Saúde no campus: é melhor prevenir do que remediar

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[h4]No corre-corre diário da Ufes, muitas vezes estudantes e servidores deixam sua saúde em segundo plano. Uma das saídas para este problema está em investimentos em políticas de promoção da saúde.[/h4]

[medium]Fotos: Maíra Mendonça[/medium]

Maíra Mendonça – Priscila Pereira de Aquino cursa o segundo período de Arquivologia na Ufes. À carga horária de estudos soma-se o seu trabalho como professora de inglês na rede estadual. De segunda a sexta-feira ela sai de casa às 5h10 e só retorna após as 22h00, quando sua aula termina. “Confesso que ando em dívida com minha saúde. A falta de atividade física e não ter opção de uma alimentação saudável, por mera falta de tempo, acaba comprometendo a saúde, sem dúvida”, acredita Priscila. Para aqueles que frequentam a universidade, seja alunos, docentes ou servidores técnicos, ela acaba se tornando uma espécie de segundo lar. No entanto, a rotina imposta e a escassez de tempo em função do acúmulo de atividades muitas vezes impedem que cuidemos da saúde da forma correta. O que fazer para que os cuidados com a saúde não sejam deixados em segundo plano?

yoga1Uma das respostas está na criação de uma cultura de prevenção de doenças e manutenção de hábitos saudáveis de vida dentro da própria universidade. “Saúde não é o mais importante, é tudo”. É o afirma o médico Jorge Miranda, um dos palestrantes do evento Em Dia Com a Saúde, promovido pelo Departamento de Atenção à Saúde da Ufes (DAS) no dia 31 de julho de 2013.

Em uma tenda montada em frente ao Restaurante Universitário, representantes de diferentes setores e instituições, tais como os cursos de Fonoaudiologia e Nutrição da Ufes, o Centro de Estudos e Pesquisas sobre Álcool e outras Drogas (Cepad), a Caixa de Assistência à Saúde da Universidade (Casufes), a Pastoral da Saúde da igreja católica e a Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo (Sesa), reuniram-se para promover ações com o intuito de conscientizar alunos e servidores da Ufes sobre a importância da promoção da saúde nos aspectos físico, social, mental e espiritual. Conforme pontua a coordenadora do DAS, Daniela Simões de Freitas Motta, “a questão é sensibilizar as pessoas. Infelizmente muitos têm o costume de tratar a doença já instalada. E não é esse o nosso anseio. A gente quer que as pessoas estejam sensibilizadas para prevenir doenças”.

A questão da saúde também foi um dos temas que emergiram na tese de doutorado da professora do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Ufes (CCJE), Dulcinea Rosemberg, que buscou analisar o trabalho dos docentes da Ufes. Por meio da Clínica da Atividade, uma abordagem teórico-metodológica que propõe a análise coletiva das atividades de trabalho pelos próprios trabalhadores, constituiu-se um grupo com 27 professores, todos pertencentes às Ciências Humanas e Ciências Sociais Aplicadas, para discutir sobre as diversas questões que permeiam o cotidiano de trabalho na Universidade. Para isso, o processo dialógico com o grupo foi promovido por meio de vídeos, fotografias, digitalização de e-mails, entre outros recursos imagéticos, produzidos pelos próprios docentes.

“Daí várias questões foram surgindo. Começamos a perceber que na realidade não é o trabalho que adoece. O que adoece são as relações de trabalho, ou seja, as relações que são estabelecidas para realizar as atividades de trabalho. O trabalho é uma das mais importantes atividades do ser humano. Nesse sentido, quando trabalhamos, colocamos em atividade nossa própria vida. Não há como separar a vida pessoal e a vida no trabalho. Trata-se de uma vida, perpassada por várias atividades, inclusive o trabalho. Estar em atividade é exatamente conviver com as infidelidades do meio. É produzir estratégias o tempo todo para conseguir lidar com a saúde e a doença, com o prazer e o desprazer”, analisa ela.

Dependendo da situação de trabalho, é preciso aprender e reaprender a todo momento a lidar com situações adversas, que podem levar ao adoecimento. O trabalho do docente não se resume a dar aulas. É preciso, também, desenvolver projetos nos âmbitos de pesquisa e extensão, o que demanda uma série de outras atividades e, muitas vezes, faz com que suas casas se tornem uma extensão da universidade. A pesquisa de Dulcinea mostra que atividades como analisar e emitir parecer em processos administrativos são destacadas por muitos professores como atividades exaustivas, que acarretam um estresse muito grande. Além disso, expõem que fatores como o excesso de procedimentos burocráticos  também pode levar a aborrecimentos constantes.

