As mulheres que ajudam outras mulheres a parir

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Ariane Barbosa – A gestação, o trabalho de parto e o nascimento do bebê, são processos importantes principalmente na vida da mulher, e por isso requerem atenção para que tudo ocorra de maneira serena. Isso quer dizer que especialmente a mulher, mas não só ela deve ter um acompanhamento para que o parto seja da melhor maneira possível, isso quer dizer que o pai da criança também precisa de um apoio nesse momento.

Atualmente, existem grupos de profissionais como as doulas, as enfermeiras obstetras e os próprios ginecologistas obstetras, que buscam humanizar este processo do parto e torna-lo mais natural – da forma que deveria ser desde sempre, colocando assim a mulher como a protagonista do seu parto – utilizando da atividade que exerce para tentar resgatar de alguma forma o que era o modelo de antigamente, e apropriando-se dos avanços e entendimentos que agora se tornaram mais aprimorados para poder melhorar o processo que já existia.

A humanização do parto diz respeito a tornar este procedimento em algo mais leve, para que as mulheres e seu companheiro que passarem  por isso não se sintam traumatizados, muito pelo contrário que tenham o entendimento que este processo é um momento importante e de sentimentos profundos como o amor e a alegria. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015, o Brasil liderava o ranking mundial de cesáreas com 57%, considerando que na maioria dos casos não havia necessidade de acontecer esse procedimento. O recomendado pela OMS é 15% de partos cesáreas e deveria ser utilizado apenas em casos extremos, que causam risco para o bebê ou para a mãe. 

As Doulas 

Para algumas mulheres o trabalho de doula serve como um hobby, uma forma apenas de exercer uma atividade que elas tem afinidade, como no caso da administradora Francine Cometti Cavallieri, 35 anos,  ela conta que decidiu fazer o curso de doula em 2009 no Rio Grande do Sul, por causa de seus pais que faziam um trabalho com a terapia do renascimento (terapia que utiliza das técnicas de respiração), e foi a partir dai que ela foi percebendo a importância do amparo e humanização do parto. Todos os partos assistidos por Francine foram de parentes e de pessoas bem próximas, sendo mesmo um trabalho voluntário. Pois a atividade é envolvida totalmente com o sentimento, se tornando ainda mais especial.

A palavra doula tem origem grega e significa “mulher que serve”, ”e vem sendo utilizada a partir das pesquisas de Marshall H. Klaus e John H. Kennell no inicio da década de 90 para designar aquelas mulheres capacitadas para brindar apoio continuado a outras mulheres, (e aos seus companheiros e/ou outros familiares) proporcionando conforto físico, apoio emocional e suporte cognitivo antes, durante e após o nascimento de seus filhos”, segundo a ANDO (Associação Nacional de Doulas).

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Já no caso de Aline Gusmão Teixeira, 32 anos, o que começou como um voluntariado acabou se tornando profissão, antes de atuar como doula, Aline trabalhava numa empresa de metalurgia e não tinha perspectiva nenhuma de sair do ramo, quando conheceu o oficio e acabou se apaixonando pela profissão e buscou fazer o curso em 2013, em Porto Alegre para poder praticar  a atividade. A doulagem só se tornou profissão para ela em 2015, quando já havia uma atividade que supria as necessidades financeiras e poderia assim sair do emprego e se doar totalmente a profissão de doula.

Aline afirma que o parto é algo muito íntimo, sensual e erótico, portanto, a afinidade entre a gestante e a doula deve acontecer como um encontro de almas. Ressaltou também que a profissão lida mais com o lado sentimental, por isso não necessariamente precisa ter um curso superior para exercer bem a atividade, ainda que a parte técnica seja um fator importante, mas não decisivo.

Cada profissional conduz de forma diferente o processo, mesmo que em alguns aspectos o tratamento seja parecido.Tanto a Francine, quanto a Aline utilizam de práticas similares como o acompanhamento mensal do casal, os rituais como o chá de bençãos durante o processo da gestação. Durante o trabalho de parto, utilizam de massagens, auxílio da respiração, ambientação e exercícios que ajudam no processo como o agachamento, a caminhada, as marchinhas e outros.

No caso da Aline há também a prática de outros tipos de rituais, como a cura dos medos, a visualização do parto, o escalda pés, a entrega da coroa de flores, a pintura da barriga e o print da placenta.

Os rituais

A doula utiliza dos rituais no intuito de fortalecer o vínculo entre ela e o casal durante a gestação, para que no momento do parto saiba dar a devida assistência para a mulher, o companheiro e a família. A singularidade de cada parto e do casal influência nas decisões de como agir, para que se sintam ainda mais acolhidos.

O chá de bençãos é como se fosse um chá de fraldas como nós conhecemos hoje. O que o difere são os presentes oferecidos. No chá de bençãos os convidados emanam energias boas para o casal e o bebê. “É um ritual para resgatar o sagrado, pois a mulher carrega em seu ventre o que há mais de importante, que é a vida”, define Aline.

A pintura da barriga pode acontecer tanto no chá de bençãos quanto em outra oportunidade. Esta atividade não é necessariamente um ritual, serve mais para uma visualização de como está o bebê dentro da barriga da mãe. Serve como uma atividade de distração e entrosamento.

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O ritual da coroa de flores pode ser feito junto ao chá de bençãos, onde a mãe concede uma coroa de flores em sinal de transferir a sua sabedoria para a filha que está a espera de um novo ser.

