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Entre os grupos mais afetados estão as mulheres, a população LGBTQI e os negros

Andrezza Steck e Síntia Ott

A internet é dos meios usados para a disseminação de discursos de ódio | Foto: Síntia Ott

Um levantamento feito pela ONG SaferNet revela o crescimento de denúncias de discursos de ódio ou intolerância na internet nos últimos dois anos. Conforme dados do relatório de denúncias da ONG, o número total denúncias de apologia e incitação a crimes contra a vida subiu de 18.071, em 2017, para 28.084 em 2018, totalizando um aumento de cerca 55%. É o discurso de ódio mais denunciado desde 2006.

As denúncias que mais cresceram de 2017 para 2018, entretanto, foram as de violência ou discriminação contra as mulheres, que saltaram de 1.947 para 17.051, culminando em um aumento de 776%. Em seguida vem as denúncias de xenofobia (552%), de neonazismo (231%), de homofobia (53%) e de racismo (13%). As denúncias de intolerância religiosa foram as únicas que não aumentaram, caíram cerca de 27%.

Desde 2006, a Safernet Brasil já recebeu mais de 2 milhões de denúncias de conteúdos de ódio

A Safernet Brasil recebe denúncias anônimas de atividades cibernéticas que incitam o ódio em sua plataforma digital desde 2006, cooperando com o trabalho do Ministério Público Federal (MPF), em defesa aos direitos humanos na internet. Desde então, a ONG monitora a disseminação dos discursos de ódio em redes sociais, blogs, páginas e sites e, até o momento, já recebeu mais de 2 milhões de denúncias de conteúdos de ódio.

De acordo com a mestre em Comunicação Social e Territorialidades pela Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Bianca Bortolon, o discurso de ódio consiste na manifestação de discriminação contra pessoas ou grupos sociais com base em características identitárias, tais como gênero, raça, etnia, nacionalidade e religião. Segundo a Safernet, os alvos mais frequentes desses discursos têm sido as mulheres, a população LGBTQI e as pessoas negras, além de outros grupos minoritários.

Bortolon afirma que os discursos de ódio propagam-se com facilidade na internet, fato que se deve, principalmente, à própria estrutura da rede.  “É um espaço que favorece a discussão entre os usuários e possibilita a formação de grupos entre pessoas que, de outra forma, provavelmente nunca se encontrariam, e veem na internet um meio de expor suas ideias”, explica.

A mestre ainda lembra que é importante não relacionar os discurso de ódio com opiniões políticas e nem enxergá-los como oriundos de grupos progressistas ou conservadores. Para Bortolon não há discursos de ódio contra a esquerda ou a direita. “A opinião política não tem, necessariamente, relação com o que se pensa sobre grupos minoritários. Uma pessoa da direita que acredita ser melhor para nós um estado mínimo pode, piamente, defender os direitos de pessoas LGBTs. Da mesma forma que uma pessoa da esquerda pode achar que as pessoas LGBTs estão tendo direitos demais e que o estado precisa intervir”, argumenta.

Bianca Bortolon, mestre em Comunicação, fala sobre os discursos de ódio

A exposição dos ativistas aos discursos de ódio

Para ativistas que defendem pautas de grupos identitários, a internet tem oferecido vantagens e desvantagens. Por um lado expande-se o alcance e a intensidade da militância na rede e, por outro, as pessoas se expõem a todo tipo grupos de pessoas e discursos, inclusive aos odiosos. Esse risco é real e já afetou ativistas como a Maria, do Espírito Santo, que optou por não se identificar pelo nome verdadeiro para se preservar.

Maria conta que por ser mulher e descendente de coreanos já sofreu machismo e xenofobia nas ruas e nas redes. Também recebeu comentários ofensivos por militar em prol de grupos sociais e questões identitárias. Em entrevista, ela relata as adversidades que enfrentou por ter se tornado alvo de discursos de ódio dentro e fora da internet.

Como é ser ativista no Brasil?

Na minha concepção atual, ser ativista no Brasil é extremamente desgastante, tanto que hoje minha luta está muito mais voltada para questões de comunicação e autocuidado. Acho que se não refletirmos e não pensarmos com carinho sobre essas duas questões, não vamos conseguir avançar. É aquele lema: em caso de emergência, primeiro coloque a máscara em você e depois ajude pessoas com dificuldade.  

Com qual idade você começou a ser ativista?

Organicamente e colocando isso como prioridade de vida, aos 17. Mas sempre tive contato com a luta por direitos por que meus pais são ativistas.

O que te motivou?

Sempre tive esse incentivo em casa, mas minha chavinha virou completamente durante a Ocupação da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, em julho de 2013. Eu havia acabado de voltar a morar em Vitória, já tinha tido contato com o movimento estudantil em São Paulo, na USP, e foi a partir das jornadas de junho que me senti ainda mais motivada.

Você defende causas feministas, correto? Já defendeu outra causas?

Correto! Já sim, causas relacionadas com direito à cidade, luta por educação pública, gratuita e de qualidade e meio ambiente.

Você já sofreu com algum tipo de discurso de ódio?

