Túlio a 1000: dois gols de publicidade

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[h4]Artilheiro e ídolo do Botafogo, atacante veterano volta ao futebol capixaba para alcançar o milésimo gol, promover uma empresa de telecomunicações, e colocar o pequeno Vilavelhense em evidência.[/h4]

Eduardo Dias, Henrique Montovanelli e Mateus Cordeiro – Um dos maiores artilheiros da história do futebol brasileiro e ídolo do Botafogo, o atacante Túlio Maravilha foi recentemente contratado por um time capixaba. Irreverente como poucos, o folclórico atleta de 44 anos chegou ao estado para defender o Vilavelhense na disputa da Copa Espírito Santo, que começou no último sábado, dia 27 de julho. Muito além da intenção de ter um time competitivo, a contratação por parte do Vila pode ser resumida em uma palavra: marketing.

Com passagens por mais de 30 clubes em sua carreira, e pela Seleção Brasileira, o atacante três vezes artilheiro da Série A do Campeonato Brasileiro atrai olhares da imprensa esportiva nacional por conta de um projeto pessoal muito audacioso – e engraçado: Túlio quer alcançar a marca dos mil gols. Apenas Pelé e Romário, duas lendas do futebol mundial, conseguiram esse feito. No entanto, Túlio, como os números comprovam, parece ter encurtado – e muito – o caminho para o seu milésimo.

De acordo com os números oficiais da CBF, o camisa 7 marcou 660 gols na carreira. Mas nas contas do “atacante marketeiro”, esse número é bem maior: 998. Para subir tanto assim a contagem oficial, Túlio inclui gols em partidas amistosas e em jogos que ninguém nunca soube que existiram. A soma do artilheiro Romário, entretanto, também foi contestada na época. Contas erradas ou não, o fato é que a saga caiu no gosto da mídia e Túlio ganha destaque nacional a cada gol marcado. Atento a isso, a diretoria do Vilavelhense ousou e trouxe o jogador que já chegou prometendo muita coisa.

“Onde o Túlio vai é festa. É alegria para a galera. Esse acerto com o Vilavelhense é um presente que estou dando para o Espírito Santo, que vai entrar para a galeria dos grandes estados a ter o terceiro atleta do planeta a marcar o milésimo gol. Esse papo que não estou perto dos mil gols é só pra me contrariar, mas nem ligo”, disse Túlio. Esta é sua segunda passagem pelo futebol do estado – em 2003, o artilheiro teve uma rápida passagem pelo Tupy, também de Vila Velha. O ídolo alvinegro pretendia alcançar a marca com a camisa do Botafogo, com o projeto “Túlio a 1000: Sete gols de solidariedade”. O plano não vingou e o centroavante entrou na Justiça do Trabalho contra o clube carioca pedindo R$ 1,5 milhão, alegando falta de compromisso da diretoria com o projeto.

Torcedor do Botafogo e fã do artilheiro, o universitário Igor Costa, 23, acredita que a presença do atacante vai ser mais uma atração. “O Vilavelhense mandou bem em trazer o Túlio. Essa busca pelo milésimo vai atrair público. Acho frustrante que esse gol não seja pelo Botafogo, mas vou acompanhar os jogos. Tenho orgulho de ter tido ele no meu time”. Além dos gols, a irreverência é marca registrada do atacante, o que cativa a imprensa e aos torcedores. Há cerca de 10 anos, Igor ouviu de Túlio uma promessa que provavelmente muitos fãs receberam. “Quando eu era criança, Túlio me encontrou no aeroporto, disse que ia fazer o gol mil e falar meu nome. Estou esperando até agora”, brinca.

O retorno dentro e fora de campo

Aos 44 anos, Túlio busca o milésimo  ;  Foto: Soutello/AGIF
Aos 44 anos, Túlio busca o milésimo ; Foto: Soutello/AGIF

Sidney Magno Novo, editor do Globoesporte.com, ressalta o potencial da vinda de Túlio para o Vilavelhense. “Qualquer atleta, que no passado tenha jogado em alto nível em alguma equipe grande do país, ao menos desperta a curiosidade quando se transfere para um centro pequeno como o Espírito Santo. E, no caso do Túlio, isso não é diferente e vai além pela possibilidade dele marcar o seu contestado milésimo gol em terras capixabas”.

