A cidade se faz com mobilidade

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Por Brunela Alves e Rayanne Matiazzi – Não conseguimos nos recordar da sensação de dar os primeiros passos. Mas,de um canto para o outro, a pé, de automóvel, pedalando ou no banco do ônibus nos sentimos capazes de traçar o caminho desejado.No ano passado, o aumento da tarifa do transporte público foi o ponto de partida para que milhares de brasileiros ocupassem as ruas do país. Entre outras reivindicações de insatisfação com as políticas públicas no Brasil, o desejo por um transporte qualificado e acessível ficou evidente. Mas e a Grande Vitória? Está planejada para atender os desejos das pessoas?Consegue satisfazer os anseios da população?

A metrópole tem como característica a mobilidade. Nessa região há mais empregos e mais urbanização. Diferente de uma cidade rural, que se move pouco, a urbana se move muito. As pessoas circulam de um lugar para o outro. Seja para ir ao trabalho, escola, entretenimento…Nas últimas décadas, esse aumento foi crescente, como explica o professor de Arquitetura e Urbanismo da Ufes, Kleber Frizzera, “Vitória saiu da década de

Professor Kleber Frizzera Foto:Antônio Almeida
Professor Kleber Frizzera
Foto: Antonio Almeida

1980 de duas viagens por pessoa para quase três. Houve um aumento na mobilidade individual, o que gerou o efeito “choque”. Quanto mais as pessoas se movem, mantido o mesmo sistema de planejamento de mobilidade urbana,os resultados são mais choques, mais conflitos. Por isso essa sensação de desordem. Não quer dizer que existam mais pessoas. Quer dizer que existem mais movimentos por pessoa. Porque houve um enriquecimento médio da população, aumento de empregos, aumento de renda. As pessoas começam a fazer mais movimentos pela cidade com percursos maiores.”.

Imagine a cidade do início do século XIX, quando os percursos eram menores e as pessoas se locomoviam basicamente a pé. Isso hoje já não é mais uma realidade. Até a década de 1990, por exemplo, o modelo de viagem era do trabalho para casa.Hoje a população passou a ter outros movimentos. Aumentou-se o número de pessoas com acesso àeducação, à saúde, à tecnologia. Somado a isso,outros horários de pico também passaram a existir. Houve uma mudança nessas décadas dos modelos de movimentação. “O que era chamado de “bate e volta” já não é mais tão interessante. Houve uma expansão da malha viária. Aumentou o movimento, mas também aumentaram-se os percursos. A maioria desses movimentos que eram feitos a pé já não são feitos mais. Houve uma redução desse tipo de movimento. Teve uma mudança social e isso mudou a lógica do modelo de expansão” destaca Frizzera.

Com as conquistas de direitos e novas perspectivas, outros segmentos começaram a ocupar os espaços na cidade. A mulher, por exemplo, estava em casa, era considerada “imóvel”, com o tempo ela foi para o mercado de trabalho,passou a ter renda, a frequentar escolas. As crianças também começaram a ir para a escola mais cedo. Há uma crescente mobilidade nas duas pontas consideradas “imóveis”. O próprio idoso também começa a se movimentar mais. Mesmo com esse aumento de circulação, não houve um planejamento da cidade, os modelos ainda são paralelos e em horários caóticos a movimentação se agrava

“Nosso sistema de transporte coletivo não é em malha, é linear. Ele não acompanhou o anseio da população que tem interesse de vida em malha. Na cidade de Paris, por exemplo, o sistema de transporte é em malha, e funciona. O problema não é só o transporte coletivo. Mas como se configura o desejo humano na vida urbana, na mobilidade”, explica Frizzera.

E os transportes?

Com os sistemas paralelos de transporte coletivo, os incentivos do governo para compra de automóveis e o aumento de renda da população, houve um aumento proporcional no número de movimentações de carros. Ele passou a atender um sistema de desejos de movimentações mais rápido e confortável para percursos maiores “Eu vou de carro para o trabalho com um tempo menor do que se fosse de ônibus. Além de ser mais confortável”, conta o estudante de Engenharia de Produção, Rodrigo Sanches.

Segundo o professor de Arquitetura e Urbanismo, Augusto Alvarenga, a cidade de Vitória caminha para uma crise de mobilidade urbana. “O planejamento urbano não foi feito ao longo do tempo. Prioriza o uso de automóveis e a frota deste meio de transporte têm crescido cada vez mais. O número de ruas que temos na cidade não é suficiente para essa quantidade de automóveis. Ao passo que um ônibus transporta mais ou menos em média 10,5 pessoas por veículo, o automóvel transporta em geral 1,2 pessoas, sendo que um automóvel tem 5 metros de comprimento e o ônibus tem 12 metros. Ou seja, 2,5 automóveis ocupam espaço de um ônibus na rua. Então, quanto mais prioridade se dá ao automóvel, menos pessoas são transportadas nos coletivos nas ruas”.

