Gênero e sexualidade em trânsito: os personagens da nova geração fluida

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Texto: Carina Costa | Fotos: Rafaela Laiola – Aqui estamos numa geração de multiplicidade de questionamentos e inquietudes. A agilidade que esculpe a vida contemporânea exige uma posição de crescente dinamismo. Alguns de nós lidam com o gênero de forma criativa, ao brincar, subverter e inverter os padrões normativos estabelecidos.  A nova era acompanha um ar de sobreposições e de rompimento com definições prontas e limitadas daquilo que se constitui como gênero e sexualidade. A atualidade é marcada por uma quebra de padrões, resultante de uma veracidade de tempos líquidos. Liquidez que transporta a mais ampla transitoriedade das identidades já não mais consolidadas. Os estudos queer, por exemplo, trazem à tona questionamentos sobre as posições já determinadas e buscam desconstruir premissas de que o gênero e a sexualidade se direcionam a um curso dado pela natureza.

Vivemos numa era de perceptível fluidez, experimentada por um cenário que compõe a velocidade dos acontecimentos que nos cercam. Singularizamos uma ruptura com a estabilidade dos sentimentos, dos prazeres e das exposições. Transpassamos as limítrofes bordas da identidade humana. Arian Motta, de 22 anos, artista gráfico e estudante de design, é um exemplo desses sujeitos que tem inventado outras formas de ser e estar no mundo. Arian criou para si um personagem que expressa de forma lúdica as questões de gênero, de memória e de produções existenciais.

Em contrapartida, a eminente realidade transitória não contempla a aprovação de indivíduos inflexíveis, pensantes retrógrados calcados no tradicionalismo do modus operandi. Degustamos a amargura da opressão ao nascermos e sermos condicionados à heteronormatividade. Ostentamos um nome e um sexo que carregam a pretensão de seguirem fixos no caminhar da vida.

A sociedade tem a errônea necessidade em rotular tudo que a cerca, de modo a impor limites às produções sociais, ainda que implicitamente. Em relação ao gênero e à sexualidade, a coletividade exige uma resposta clara e precisa daquilo que somos. Homens heterossexuais se relacionam com mulheres e mulheres heterossexuais se relacionam com homens. Homens homossexuais se relacionam com homens e mulheres homossexuais se relacionam com mulheres. Homens e mulheres bissexuais se relacionam com homens e mulheres.

Wadson Schimitberger, de 20 anos, estudante de Letras, já sofreu algumas hostilidades em relação a sua forma de se vestir. São olhares e comentários invasivos de pessoas próximas ou até mesmo de desconhecidos que não aceitam a diversidade e a forma livre de ser dos outros. Não nos faltam definições e enquadramentos que traçam a limitação do que se deve ser. A primordialidade em se indicar aquilo que somos parece rejeitar a complexidade humana, reduzindo o indivíduo a definições que não são aptas para abranger toda a diversidade existente.

Não obstante, a inconstância faz parte de muitos indivíduos que não se identificam categoricamente com a autenticação tradicional de gênero ou de sexualidade. Apresentamos aqui alguns indivíduos que se inserem nessas esferas transitórias, por meio de retratos que pretendem demonstrar aquilo que verdadeiramente representam. Wadson Schmitiberger, Amanda Amaral, Arian Motta e Thaylan Tolentino são os personagens que trouxemos para simbolizar os novos fluxos e transições de gênero e sexualidade da nossa geração.

Personagens que são como transeuntes, perpassam os paradigmas do ser e desvinculam-se das normas de gênero. Aqui jaz a crítica àqueles que constrangem todo e qualquer indivíduo ao requisitarem uma resposta indubitável sobre o gênero ou a sexualidade. “É homem, é mulher ou é trans?” “É gay ou é bissexual?”. Perguntas que se repetem incansavelmente e rejeitam a pluralidade de experiências e manifestações possíveis referentes a esses temas.

Um olhar sobre a fluidez dos antagonistas do determinismo identitário

Retratamos aqui pessoas livres e que de alguma forma trazem a transitoriedade e a mutabilidade à tona. Pessoas que expressam no vestir, no falar ou no fazer as multiplicidades da nossa geração.

Wadson Schimitiberger, 20 anos.