Sidney, entretanto, acredita que o Vila não irá sair ganhando tanto assim, em termos de marketing, com a vinda do artilheiro. “O único que pode se beneficiar com a vinda do Túlio é o investidor do ramo de comunicação (Ciao Telecom), que viabilizou a vinda do jogador. O Vilavelhense é um clube novo e que ainda não tem nenhuma identificação com os poucos torcedores do futebol capixaba. Não acredito que o Vilavelhense tenha algum retorno de marketing a médio prazo”.

Investindo dinheiro no time, a empresa mundial de telecomunicações, Ciao, que também patrocina o Reggina, da Itália, tem sua logomarca estampada nas camisas de treino e de jogo do Vila, boné, placas e em qualquer ação de marketing do clube. Túlio virou garoto propaganda da marca. Os valores do investimento são mantidos em sigilo. A empresa afirma que chega ao Vilavelhense para um projeto a longo prazo e não apenas para a Copa ES. A parceria tem uma meta ousada: em três anos, levar o clube à Séria B do Campeonato Brasileiro. Hoje, o time não está nem na Série D. “Temos um projeto muito agressivo para o Vilavelhense. Não estamos aqui de passagem. Queremos investir no clube, mobilizar recursos para a contratação de jogadores e elevar o nome da equipe no Brasil. Vamos trabalhar forte para isso”, ressaltou o diretor financeiro da Ciao, Adriano Tavares, na coletiva de imprensa da apresentação do jogador. O plano estratégico também visa também a construção de uma sede, de um centro de treinamento, de estratégias de marketing para atrair torcedores e uma uma futura arena para o clube.

Leandro Nossa, jornalista do G1, é mais crítico ao analisar a contratação. “Para o Vila, a vinda dele não é tão maléfica assim, coloca o clube nos holofotes. Mas, daqui a um mês, quando ele for embora, ninguém lembra quem é o Vila e o que o time vai disputar no ano que vem, que é a Série B Capixaba. Para o futebol capixaba como um todo, pelo menos a princípio, não há ajuda alguma. Pelo contrário, fica marcado como um centro qualquer em que Túlio conseguiu enganar a todos com seu ‘milésimo’ gol”.

Se fora dos gramados é contestável a contribuição que Túlio pode dar ao clube e ao futebol capixaba, apesar de colocar o Vilavelhense em evidência na mídia nacional – pelo menos durante a Copa Espírito Santo -, também há de se considerar se o jogador pode fazer a diferença dentro de campo. “Túlio não pode ser considerado ainda um jogador de futebol. Tem um projeto pessoal de atingir, segundo suas marcas, mil gols e, para isso, usa diversos clubes pequenos para tentar o feito”, conclui Leandro. Para Sidney, apesar da idade, o artilheiro ainda pode fazer seus gols e ajudar o time na competição. “Túlio é um dos principais atacantes goleadores que eu vi jogar. Fazia gol de tudo quanto é jeito. Diante da nossa situação degradante, mesmo com 44 anos e disputando apenas campeonatos fracos, a vinda do atacante pode acrescentar tecnicamente ao futebol capixaba”.

A “Saga do Milésimo” reinicia no próximo domingo (04), no jogo entre Vilavelhense e Linhares, às 10h, no estádio Salvador Costa. A busca pode ter fim inclusive na sua estreia pelo clube capixaba, já que faltam apenas dois gols para o artilheiro finalmente extravasar. Ele quer que o gol saia de qualquer jeito, mas sonha com um golaço. “Se eu pudesse escolher, eu não gostaria de fazer o gol de pênalti. Queria fazer uma coisa diferente, um gol simples, de bicicleta, já pensou? Seria muita honra. Mas é aquela coisa, o artilheiro não perdoa. O artilheiro tem que fazer, seja de bico, de calcanhar, de barriga e de canela. Que esse milésimo gol seja legal, um gol para arrebentar a rede adversária”.

Relembre alguns gols de Túlio Maravilha pelo Botafogo e pela Seleção Brasileira (clique aqui)

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