Já. Sofri com machismo e xenofobia [por ser descendente de coreanos] na rua e nas redes. Teve um episódio que me marcou muito nas vésperas do golpe [contra Dilma Roussef], em São Paulo. Eu voltava do trabalho, tarde da noite e, naquele dia, estava vestida de vermelho. Quando desci do ônibus perto de casa fui seguida por um homem que já me olhava dentro do coletivo. Ele ficou andando atrás de mim e falando coisas do tipo: “tá de vermelho por quê? É petista? Melhor que não seja”. Não lembro exatamente as palavras, cheguei a compartilhar nas redes, na época, e o post viralizou. Teve chuva de comentários de apoio e também chuva de comentários odiosos. Terrível!

E na Internet? Já sofreu algum ataque ou comentários ofensivos?

Ataque direcionado e coordenado nunca sofri, mas comentários ofensivos sim, mais de uma vez.

Alguma vez já decidiu não falar sobre algum assunto ou falou de maneira diferente para evitar possíveis ataques?

Todos os dias. Não é mais a rede social meu espaço de compartilhar ideias, projetos, sonhos, ou desabafos. Hoje escolho trocar com pessoas do meu convívio, através do diálogo sincero. Estou valorizando mais o olho no olho. Tenho tentado entender mais a rede como ferramenta e não como extensão da vida.

O dilema dos Chans

Criados no Japão no início dos anos 2000, os chans acompanharam as atualizações tecnológicas do novo milênio e,  desde então, passaram a se multiplicar e adquirir popularidade. Eles são fóruns anônimos online que comportam discussões sobre assuntos com temáticas diversas. Os mais conhecidos são o  2chan, o 4chan, o 5chan e o Dogolachan, e a maioria deles está abrigada na deep web ou dark web.

As diferenças dos chans para outros grupos e espaços de debate na internet são o anonimato, a pouca – ou quase nenhuma – mediação e a baixa consistência de busca. Não existe uma ferramenta para buscar um assunto anterior devido à velocidade da dinâmica nos fóruns. São algumas características que têm gerado discussões acerca dos prós e contras desses espaços de interação.

A repercussão negativa dos chans, porém, se intensificou após o massacre e morte de oito estudantes numa escola pública de Suzano (SP), em março de 2019, onde a Polícia confirmou a participação dos assassinos em fóruns da deep web. O fato instiga a pensar sobre a disseminação de discursos de ódio e incitação à violência fora da Web, para além, por exemplo, das redes sociais.   

“Não é que os chans fazem as pessoas criar discursos de ódio. O discurso sempre esteve lá…” Vulto

Vulto, codinome de um usuário que participou do seu primeiro chan em 2013, relata que, para ele, os fóruns são possíveis espaços para o discurso de ódio, mas não são os produtores deste tipo de discussão: “Não é que os chans fazem as pessoas criarem discursos de ódio. O discurso sempre esteve lá e as pessoas vão encontrar um local para fazê-lo. Agora que estamos vivendo esse momento muito reacionário, esse discurso tem voltado com tudo para as redes sociais. (…) Ele [o discurso] vai sair, em algum lugar. Se não for no chan, vai ser na dark web”, conclui.

Para o professor de Antropologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Osvaldo Oliveira, os chans são como outras mídias, que os indivíduos utilizam para defender suas ideologias. “É o momento em que eles compartilham pensamentos com pessoas que pensam igual a eles. Há o desejo de que seu pensamento seja propagado, pois a maneira de pensar é também uma maneira de viver. Por isso, eles gostariam que as suas visões se impusessem às demais”, afirma.

Os chans são fóruns anônimos de discussão com diversas temáticas |Foto: reprodução

Quando ainda frequentava os fóruns, Vulto conta que já presenciou linchamentos contra usuários de um grupo de jogos de fácil acesso, localizado na surface, isto é, na primeira superfície da internet, onde a maioria dos usuários navegam. O espaço possuía moderadores e regras, mas Vulto alega que estas não eram cumpridas pelos usuários,  tampouco pelos seus administradores. “Um dos lugares mais tóxicos na internet é o fórum Uol Jogos. E é anônimo e seguro? Não. Os caras falam absurdos, simplesmente por que nunca veio ninguém dizer que não pode”, desabafa.

O anonimato é considerado desvantajoso em certas situações. “Nos comentários de portal, por exemplo, você pode falar qualquer coisa, porque é muito mais fácil você não ter o seu nome associado ao seu discurso”. Bianca Bortolon, mestre em Comunicação Social

Os chans são, também, o reflexo das inúmeras possibilidades que a internet oferece. Nesses fóruns, o indivíduo encontra desde grupos sobre videogames até pornografia. A principal característica dos chans para lhes atribuir a responsabilidade pelos discursos de ódio é o anonimato. Vulto diz que é possível acessar alguns fóruns sem cadastro, mas a maioria deles estão na deep web ou dark web. A mestre Bianca Bortolon considera o anonimato desvantajoso em certas situações. “Nos comentários de portal, por exemplo, você pode falar qualquer coisa, porque é muito mais fácil você não ter o seu nome associado ao seu discurso”, exemplifica.

Entretanto, Vulto ressalta que os chans são ferramentas de uso livre e por isso não devem ser restringidos por regras como a proibição do anonimato. “O anonimato é um direito. A deterioração dele é a base para a construção de uma sociedade de controle. Atacar os fóruns anônimos é o melhor jeito de não resolver absolutamente nada. As pessoas estão cada vez mais e mais reacionárias e a sociedade precisa, em conjunto, estudar a resolução disso. Os chans são sintomas dessa sociedade atual”, finaliza.