No entanto, um dos dados mais importantes encontrados por Dulcinea foi a percepção de que o grupo analisado se fortaleceu a partir do diálogo e da troca de informações, que os ajudaram a solucionar problemas simples, mas que lhes causavam transtornos. Dulcinea recorda-se de uma vez em que uma das professoras levou para o grupo uma foto de cabos de computador. Foto que demostrava um descontentamento comum a muitos outros docentes, que quando chegam às salas de aula se deparam com a falta de equipamentos ou com o seu mau funcionamento. “Quando a foto foi exposta, um professor tirou da bolsa uma espécie de kit montado por ele com cabos e conectores, ao qual ele chamava de kit de sobrevivência. E outros professores perceberam que poderiam adotar a mesma estratégia para evitar os aborrecimentos inerentes ao uso de computadores em salas de aulas e laboratórios na universidade”, conta.

“O índice de adoecimento psíquico na Ufes é muito alto, assim como em outros lugares. Mas o mais importante não é apontar esses índices, não ficar só na queixa. O importante é a gente identificar possibilidades para melhorar a qualidade de vida. Investir na promoção da saúde a partir da abertura de espaços de diálogo, onde possamos produzir modos de lidar com as questões que podem gerar o adoecimento”.  E observa: “quando conversamos sobre o nosso trabalho, trocamos experiências. E as experiências do outro podem enriquecer o seu próprio trabalho”.

Políticas públicas e promoção de saúde na universidade

De acordo a assistente social do Departamento de Atenção a Saúde da Ufes, Flávia Rossi Vacari Pavan, as demandas de servidores que chegam ao departamento são das mais variadas ordens, que vão desde problemas cardíacos a problemas ortopédicos, uma vez que múltiplos fatores e contextos, que vão além da universidade, contribuem para o adoecimento. “Em alguns momentos a pessoa pode estar mais fortalecida para enfrentar as situações de adversidade e conflitos cotidianos, assim como em outros momentos ela pode se sentir um pouco mais afetada por isso, comprometendo sua saúde”, pontua Flávia.

Já a psicóloga Milena Fiorin de Lima Lemos explica que o DAS, criado em 2012 para substituir a antiga Secretaria de Assuntos Comunitários (SAC), tem como função trabalhar com políticas de saúde para servidores e seus dependentes, além de estudantes da Ufes, desenvolvendo serviços de perícia, vigilância, promoção e assistência a saúde. Atualmente há um esforço do governo federal para que as equipes de instituições públicas que trabalham com esse tipo de demanda atuem no sentido de promover a saúde e de prevenir doenças. A ideia é que a pessoa adoecida seja tratada pela assistência suplementar (plano de saúde custeado pelo governo), enquanto as equipes que estão nos órgãos públicos trabalhem para que as pessoas não adoeçam, incentivando hábitos saudáveis de vida dentro do ambiente de trabalho.

A equipe do DAS vem buscando criar metodologias que incentivem a participação nas ações por eles promovidas. Uma das iniciativas foi buscar conhecer as demandas de maior interesse dos servidores na área de saúde. Para tanto, foi realizada uma enquete por e-mail entre os servidores com os temas estabelecidos pelas diretrizes de promoção da saúde do governo federal para que estes decidissem quais eram as mais relevantes.

[accordion_container][accordion title=”Conheça os principais temas  de saúde pelos quais os servidores da Ufes se interessam”]Entre os temas escolhidos estão alimentação saudável, práticas corporais e atividades físicas, cuidado integral em saúde, envelhecimento ativo; educação e preparação para a aposentadoria, intervenção nos ambientes e processos de trabalho para a prevenção de doenças, gestão integrada de doenças crônicas e fatores de risco, desenvolvimento de habilidades sociais e do trabalho, além de prevenção e estímulo a cultura da paz, prevenção de acidentes de trabalho, redução da morbidade causada pelo uso de álcool e de outras drogas, mediação de conflitos, e prevenção e controle do tabagismo.[accordion title=””][/accordion][/accordion_container]

Sandra e Lucy
Lucy Zamprogn e Sandra Gomes participaram da aula de Yoga

Outra medida que está sendo desenvolvida através do DAS é a abertura do Centro de Recreação da Ufes, que está sendo reformado para se firmar como um espaço de lazer para os servidores. Com quadra poliesportiva, campo de futebol, piscina, churrasqueira e a oferta de aulas de dança e yoga, além de outras atividades, o objetivo do espaço é promover a qualidade de vida dos funcionários. “Quanto mais prazeroso é o trabalho, melhor a pessoas ficam em termos de saúde de forma integral. Mas a intenção não é eliminar os conflitos e sim fazer com que eles sejam produtivos”, pontua Milena.

No entanto, trabalhar com saúde envolve também alguns tabus. “Algumas pessoas não querem ter seu quadro de saúde exposto por acreditarem que o fato de procurarem um serviço de saúde já indique que elas precisam de um certo tipo de acompanhamento. Queremos dar visibilidade ao DAS como uma forma de as pessoas buscarem-no independente de estarem ou não adoecidas, até mesmo como uma referência. Uma referência, inclusive, para uma parceria, pois uma de nossas propostas é convidar protagonistas da universidade que possam apoiar os projetos que queremos desenvolver, como, por exemplo, professores e pesquisadores que trabalhem com questões abordadas pelo DAS”, esclarece Flávia.

 

 

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