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[h4]No meio da multidão, milhares de celulares, câmeras fotográficas e filmadoras registravam os segundos que se passavam nas ruas. Entre hashtags e vídeos virais, esse conteúdo é jogado na web como uma forma de narrativa paralela aos meios de comunicação convencionais.[/h4]

[medium]Foto: Jornal o Globo[/medium]

Isabella Mariano e Karolina Lopes – Os reajustes nas tarifas dos transportes públicos de São Paulo e Rio de Janeiro começaram a vigorar em junho deste ano.  Na capital paulista, o valor passou de R$ 3 para R$ 3,20 e os cariocas começaram a pagar R$ 2,95, em vez de R$ 2,75. Nos dias 6, 7 e 8, uma série de protestos tomou conta das ruas dessas cidades brasileiras, entrando em graves conflitos com a tropa de choque da Polícia Militar. As informações começaram a vir de todo o lado: das TVs às redes sociais. Durante as manifestações, muitas pessoas ficaram feridas, tanto manifestantes, quanto policiais e repórteres. O assunto, então, ganhou mais força nas redes sociais e outras cidades, além de São Paulo e Rio de Janeiro, começaram a articular o movimento por meio da internet.

Centenas de municípios se mobilizaram e têm articulado manifestações pelo Facebook, algumas com mais de 200 mil confirmações, como no caso do Rio de Janeiro. As hashtags, que já dominam o léxico na rede, também fazem parte das relações sociais do dia-a-dia. Sua conexão com os protestos ocorridos nos últimos dias é íntima: o povo foi para a rua, sem sair da rede.

Um estudo divulgado no site da Brandviewer, uma ferramenta de monitoramento de redes sociais, mostrou que a hashtag “Vem Pra Rua” impactou 80,1 milhões de usuários do Twitter, sendo a principal sobre o assunto. Outra hashtag amplamente utilizada pelos internautas foi “O Gigante Acordou”, originalmente citada em um comercial de whisky, com 60 milhões de usuários impactados. De acordo com o site Statigram, a #VemPraRua reúne atualmente mais de 650 mil fotos no aplicativo Instagram e a #OGiganteAcordou, mais de 455 mil.

Muitos vídeos foram feitos e se tornaram verdadeiros virais em pouco tempo. No protesto do dia 16 de junho, em São Paulo, a jornalista do Folha de S. Paulo, Giuliana Vallone, foi ferida no rosto com uma bala de borracha. O ocorrido levou o jornal a produzir um vídeo, publicado no mesmo dia, que já tem mais de 1,8 milhão de visualizações. A foto da jornalista ferida circulou em diversas mídias sociais e, inclusive, inaugurou um tumblr chamado “Feridos no protesto SP”.  O vlogger (produtor de vídeo para internet) PC Siqueira, conhecido por falar de suas inquietações com uma pitada de humor, fez um vídeo didático explicando as relações entre esquerda e direita na política brasileira. O conteúdo viralizou e registrou, em cinco dias, mais de 1,58 milhão de visualizações.

 Atuação do Cidadão-Repórter

Extraído do portal online Olhar Digital
Extraído do portal online Olhar Digital


Outro fenômeno que já ganha força e se tornou decisivo para a mobilização de pessoas em protesto por todo o Brasil é a atuação de “cidadãos-repórteres”. Gravações, comentários e textos feitos e jogados na rede por milhares de manifestantes e pessoas que observavam o contexto vivenciado, mostram momentos dos protestos, nos quais se podem verificar realidades diferentes à posição da grande mídia. Entre eles, ações abusivas da polícia, flagrantes pontuais de respostas violentas por parte de civis, e, principalmente, gritos homogêneos ou fragmentados de um povo que clama por mudanças.

Para o coordenador do Laboratório de Estudos em Imagem e Cibercultura da Ufes (Labic), Fábio Malini, a interatividade que é proposta na cultura digital faz da rua, de fato, um espaço público, que deixou de ser visto com um campo de trabalho apenas de jornalistas. Assim, todos se vêm como sujeitos ativos nos acontecimentos, com desejo e anseio de retratá-los. “Vivenciamos o momento da reportagem como condição do exercício narrativo. Não se trata de interpretar, mas apenas descrever a rua. Assim, sejam tweets ou vídeos, a dinâmica de influenciar o outro através de sua timeline é também uma política própria”, ressalta Malini.