A cura dos medos acontece na praia e consiste na escrita dos medos em papéis para serem queimados e jogados aos mar, simbolizando mesmo a cura deles, a libertação desses medos.

O escalda pés é feito na noite de despedida da barriga, ou em outra oportunidade, onde o companheiro ou alguém próximo lava os pés da futura mamãe, em sinal de apoio e também para acalmar.

A visualização do parto é mais uma das maneira de aproximar a doula do casal, neste caso a doula vai narrando diversas possibilidades que podem acontecer durante o parto, para que o casal esteja preparado para a situação.

print da placenta é feito após o parto, neste caso a placenta representa a arvore da vida que nutriu aquele bebê durante a gestação. Assim se pega uma folha grande de papel e coloca a placenta em cima para ficar o desenho, que realmente lembra uma arvore, em alguns casos são utilizadas tintar para deixar o desenho colorido.Se for o desejo da mãe, após este processo pode ser feito o plantio de uma arvore junto a placenta, acredita-se que da mesma forma que ela nutriu o bebê vai nutrir a arvore que posteriormente dará frutos para ser aproveitado.

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Para Aline todo este processo durante a gestação é de empoderamento, para que a mulher entenda que quem faz o parto é ela, os profissionais só estão ali para auxiliar.Ressaltou também que o parto está mais na cabeça do que no corpo, e que é preciso fazer todo esse trabalho de acompanhamento para que a mulher tenha certeza de que ela é capaz de parir.

As enfermeiras obstetras/Parteiras urbanas

Assim como na medicina, a enfermagem possui vários ramos de atuação, como por exemplo a obstetrícia, neste caso o enfermeiro estará apto à auxiliar a mulher em várias fases da sua vida, principalmente na gravidez. A enfermeira obstetra exerce várias atividades que também são feitas pelos médicos obstetras, só não podem atuar em casos mais específicos como numa cesárea, já que é um processo cirúrgico. 

As enfermeiras obstetras podem ser chamadas de parteiras urbanas, pois em sua base a atividade desta especialidade da enfermagem lembra muito o que era o trabalho das parteiras de antigamente, que auxiliavam as mulheres na hora do parto fazendo assim, pouca ou nenhuma intervenção. A diferença está justamente na parte técnica que as parteiras urbanas possuem, as parteiras contavam apenas com os conhecimentos da vivência. O acompanhamento da enfermeira obstetra também começa no inicio da gestação, como no caso das doulas, para que a profissional entenda como está o andamento da gestação e que durante o processo possa tomar as devidas providências.

Desde antes de ingressar no curso de enfermagem, Pâmela Curbani,28 anos, já sabia no que queria se especializar, a certeza veio quando estudou a saúde da mulher na faculdade, formou-se em 2010 pela Ufes, e fez a especialização em obstetrícia no Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Albert Einstein em 2012. Atualmente Pâmela trabalha no Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, na área de pediatria.O exercício da atividade de enfermeira obstetra é feito nos partos domiciliares que concilia com o trabalho no hospital.

 Para Pâmela a enfermeira obstetra exerce um papel muito importante, pois a atenção prestada pode ajudar na hora do parto fazendo com que os números de intervenções diminuam, seja do uso de analgesia ou até mesmo de uma possível cirurgia cesariana. Ela complementou sua fala dizendo que “além disso, promove maior satisfação das mulheres com o cuidado recebido. Utilizamos tecnologias leves, não-farmacológicas para alívio da dor, o que permite às mulheres resgatarem a competência própria de parir de forma respeitosa, resguardando o espaço da mulher, do bebê e sua família”.

A enfermeira obstetra Telemi Flor de Lira, 41anos, se formou na Faculdade de Medicina de Marília (FEMEMA) em 2007, e finalizou a especialização na UERJ em 2009. Telemi só atua como enfermeira obstetra em partos domiciliares, iniciou as atividades em 2012 aqui no Espírito Santo, na época ainda não existia nenhuma equipe que realizava este tipo de atividade no estado, diferente de São Paulo que os partos domiciliares já eram bastante populares.

Telemi saiu da residência e não passou pela maternidade, pois ela percebeu que o modelo vigente de assistência obstétrica visa mais o profissional do que a mulher, e isso deveria ser exercido de forma contrária. Afirmou ainda que o número de profissionais que tendem a apoiar este tipo de parto aqui no Brasil é pouco.

Em entrevista Pâmela ressaltou os benefícios do parto domiciliar, “Os benefícios de parto domiciliar são muitos. Resultam em menor taxa de intervenções como episiotomia, analgesia, uso de ocitocina, cirurgia cesariana e parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator), sem aumentar do risco de complicações para mães e bebês. Além disso, existe um elevado grau de satisfação das mulheres que passaram por essa experiência, afinal, são protagonistas do seu parto, e estão em seus lares, local onde sentem-se seguras e protegidas”.

Tanto as doulas, quanto algumas enfermeiras obstetras, possuem uma visão muito humanizada do parto, tentando valorizar o que há de mais importante neste momento da vida, que é a chegada de outra vida. Ter um parto com pouca ou nenhuma intervenção, se torna uma experiência mais emocional, o sentimento de se sentir capaz de colocar no mundo um ser que foi gerado por você se torna único. Desta forma a humanização se faz necessária por suas várias questões positivas que são de extrema importância, como os vínculos afetivos, o respeito da hora do bebê, a valorização da mulher em seu principal papel na gestação, a extinção da violência obstétrica (acontece a partir do momento em que o médico/enfermeira obstetra não respeita os desejos  da mulher).

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