Economia Criativa: afinal, como os coletivos culturais se colocam no mercado?

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Karolina Lopes – A definição do que é um coletivo cultural parece sempre complexa, já que este modelo de produção aparece sutilmente no início deste século e, portanto, ainda é recente e está em fase de consolidação. No entanto, é importante ressaltar que esses coletivos são reais, que difundem cidadania e movimentam a economia, e que não são uma tendência passageira.

Não há como definir a estrutura e organização de coletivos de forma homogênea, como se houvesse um padrão, pois é notável que os moldes e o funcionamento desse tipo de organização para fins produtivos varie de acordo com os objetivos e as influências de seus membros. Ainda assim, é possível dizer que os Coletivos Culturais têm algumas características em comum, como: organização horizontalizada, trabalho colaborativo, produtos conceituais e criativos, elaboração de ações com foco sociocultural e preocupação em ofertar produtos ou serviços diferentes da lógica de mercado. Mas ainda fica a pergunta: como esses coletivos se colocam no contexto capitalista-mercadológico? Como sobrevivem?

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Leandro Valiati, professor de Empreendedorismo e Economia Criativa do Sebrae,

Professor Leandro Valiati, especialista em Economia Coletiva
Professor Leandro Valiati, especialista em Economia Coletiva – Foto: divulgação

Mestre em Planejamento Urbano e Doutor em Economia do Desenvolvimento, ressaltou os principais conceitos de Economia Criativa, e como ela pode se converter em estratégia de desenvolvimento. Inspirado por John Kuskin em seu livro “A economia política da arte (1857)”, Leandro define economia como “a ciência do bem estar” e, para ele, no caso de coletivos culturais, o sucesso dos empreendimentos está vitalmente ligado à boa definição de certos extremos.

“Para se adaptar a uma realidade de recursos limitados é preciso ter necessidades ilimitadas. A filosofia e a moral devem ser invioláveis e nunca podem se transpor a concentração de renda e disputa de poder. Além disso, os coletivos devem sempre fazer análise organizacional com abordagem normativa (como as coisas deveriam ser) X abordagem positiva (como as coisas são) e devem ponderar preço de mercado X valor dos bens”, ensina.

O professor também mencionou a importância de manter o ciclo de criação, alimentando naturalmente a criatividade através da mudança de paradigmas para a compreensão de novos arranjos socioeconômicos, como os que vemos hoje na era da informação.

“Esse processo deve ser construído através da união dos empreendimentos culturais locais conectados pela troca de serviços. Assim, a falta de capital é suprida com a troca de serviços, o déficit tecnológico pela criatividade e a defasagem em capacitação pode ser amparada pela internet e seus recursos. Para tanto, o marco regulador desse tipo de empreendimento deve, sem sombra de dúvidas, ser o coletivismo e a espontaneidade, para que as condições de mercado – que estão longe de serem ideias – não tenham tanto peso, já que o próprio mercado não deve ter”, conclui Valiati.

No Espírito Santo, um dos maiores coletivos culturais é o Expurgação, que trabalha com a ideia de Economia Coletiva. O Expurgação existe desde 2007 e é composto por designers, videomakers, músicos, fotógrafos, artistas plásticos e visuais, produtores e comunicólogos, que atuam em ações artísticas e culturais de mercado. No caso deles, a captação de recursos é feita através de colaboração dos membros, editais, concursos e serviços de contratação privada.

Trabalhos e ações realizadas pelo coletivo Expurgação através de parcerias, editais e contratação privada
Trabalhos e ações realizadas pelo coletivo Expurgação através de parcerias, editais e contratação privada

“Hoje nós já somos uma empresa oficial, com CNPJ, sócios e colaboradores, mas não foi fácil chegar a essa denominação. Somos 18 membros no grupo e atuamos em muitas áreas. Decidimos trabalhar com verba individual e, separadamente, entregar um percentual coletivo – que recebe 10% do valor dos trabalhos que envolvam, pelo menos, dois membros. Mas, ainda que já tenhamos trabalho agendado até o fim deste ano, a questão financeira é sempre uma preocupação e as parcerias que temos são fundamentais para a estabilidade econômica do Expurgação”, explica a sócia e administradora do Coletivo, Lorena Louzada.

O termo “Economia Criativa” – introduzido por Charles Landry, escritor do livro “The Creative City: A Toolkit for Urban Innovators”, no final da década de 1980 – em resposta às mudanças econômicas e sociais dramáticas que aconteciam na Europa da época – também estabelece contato com esse novo universo produtivo, através de iniciativas públicas e privadas interessadas em investir neste setor da economia, que contempla os coletivos. Existem diversos segmentos coletivos espalhados pelo mundo, e muitos deles estruturaram uma rede de empreendimentos sólidos chamados de “arranjos criativos locais” ou “clusters criativos” das “cidades criativas“, que estão trabalhando, sobretudo, aspectos culturais da sociedade através da realização de projetos inovadores e sensibilizantes.

 

 

 

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