Na atuação de um “cidadão repórter” não há a exigência da responsabilidade e nem do conhecimento teórico ou prático – os requisitos mínimos para o exercício da profissão jornalística. Contudo, a mídia convencional não consegue mais atuar sem o apoio dos recursos da rede, que são a fonte mais orgânica de informações instantâneas. Parece não ser mais aceitável o comportamento de grandes grupos de comunicação que ainda lidam com as notícias jornalísticas como se fossem a única voz a ser ouvida pela sociedade. Nas palavras de Fábio Malini “a visualização desse manancial de dados disponíveis na internet é só um modo de dar forma às relações de mobilização e coordenação de lutas. Todo esse movimento no país é um grande grito político para que o poder diga a verdade”.

Pós TV e Mídia Ninja

No dia 12 de junho, o comentarista da Globo Arnaldo Jabour falou sobre os protestos, chamando a manifestação de “ignorância política” e afirmando que a maioria não precisava desses “vinténs”.  Cinco dias depois, após os protestos terem tomado quase todo o Brasil, ele divulgou uma fala pela rádio CNB, intitulada “Amigos, eu errei. É muito mais do que 20 centavos”. No dia 13, foi publicado um vídeo que mostra a realização de uma pesquisa ao vivo sobre os protestos no programa Brasil Urgente, da Band. Na ocasião, a opinião do apresentador Datena é contrariada pela resposta dos espectadores, cuja maioria se mostrou favorável aos protestos. O vídeo tem mais de 1,2 milhão de visualizações.

Os grandes jornais e emissoras de rádio e TV e quase canonizados pela cultura nacional foram e são, muitas vezes, as principais fontes de informação dos brasileiros. Porém, em meio a centenas de acontecimentos simultâneos, algumas informações começaram a vir truncadas. A televisão dizia uma coisa, o jornal publicava outra e os internautas divulgavam outra. Isso aconteceu, por exemplo, com o número de pessoas presentes nas manifestações. E é por isso que a internet é tão importante em momentos como este. Ela permite uma liberdade maior de divulgação de conteúdo, sem precisar estar submetido a padrões mercadológicos – tanto estéticos, quanto políticos. Ou seja, a rede é um palco muito favorável à criação de mídias alternativas e independentes.

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Foto: Divulgação | Equipe do Pós TV.

Em junho de 2011, a Pós TV, um projeto que realiza transmissões ao vivo, começou a funcionar na internet, após transmitir as marchas da Maconha e da Liberdade, em São Paulo. O canal alternativo conta, hoje, com uma série de programas, baseados na absoluta liberdade de expressão – uma vez que são independentes de patrocinadores e anunciantes. “Tem programa de debate, transmissão de show, sofá armado no meio da rua com o apresentador entrevistando os passantes”, descrevem os organizadores no site do projeto.

Um espaço na grade do canal foi cedido às transmissões ao vivo dos protestos realizadas pelo Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação). Em entrevista ao site Blue Blus, Bruno Torturra, fundador do projeto Mídia Ninja e integrante da Pós TV, disse “a gente não está distante dele [do protesto], analisando. A gente está realmente mostrando como ele é”. Mais de 15 mil pessoas acompanharam a transmissão ao vivo da manifestação realizada em 19 de junho, na cidade de São Paulo. As visualizações posteriores chegaram a mais de 70 mil.

A Mídia Ninja, também, gerencia uma página no Facebook, na qual publica fotos e informações de protestos realizados em várias cidades brasileiras. Trata-se de uma rede colaborativa, em que pessoas de lugares diferentes do país contribuem com diversos conteúdos relacionados a manifestações realizadas pelo Brasil.

A liberdade e a irreverência que existem em mídias independentes atraem os espectadores, simplesmente, por trazerem à tona uma narrativa – que, nos casos mencionados, é mais descritiva, uma espécie de vitrine. São verdadeiros repórteres transportando a informação. A mídia tradicional sente esse impacto como uma ameaça sutil e se adapta, interagindo com os novos meios. Os relatos “minuto a minuto” e os vídeos virais são exemplos dessa tentativa de atender à inquietação de quem deseja estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. E o faz com a ajuda da internet.

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