Aquaviário: o fantasma que assombra os mares Vitória

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Andreia Ferreira e Thales Delaia – Do transporte que um dia foi usado por milhares de capixabas só restam ruínas e lembranças. E o seu possível retorno segue submerso em um mar de descrença.

Diferentemente dos dias atuais, na minha infância as idas ao Centro Histórico de Vitória eram frequentes, e os motivos eram os mais diversos: ir ao dentista, consultar-me com um médico ou, simplesmente, assistir a uma missa na Igreja São Gonçalo, situada nas imediações do Palácio Anchieta. As horas, que hoje são escassas para esta jovem universitária, pareciam não ter fim para aquela descompromissada criança, que sempre pedia à mãe para fazer o trajeto de Cariacica à Vitória de modo bem especial: através nas balsas do aquaviário. O cheiro de maresia, o balançar suave da embarcação e o encantamento com as paisagens eram sensações frequentes e que transformavam a necessária viagem em uma experiência única, e bem diferente daquelas proporcionadas por outros meios de transporte.

Apesar de salvas na minha memória, pouco restou da estrutura do antigo terminal aquaviário Dom Bosco. Do que antes estava ali, sobrou somente o píer que era usado na atividade de transporte marítimo. Hoje o espaço se assemelha a uma pracinha com alguns bancos e canteiros com jardim.

Foto atual do píer do antigo  terminal Dom Bosco, agora uma pracinha com poucos vestígios do aquaviário.
Foto atual do píer do antigo terminal Dom Bosco, agora uma pracinha com poucos vestígios do aquaviário. Imagem: Andreia Ferreira

Até o fim da década de 90, a Grande Vitória era beneficiada por um sistema de transporte que utilizava como via uma de suas maiores vocações: o mar. As balsas do sistema aquaviário do Espírito Santo começaram a ser utilizadas em 1978, e chegaram a atender mais de 400 mil pessoas por mês nas cidades de Vitória, Cariacica e Vila Velha. No entanto, devido ao seu alto custo de manutenção, suas atividades foram suspensas em 1998 e todos os seus terminais desativados por tempo indeterminado.

Com o desenvolvimento das cidades e o aumento da frota de veículos, as vias que anteriormente eram largas tornaram-se estreitas, e o tempo gasto no trânsito pelo morador da região metropolitana aumentou consideravelmente. Em horários de pico, os transportes públicos não conseguem atender a demanda com a frota existente e os passageiros ficam apertados e em condições precárias dentro do coletivo. Já os que optam pelos carros têm mais conforto. Contudo, contribuem para tornar o trânsito ainda mais caótico.

Ponto de catraieiros situado na Avenida Beira-Mar. Atualmente, ele encontra-se desativado.
Ponto de catraieiros situado na Avenida Beira-Mar. Atualmente, ele encontra-se desativado. Imagem: Arquivo Codesa

Para tentar reverter essa situação, a volta do aquaviário já foi considerada diversas vezes, tanto pelos políticos quanto pela sociedade civil organizada. Contudo, seu retorno é um impasse que já dura décadas e que ainda parece longe de ter um final. Nesse meio tempo, o mar, que antes servia de caminho para milhares de pessoas, vai dando cada vez mais lugar aos imensos navios de carga que atracam diariamente no Porto de Vitória. E a esperança de um possível retorno do transporte aquaviário vai ficando em um horizonte cada vez mais distante.

Sem sair do papel

O projeto mais recente a propor o retorno do aquaviário foi o apresentado pela Secretaria de Estado dos Transportes e Obras Públicas (Setop), em 2014. A proposta apresentava diversas etapas que seriam concluídas com o passar dos anos e a efetividade do sistema. A primeira etapa consistia em cinco embarcações com a capacidade para 200 passageiros, cada uma, e as outras etapas previam aumentar o número de estações nas cidades de Vila Velha e Vitória. A volta do aquaviário estava prevista para ano seguinte à publicação do edital pela Setop, em 2015.

Os planos, no entanto, não duraram muito, logo após a apresentação do projeto, o Ministério Público de Contas (MPC) pediu a suspensão imediata da licitação do sistema. Após analisar o edital, o MPC encontrou diversas irregularidades, o que fez com que o projeto fosse suspenso. Mesmo com a mudança de gestão, o projeto do aquaviário ainda continua na gaveta, sem previsão de retomada.

