online de maneira consciente pelo usuário carrega consigo uma outra gama de dados sobre o indivíduo, muitas vezes sem a sua ciência.

Localizações, datas, horários, veículo de postagem, entre outros registros alimentam um conjunto de dados que revelam hábitos, costumes, pontos estratégicos e vulnerabilidades. Esse conjunto secundário de informações disponibilizadas colateralmente são os chamados metadados. Definidos pelo professor Ciarelli como “os dados sobre o dados”, esses registros são preciosas moedas de troca na economia atual.

Os metadados fomentaram um novo modus operandi para o mercado publicitário, que hoje atua nas mídias digitais atingindo seu público de maneira incisiva. Esse banco de informações também é utilizado como importante ferramenta militar, principalmente em países com robustas repartições de inteligência, como os Estados Unidos. O país, inclusive, vem debatendo esse novo panorama digital, após episódios como os “vazamentos” promovidos pela página Wikileaks e os relatos do hoje exilado político, Edward Snowden, sobre a atuação da Agência Nacional de Segurança estadunidense, publicados por jornais de grande circulação mundial, como o Washington Post e The Guardian, em 2013.

Com usos tão escusos, é natural que surjam questionamentos éticos sobre a disponibilização e aplicação desse conteúdo. Integrar-se a uma rede digital hoje é indispensável para uma plena atuação profissional e útil para interações sociais, mas vale submeter-se a um constante estado de rastreamento por pequenas conveniências operacionais? É prudente permitir que corporações mantenham extensos bancos de dados sobre mais da metade da população mundial? Segundo estudos da ONU publicados em 2018 esta é a primeira vez que essa quantidade de pessoas desfruta de acesso digital.

Para Ciarelli, algumas dessas preocupações já estão datadas.“Hoje em dia, a gente não tem mais que ficar preocupado se os nossos dados vão estar disponíveis ou não. Eles já estão”, assegura o professor, advertindo que “temos que ficar preocupados com a forma com que vão ser usados”.

Privacidade online é garantida por lei

Para a estudante Lara Lima, 19 anos, é fácil perceber como as suas informações circulam no meio digital. Ela conta que no Instagram, rede social que mais faz uso, costuma pesquisar vídeos de culinária ou receitas de doces e logo nota que, após sua pesquisa, constantemente aparecem publicações relacionadas a este conteúdo, inclusive em seus perfis de outras redes sociais.

Ela vê benefícios nessa integração de informações pessoais. “Não é de todo ruim porque te direciona para uma coisa que você já estava querendo. Se você pesquisou foi porque houve interesse, então se você encontra essa informação mais fácil, é válido”, afirma. Porém, sabe dos riscos que corre na internet e pondera que é necessário ter cautela. “Querendo ou não, elas [as redes sociais] invadem sua privacidade porque fazem uma análise de você e dos seus gostos”, avalia.

O universitário Marcello Amorim, de 19 anos, que também navega com frequência na internet, analisa que há uma lógica de mercado envolvendo as permissões diárias de acesso aos dados dos usuários. “Somos constantemente vigiados para sustentar a estrutura do mercado que quer se aproximar do público. Então, eu acho que há, sim, uma invasão de privacidade”, afirma.

O jovem lembra que muitas redes condicionam o cadastro do usuário ao fornecimento de outros dados, como por exemplo, o e-mail. “A sensação é de dar informações que não serão necessárias, mas que as empresas querem ter por uma questão de dominação”, critica.

O especialista em tecnologia da informação Eduardo Pinheiro atenta para a vulnerabilidade a que o público está suscetível. Ele salienta que até “andando nós produzimos informações, mas não temos controle sobre esses dados, onde são armazenados, por quem e com quais companhias são compartilhados”.

Pinheiro ainda destaca que não existe um limite ético para a exigência de dados pessoais de um usuário no que se refere à legislação brasileira, pois prevalece a vontade das partes. “O próprio usuário toma a decisão de disponibilizar seus dados em troca de um serviço a partir do momento em que ele concorda com os termos de uso”, explica.

Andando nós produzimos informações, mas não temos controle sobre esses dados, onde são armazenados, por quem e com quais companhias são compartilhados”
– Eduardo Pinheiro, especialista em tecnologia da informação

Mesmo não havendo proteção para demandas específicas, como a exigência do e-mail, o especialista aponta o Marco Civil da Internet como uma importante iniciativa para garantia da segurança no meio online. Regulamentada em 2014, a lei prevê a neutralidade e a privacidade da web, além de transferir a responsabilidade do armazenamento de dados às empresas provedoras do serviço.

Outra medida adotada pelo Governo Federal é a Lei de Proteção de Dados Pessoais, que estabelece o consentimento do indivíduo enquanto fornecedor de informações, tais como nome, senhas e documentos, e atribui às empresas a coleta, o tratamento e o descarte adequados desses dados, de modo que os usuários possam ter mais controle sobre sua intimidade na rede. Aprovada em 2018, a lei entrará em vigor a partir de agosto de 2020.

Arte: Alexandre Barbosa