Professor Augusto Alvarenga Foto:Antônio Almeida
Professor Augusto Alvarenga
Foto:Antonio Almeida

É preciso redes mais microscópicas, que foquem nos anseios da população. É necessária uma reorganização do transporte em malha e construção de transportes por demandas. Temos uma sociedade de massa, não é possível resolver só com movimentos de bicicleta e a pé. O transporte coletivo de qualidade é essencial e necessário. Não é só a distância, mas também o destino final da locomoção das pessoas.

A estudante de Engenharia Mecânica, Elizabethe Matos,19, utiliza bastante o transporte coletivo, principalmente para se deslocar de Cariacica à Ufes e reclama de um problema que, infelizmente, já faz parte do cotidiano do capixaba, o trânsito congestionado. “Normalmente faço meu trajeto em 50 minutos, mas com trânsito engarrafado demoro até duas horas. Além disso, a única opção de ônibus que passa pelo meu bairro não consegue atender a quantidade de usuários, principalmente nos horários de pico”. Elizabethe classifica a mobilidade urbana de Vitória como precária e acredita que se tivéssemos um transporte público de qualidade e ciclovias, as pessoas fariam mais uso desses meios, porém cita outras questões como o conforto que o carro proporciona e a falta de segurança no Espírito Santo. “Eu andaria de bicicleta se roubos não fossem tão cotidianos e se tivesse ciclovias em Cariacica”, lamenta a universitária.

A bicicleta é um meio somado a essa rede. É muito comum em lugares planos. Na Holanda, por exemplo, ela é muito utilizada. Em lugares com climas temperados e planos o desgaste é bem menor. Apesar de Vitória ser uma cidade com clima quente, a sua geografia permite a mobilidade. Não há um plano de ciclovias bem preparado e quem quer se locomover de bicicleta hoje na metrópole, encontra inúmeras dificuldades, como pedalar pelas calçadas, muitas em situação precária. O fator risco e a falta de planejamento são perceptíveis nas pedaladas diárias. Outro bom exemplo é Barcelona, que possui um dos melhores sistemas de bicicletas compartilhadas do mundo. Elas são posicionadas em pontos estratégicos para facilitar a locomoção. “Na grande Vitória, a bicicleta compartilhada, por exemplo, deve ser entendida como modal de transporte”, diz Alvarenga.

O estudante de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Tiê Pordeus, 24, atualmente mora em Vitória e participa do movimento sem líderes que tem adeptos no Brasil e em Portugal chamado Bicicletada, que é inspirado no movimento denominado   “Massa Crítica”, no qual ciclistas se juntam para reivindicar seu espaço nas ruas.

A versão capixaba é a Bicicletada Vitória, uma ciclo-passeata que acontece toda última sexta-feira do mês, a partir das 18h, na Praça do Ciclista (antiga Praça do Cauê) e o destino quem decide são os próprios participantes.

Aluno Tiê Podeus Foto:Brunela Alves
Aluno Tiê Podeus
Foto: Brunela Alves

“O horário de saída da bicicletada é justamente a hora do rush, na última sexta-feira do mês”, explica o estudante. Tiê fabrica e comercializa pães integrais e utiliza sua bicicleta, que ele mesmo adaptou, para dar suporte à distribuição de seus produtos pela Grande Vitória. “Não há melhor ferramenta em termos de custo e praticidade do que a bicicleta”, avalia.

Quando o assunto é a percepção da cidade, Tiê afirma que utilizar a bicicleta como meio de transporte, auxilia a enxergar certas coisas no espaço urbano de uma maneira mais próxima.

“A flexibilidade no trajeto percorrido com a bicicleta é muito mais proveitoso. Você pode parar em algum lugar, por exemplo, e interagir com o espaço, diferentemente do ônibus que faz um trajeto de partida e destino fixos”.

Para Tiê, a bicicleta trouxe benefícios como ganho de tempo, saúde e integração com as pessoas e com o espaço urbano, mas reclama que não se sente seguro em transitar de bike. “Em janeiro deste ano, roubaram minha bicicleta de carga, que estava amarrada a um poste em frente a minha casa. Agora, a minha nova, guardo na casa de um amigo”.

O Programa de Mobilidade Metropolitana (PMM), lançado em 2012, pelo governo do Estado previa  obras viárias, melhorias no transporte coletivo, implantação do BRT (sistema de transporte com corredores exclusivos para ônibus, programação e controle de horários, estacionamentos e bicicletários)  e de novos modais de transportes para  aquele ano e também após 2016.

Outro ponto do PMM se refere à multimolidade, a integração entre todos os modais de transporte, de acordo com a hierarquia viária estabelecida pela Nova Lei Federal de Mobilidade Urbana, que prevê prioridade, em ordem crescente, para o pedestre, transporte coletivo, bicicleta, outros modais, como o hidroviário, e só então os veículos de passeio.

A implantação de um Sistema de Bicicletas Públicas Compartilhadas  na  Região Metropolitana, segundo informa o site do Governo do Espírito Santo, contemplará 70 estações espalhadas nos municípios de Serra, Viana, Cariacica, Vila Velha e Vitória com cerca de 700 bicicletas.

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