Lembranças e indignação

Com o término de operações do sistema aquaviário, muitos capixabas viram o tempo de seu trajeto de casa ao trabalho mais que dobrar, como é o caso de Penha Ferreira da Conceição, de 50 anos. A autônoma relembra como era o seu trajeto de Cariacica para Vila Velha nas balsas do antigo sistema.

“Quando eu pegava a embarcação na estação Dom Bosco, eu chegava muito rápido na Prainha em Vila Velha. Era muito melhor que pegar ônibus, pois eu ganhava mais tempo”.

Ainda esperançosa pela volta do transporte marítimo, Penha não esconde a indignação pela demora dos trâmites legais que impedem a volta do aquaviário.

“Fico muito indignada com toda essa demora, Vitória é um município cercado por água, e o retorno desse transporte ajudaria muito a gente. Além de ser um meio rápido de locomoção, o visual é muito bonito. Para mim, o que falta é vontade política”.

A indignação da entrevistada é justificável. Pesquisas revelam que a quantidade de pessoas que as balsas possibilitam carregar são superiores a de carros e ônibus. Uma barca com capacidade para 200 passageiros tira das ruas cerca de 40 carros, já que alguns automóveis possuem cinco lugares.

Em média, a quantidade de assentos que um coletivo possui são 40 lugares, com o uso das balsas cinco ônibus deixariam de circular, uma ajuda e tanto para uma cidade que fica muito tempo parada no trânsito.

Antiga balsa do aquaviário levando passageiros até o terminal de Dom Bosco, hoje em dia transformado em uma praça.
Antiga balsa do aquaviário levando passageiros até o terminal de Dom Bosco, hoje em dia transformado em uma praça. Imagem: Divulgação/Arquivo Codesa

Sem balsa e sem catraia

Sem o aquaviário, o único transporte marítimo que ainda mostrava sinais de resistência na Grande Vitória era o realizado pelos catraieiros. Contudo, em julho de 2015, o transporte feito pelos pequenos barcos chamados catraias também foi suspenso, devido obras no Cais de Atalaia, localizado no Porto de Vitória, pela Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa).

A suspensão, além de prejudicar os moradores que dependiam do serviço, tirou da Baía de Vitória um dos seus principais símbolos: as catraias. Esse meio de transporte, que remete ao início da ocupação portuguesa no solo capixaba, no século XVI, era até meados do século passado o principal meio de transporte para quem saía da ilha rumo ao continente, e vice-versa, como explica a historiadora Diovani Favoreto.

“Antes da construção das pontes que ligam Vitória às outras cidades da região metropolitana, o uso das catraias era a única opção disponível. E de tudo era transportado por elas, desde alimentos até caixões”.

Mesmo com a modernização da capital e o aumento das vias terrestres, os catraieiros ainda eram requisitados pelos moradores de Vitória e Vila Velha. Um dos clientes que usava o serviço com frequência é o estudante Ricardo Ferreira, de 22 anos.

“Quando as catraias estavam funcionando, eu gastava mais tempo indo de casa até deque, do que no trajeto feito no mar. Algo que não acontece com o ônibus. Costumo brincar que as catraias eram a prova de greve, já que quando os motoristas dos coletivos paravam, os barcos ainda continuavam a rodar”, conta.

Antes da paralização, 17 catraieiros ainda mantinham viva a tradição do transporte de passageiros, um deles era Ronye Ribeiro da Silva. Apesar de receber uma renda de R$ 2.117 da Codesa, Ronye confessa que não vê a hora de retornar para a atividade que exerceu durante 17 anos.

“Eu amo ser catraieiro. É muito triste ver o mar de Vitória sem catraia, então espero que essa reforma acabe logo para que nosso trabalho seja reestabelecido o mais rápido possível”.

A previsão é que os catraieiros retornem ao trabalho em julho deste ano. Até lá, o capixaba aguarda a reocupação do mar pelas catraias. Já eles esperam que o retorno da atividade não se transforme em lenda, como um tal de aquaviário.

Catraieiros trabalhando nas imediações do Porto de Vitória.
Catraieiros trabalhando nas imediações do Porto de Vitória. Imagem: Brunela Alves e Humberto Capai
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Balsa o aquaviário levando passageiros até o terminal de passageiros situado na Avenida Beira-Mar. Imagem: Arquivo Codesa e Andreia Ferreira

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