#oGiganteAcordou!

onibus com bandeira do brasil
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Rhayan Lemes e Raquel Henrique Com cartazes em mãos e gritos de guerra, que ecoavam pelos quatro cantos por onde passavam nas diversas cidades brasileiras na última semana, manifestantes foram envolvidos pelo mesmo objetivo: lutar pela melhoria do país.

As reivindicações? Várias. Em cada placa e expressão, uma insatisfação diferente dava o tom da indignação com os serviços públicos. Não era apenas o preço da passagem que apertava tanto quanto as conduções. O aperto estava mais profundo, quase na alma. E o grito coletivo ecoou. Fez barulho e foi ouvido.

Só na Grande Vitória, mais de cem mil marcharam pelas ruas, ocupando as principais vias da Capital. Reta da Penha – de ponta a ponta – e Terceira Ponte, foram tomadas por um mar de gente revoltada, que pacificamente pedia mudanças. Houve quem não fosse tão pacífico assim – mas o número deles era pequeno, bem pequeno, perto dos milhares.

O sentimento que envolveu todos esses capixabas e brasileiros, mesclou motivos e aproximou as classes. Interligou dos mais jovens, que não viveram nenhuma experiência anterior semelhante, aos mais idosos, que já passaram por outros momentos históricos como esse no Brasil. A indignação ganhou o cotidiano. Os espaços foram ocupados. Além de ouvido, o grito ultrapassou os sentidos e foi  também sentido e visto.

Mas quem é esse gigante antes adormecido? O que motivou cada um dos cidadãos a se juntar e formar um só povo, um coletivo de faces, cartazes, reivindicações? O Universo Ufes ouviu especialistas da área do comportamento humano, que apontam peças desse quebra-cabeça social que foi montado nas ruas e vivenciando por todo o país.

[h4]Valeschka Guerra, professora doutora de Psicologia Social da Ufes[/h4]

O sentimento que une multidões

“A psicologia das massas surgiu na Revolução Francesa. Alguns pesquisadores propuseram que toda a indignação percebida na multidão sempre iria ter consequências negativas. Por serem teóricos burgueses, eram contra o movimento e tinham uma visão negativa das massas. Depois de um tempo foi-se percebendo que essa indignação não está necessariamente ligada à violência. Como a gente vê hoje, a imensa maioria das manifestações que acontecem são pacíficas. (com grupos específicos que acabam gerando consequências negativas).

O sentimento de indignação em si é individual. Só que, como praticamente todos os sentimentos que a gente tem com relação a uma série de coisas, quando a gente percebe que não somos só nós que estamos indignados, gera um sentimento de comunhão. Você passa a perceber que não é só você que está passando por esse problema. Que você pode trocar ideias e propor soluções. Então passa a ser um sentimento coletivo, mas que na verdade tem origem na insatisfação pessoal de cada um.”

Reivindicações

“A gente vê uma quantidade de pedidos diferentes. A gente não tem um movimento lutando por uma pauta específica. Cada um pega a sua indignação e leva isso para a multidão. Com certeza isso é uma coisa boa. Não vamos perceber o quebra-quebra como coisa boa. Mas, isso é, na verdade, uma expressão… É uma pequena parte que age com agressividade, que não vão para manifestar, mas extravasar essa agressividade. Mas o grito é algo que todo mundo chegou num ponto de dizer algo que se precisava dizer há um bom tempo. Vejo com bons olhos esse surgimento de todo mundo querer mudar, todo mundo por algo que melhore a vida da sociedade.”

Coragem

“Ir para as ruas com tanta gente cria um sentimento de coragem e reduz o medo. A partir do momento que você está lá não é só você que vai sofrer quaisquer consequências que venham, pensando que numa manifestação pacífica não vão existir consequências negativas, aumenta a coragem de sair e contestar. Apesar disso, não há aumento da quantidade de informação sobre as pautas.”