Sempre fui uma interrogação. Às vezes acordo e não sei se sou Wadson ou se sou Antônia. Já me perguntaram tantas vezes o porquê de Antônia, mas eu também não sei. É um nome charmoso, centrado, que causa pausas. E é assim que eu me sinto, paradoxalmente: uma pausa. Sou homem, biologicamente. Tenho barba, pernas peludas e uma voz, digamos, grossa. Mas gosto de perucas, saltos e sorrisos. Há definições sobre como um homem deve se comportar, mas são tão chatas. Estar vestido por saia é tão confortável, causa uma tranquilidade e a liberdade parece ser minha melhor amiga. Não me permito que as limitações sejam um ponto final na minha construção, sempre quero reticências. A mutabilidade que permeia o meu ser da cabeça aos pés tem um papel fundamental na minha identificação como ser humano. Hoje em dia eu sei quem o Wadson é. Uma mistura empolgante do que é ser alegre, que gosta de se comportar no feminino e quando for de sua vontade, usar um adjetivo no masculino, por que não? Mais não sei explicar, amanhã pode ser tudo diferente. Nasci para florescer. Tem de chover, às vezes. Mas nunca meu sol é molhado. A dupla que há em mim sempre se interroga para saber o o que é da confiança do meu bem-estar.

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Arian Motta, 22 anos.

Desde minha infância lembro-me de questionar os gêneros das pessoas. Aos 4 brincava de enfeitar o cabelo com flores, de não distinguir brincar com bonecas ou com carrinhos. Meus pais nunca me proibiram de brincar com algo, por ser menino. Pra mim todo mundo pensava assim também. Acreditava que o mundo todo aceitava claramente essa fluidez entre os gêneros. Mas com o passar do tempo, fui percebendo que não é bem assim. Primeiro comecei a ver que as pessoas faziam piadas de gays, lésbicas etc. Depois, mais tarde, fui percebendo a cultura de ódio, provocada muitas vezes por uma cultura extremamente cristã. Hoje em dia continuo percebendo que não defino meu gênero por completo, e tenho criado um personagem que tem trabalhado exatamente sobre essas questões de gênero, memória, existência. Creio que são em momentos em que o gênero não precisa ser definido que me encontro em sintonia comigo. Que encontro mais uma vez a alegria que tinha, quando criança, de ser. E aqui uso o termo ser, no seu mais vasto e plural significado, livre de qualquer concepção engessada do mundo adulto.

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Amanda Amaral, 21 anos.

É muito difícil traçar uma linha demarcatória. “Pra esse lado você vai, pra esse não.” Acho que pra mim as coisas que sempre fizeram sentido por meio principalmente do afeto, vamos começar por ai: não me lembro de ser proibida de brincar com algo ou de não poder usar uma roupa pelo meu gênero, eu sempre brinquei com todo mundo e tive afeto por todo mundo que se permitia também. Houve um tempo que sempre perguntavam se eu era namorada de tal amiga, isso acontecia por uma demonstração maior de afeto com pessoas especificas, como por exemplo, o fato de sair de mãos dadas, por dar um abraço e tirar a pessoa do chão, na minha adolescência achava minimamente estranho o fato do afeto causar desconforto nas pessoas e nunca foi de fato problemático pra mim. As diversas vezes em que afirmavam ou duvidavam da minha sexualidade afirmando que eu era lésbica ou no máximo bissexual, já que não era esse tipo de comportamento que pessoas heterossexuais deveriam ter, pessoas heterossexuais são mais reservadas. Pensando nisso, eu vejo que a linha de raciocínio a qual seguia era de que se sentisse vontade, eu faria. Quando cresci, as roupas, as cores e coisas ditas de menina ou menino não me diziam nada, são roupas, cores e coisas e assim fazem seu significado, vivemos numa sociedade que é demarcada ao que é de menino e o que é de menina e isso beira ao absurdo. Ainda que existam conceitos pré-estabelecidos do que se deve ser e como, a gente tem de se permitir, desejar, sentir.Eu? Eu não sei se gosto de meninas ou de meninos, a única coisa que posso afirmar é que quem comanda essas linhas, o caminho que percorrem e pra onde vão, é o desejo. O que me faz é o afeto e afeto não tem gênero.

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Thaylan Tolentino, 26 anos.

Essa é a primeira vez que paro para pensar no que dizer sobre minha relação com gênero e a estética que adoto. Talvez por ela ser construída de forma intuitiva e estar sempre em mutação. Me vestir não tem a ver com a atual temporada de coleções sem gênero. Vem de uma oportunidade de resposta às opiniões que discriminam o que atravessa o comum e inferiorizam características femininas em um homem.  Contrariando um passado hostil, hoje sou eu quem provoca. Eu sou agressão. E uso do meu cotidiano para iniciar uma nova forma de pensar às pessoas que me olham ofensivas. Levantando questões complexas e instigantes pelo simples fato de ser quem quero ser.

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