Grafite: arte ou vandalismo nas ruas?

Share Button

[h4]“Mesmo sendo pichação, acredito que existe todo um processo de escolha de lugar e espaço, elaboração da letra, desenho ou símbolo”[/h4]

(Luiz Zardini Jr.) Muito comum nos grandes centros urbanos, o grafite está espalhado por toda a cidade, em suas mais variadas formas, cores e composições. Basta colocar os pés para fora de casa e olhar atentamente ao redor. Com certeza você vai encontrar alguma que expresse algum sentimento, conflito ou mesmo, algum questionamento sobre a realidade.

Na maioria das vezes, elas são cuidadosamente planejadas e desenhadas sobre superfícies já existentes,  como a parede de uma casa ou de um prédio, um muro, pontos de ônibus, tapumes de obras, postes ou bancos de praças. Na Grande Vitória, não faltam exemplos de criatividade. Nas mãos dos grafiteiros esses suportes, de um dia para o outro, ganham uma nova cara, uma nova identidade e uma nova referência em meio ao monte de concreto da cidade.

Por outro lado, não é difícil encontrar pichações dividindo espaço com placas de trânsito, monumentos históricos, praças, canteiros de obras e no patrimônio público. Elas também fazem parte do cenário urbano e não costumam passar despercebidas pela população, que nem sempre sabe distinguir a arte do grafite e a pichação.

Aliás, as duas formas de expressão foram confundidas por muito tempo e, em suas origens, ambas eram citadas pelo mesmo nome. Normalmente, o grafite distingue-se da pichação pela complexidade de suas formas, que podem contar com inúmeras cores, dimensões, profundidades, além de brincarem com a ilusão de ótica e com as perspectivas.

No Brasil, assim como em outros países, a pichação é considerada uma contravenção. Nos termos do artigo 65 da Lei 9.605/98, a Lei dos Crimes Ambientais, a pichação é considerada vandalismo e crime ambiental. Quem cometer o ato, poderá receber pena de três meses a um de detenção e multa, que será arbitrada pelo juiz. No entanto, os juízes vêm adotando a aplicação de penas alternativas, como o fornecimento de cestas básicas a entidades filantrópicas ou a prestação de serviços comunitários pelo infrator.

Um bom exemplo de como boa parte da população e até mesmo o poder público desconhece a diferença entre grafite e pichação, foi o caso da remoção das obras de arte que receberam dinheiro público para serem executadas em pontos de ônibus de Vitória. Elas faziam parte do projeto “Pontos de Arte”, que foi aprovado no edital Bolsa Cultura Jovem em 2012, pelo Programa Rede Cultura Jovem, realizado pela Secretaria de Estado da Cultura e executado pelo Instituto de Ação Social e Cultural (Sincades), em parceria com a Prefeitura Municipal de Vitória. Os desenhos foram executados durante o mês de setembro de 2012 e, em fevereiro de 2013, a Prefeitura Municipal de Vitória organizou um mutirão de limpeza, que removeu diversos trabalhos que foram comparados com pichação e sujeira.

O grafiteiro Giu Dias, de 27 anos, que está no 2º período do curso de Artes, na Ufes, explica que o limite entre o grafite e a pichação é muito próximo. “Eu tive pouca experiência com pichação pela cidade, mas eu acho incrível. Quando penso em como a pessoa conseguiu chegar naquele lugar tão alto ou de tão difícil acesso, e conseguiu deixar sua marca, sua tag ou qualquer rabisco que seja, fico admirado. A pichação pode ser odiada por muitos, porque choca e é agressiva, mas é uma ferramenta de protesto, resistência e expressão. É uma situação que não vai se sujeitar a nenhuma lei ou regra imposta”, afirma.

Abaixo, você confere a galeria de fotos dos trabalhos do grafiteiro Giu Dias:

 

Além disso, Giu considera que as pichações também são expressões artísticas, mesmo diante da simplicidade dos traços. “Mesmo sendo pichação, acredito que existe todo um processo de escolha de lugar e espaço, elaboração da letra, desenho ou símbolo”, acrescenta. Para ele, o grafite e a pichação só se diferenciam esteticamente e ambas são expressões, escritas e marcas feitas na rua, com ou sem autorização, inclusive nos primórdios do grafite. “Enquanto elemento do hip hop começou com a escrita simples, semelhantes ao que chamam de pichação na atualidade, com o tempo, foi tomando forma pela necessidade de uns artistas se diferenciarem dos outros por diversas questões”.

Grafite vem da palavra grafito, que é traduzida como escrita. A rua tem sido o local mais apropriado para este tipo de manifestação, que com o passar do tempo, ganhou ainda mais espaço na mídia. Hoje, diversos artistas estão expondo em galerias de arte em todo o mundo e essa diferença é discutida constantemente até mesmo pelos próprios grafiteiros. No vídeo abaixo, você fica por dentro de como o movimento do grafite chegou ao Brasil e como passou a ser visto pela sociedade:

 

Para o grafiteiro AQI Luciano, de 31 anos, as pichações tem uma característica específica em cada Estado. “Aqui, a maioria das tipografias são indefinidas e bem ruins ao meu ver, mas com o tempo isso melhora”, disse. Ele acrescenta ainda, que a pichação é a porta de entrada para a arte politicamente correta. “Em geral vejo a pichação como arte urbana, uma forma de interagir com a paisagem cinza dos concretos que nos cercam, que utiliza e consome a cidade da mesma maneira que a cidade consome a sociedade”.

Há 7 anos atuando como grafiteiro, AQI Luciano considera que as pichações também são expressões artísticas. “Para mim as pichações são expressões artísticas, mas para a sociedade “padrão”, jamais. E o grafite se diferencia da pichação da seguinte forma: o grafite é colorido e pichação é monocromática”, afirma.

Confira os trabalhos do grafiteiro AQi Luciano:

 

Neste outro vídeo, os irmãos gêmeos brasileiros Otávio Pandolfo e Gustavo Pandolfo, contam como tiveram reconhecimento pela trabalho que fazem. Nesta entrevista concedida à TV Trip, você pode conferir mais detalhes sobre a biografia dos irmãos reconhecidos mundialmente:

Aqui, você confere outras fotos de grafites e pichações na Grande Vitória:

Deixe um comentário