Liderança

“A partir de agora, para que esse sentimento não desapareça, nem a coragem e indignação se desfaça, vai ser preciso que haja uma liderança nas manifestações, que estabeleça uma pauta que é comum a todos. Pautas específicas para fazer uma solicitação, senão vai ficar uma coletânea de pautas individuais e não uma pauta única, com todos. Fica muito difícil que o movimento tenha uma continuação, em termos positivos para o movimento, se não houver um grupo que tome a frente. Tem gente que vai pedir por mais educação, saúde, legalização da maconha, ciclovias… Então, é preciso que seja estabelecida uma pauta coletiva e objetiva, definindo prioridades, para que as mudanças aconteçam como a subida de degraus: uma luta por vez. Por exemplo, começou com a questão da redução da tarifas de ônibus. Conseguiu! Qual é a próxima?”

Número

“Vale lembrar que muita gente foi para a manifestação da última quinta-feira como se fosse para uma micareta. Tinha gente comprando cerveja e falando que ‘ia pegar mulher’. Essas pessoas não vão com o mesmo sentimento de que surgiu o movimento. Fazem número porque é bonito e tem muita gente. Com objetivos diferentes.

Para que o sentimento de  indignação e de coragem gere algo real em termo de mudanças, as lideranças das manifestações vão precisar de uma pauta específica para cobrar dos poderes específicos, pois grupos sem líderes não sobrevivem. Mesmo que haja uma resistência por apontar um rosto, uma pessoa, é necessário que tenha representantes, como o Movimento Passe Livre, que já tomava a iniciativa de manifestar sobre o transporte público. Eles estabeleceram essa pauta e reuniram todo mundo. Mesmo que não tenha uma pessoa ou um partido político representando, é necessário um movimento ou um grupo de pessoas para que estabeleça as prioridades de luta.

Por essa falta dessa objetividade, pode acontecer uma diluição do movimento, o que é pena. Pode acontecer de surgirem diversas manifestações individuais e pequenas, sem agregar todos os que querem mudanças. A mobilidade urbana, por exemplo, é uma pauta que, além de ser também local, é importante para a população e, por isso, mais pessoas compartilham desse querer mudar.

 

[h4]Maria das Graças Cunha Gomes, especialista em movimentos sociais[/h4]

Minha visão ainda é de uma certa perplexidade e necessidade de um tempo para entender esse fenômeno. Ainda estou finalizando alguns caminhos ou posicionamentos. Ainda acho muito precipitado dar uma opinião que seja prematura. No calor e no susto não dá para ter um posicionamento concreto, precisamos de mais tempo para entender, de fato, o que está acontecimento.

De um modo geral, é um movimento que predominantemente tem uma força jovem e que não se configura como movimento de classe. São predominantemente jovens da chamada classe média. Eles se colocam para lutar por um estado de bem estar social, por políticas públicas de qualidade e se mantêm distantes de partidos, principalmente do projeto político partidário atual.

Percebo que o interesse geral independe de classe social, partido político, e das questões políticas que têm sido indicadas pelos sindicatos. Ainda é preciso digerir o que está acontecendo e a força desse movimento.”

 [h4]Rosemary Reis, psicanalista clínica[/h4]

Fim do silêncio

“As pessoas se viram reprimidas por muito tempo pelas ações do governo e dos governantes. No sistema político, os mesmos que se aproximavam dos eleitores em troca de votos, ao conseguirem se eleger abandonavam esse mesmo povo. Embora a grande massa tenha se mantido numa espécie de “silêncio coletivo” por bastante tempo, a repressão foi nutrida e agora o povo acordou. A classe média se viu achatada e hoje é ela quem está na ruas, lutando para abrir caminhos para um diálogo.

Esse movimento é histórico. É um momento de ruptura. É uma passagem para abertura do diálogo entre o povo e os governantes. Os governos vão ter que aprender a ouvir.”

Força na união

“Há um potencial grande no agrupamento das pessoas. Na união corta-se o medo, a fobia social. Como as pessoas individualmente não conseguiam ter voz, adoeciam psicologicamente. Esse silenciamento é umas das causas das doenças do século, como o stress, a depressão. Acontece que o povo agora acordou.

O processo de transição pode ser longo, mas é sem volta. Para essa massa jovem, essa política não serve mais, e haverá cobranças aos governos daqui em diante para serem ouvidos. O movimento autêntico e é único. Ele é forte e não vai terminar assim. Toda ação vai despertar reações contrárias, mas o importante é não recuar, não desfalecer”

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