Linhas, agulhas e muito carinho

Share Button

[h4]A simplicidade e a garra da costureira Nadia, que é mãe, pai, avó e tia de todos que a amam.[/h4]

Por Isabella Mariano (texto e foto) – Óculos pendurados no pescoço, agulha em uma mão e um sorriso largo no rosto. Foi assim que Nadia Nara da Costa Martins, ou Tia Nadia, recebeu-me em sua casa. Em um aconchegante abraço, chamou-me de filha e me pediu para sentar. Ela não pôde parar por muito tempo o que estava fazendo, porque o pedido no qual trabalhava precisava ser finalizado. Sentada em sua mesa de trabalho, ela me contou um pouco de sua história.

Nascida e criada no Rio de Janeiro, Nadia carrega um suingue carioca que me deu saudade da cidade maravilhosa. Não pelo gingado, que aos 55 anos é difícil de ter, nem pelo samba, mas sim pelo calor que carrega em seus braços. Ainda não conheci um abraço tão fraterno como o de Tia Nadia. Ela trabalha há mais de 20 anos como costureira – ofício que aprendeu sem nenhum diploma. “Nunca parei para estudar corte e costura, mas tudo o que as pessoas me ensinam eu guardo e vou fazendo”, conta.

Essa história teve início em 1987, logo após separar-se do “pai dos seus filhos”, como preferiu dizer. Isso porque ela precisou começar a trabalhar para cuidar da família e de sua casa. No início, Nadia trabalhava limpando casas ou lojas. E foi servindo café e limpando uma loja de confecção em Copacabana que ela conseguiu uma oportunidade para mostrar o pouco que sabia. Sua chefe na época, quando uma das costureiras havia faltado, fez-lhe um pedido um tanto quanto atípico. “Ela mandou eu me sentar na overloque e passar um pano enorme até ficar uma tirazinha para eu aprender a controlar a mão. Aí, eu fui. No outro dia, quando eu cheguei para trabalhar, ela disse assim: ‘Não, você não vai trabalhar não’. Eu pensei que tinha sido mandada embora, né? Aí, ela falou assim: ‘agora, senta aqui’.”

Overloque é um tipo de máquina industrial, que realiza a costura e o acabamento simultaneamente.

O que Nadia já sabia sobre costura até então tinha aprendido com uma vizinha, que há quatro anos, dera-lhe algumas roupas masculinas para colocar elástico. “Saí da limpeza e sentei direto na máquina”, diz. Mas oito anos depois, ela decidiu parar de trabalhar a fim de cuidar melhor dos filhos. Passaram-se dois anos e Nadia fez suas malas para vir morar em Vitória. Ela quis desconversar, quando perguntei o motivo da mudança, mas acabou resumindo e me disse: “ah, problemas de família”.

Ficou um tempo longe da costura, trabalhando com outras coisas como manicure e faxineira, mas já faz 13 anos que voltou a fazer o que nasceu para fazer e não parou mais. Hoje, Nadia trabalha em sua própria casa, como costureira autônoma. Com um olhar cansado, ela me disse que escolheu esse caminho, para estar mais perto dos filhos, do neto de quatro anos e de sua mãe. Agora, ela está começando a conquistar sua freguesia e acredita que os negócios estão indo bem. “Eu não tinha conhecimento para isso e tem muita costureira no bairro. Só que é aquela coisa, fazer com carinho só quem gosta mesmo. E eu gosto de costurar”, afirma.

Relembrando sua infância fazendo roupinhas de bonecas com a avó, Nadia contou que sempre gostou de costurar. Mas se pudesse ter estudado, ela me confessou que teria escolhido outra direção. “Para mim, costureira foi uma profissão que Deus me deu pra criar meus filhos. Se eu tivesse a oportunidade de estudar, eu seria ou professora de educação física ou aeromoça. Foram duas coisas que eu sempre sonhei ser”.

Ela costuma costurar algumas roupas para o grupo de dança da igreja que frequenta e diz: “eu faço com todo amor”. Às vezes, quando chegam com algum trabalho muito simples, ela também não faz questão do pagamento. “Assim como eu tenho sacrifício para conseguir as coisas, as pessoas também têm, né?”, diz.

Com algumas gargalhadas, Nadia contou que, em uma época de ano novo, passou a noite inteira do dia 30 para o dia 31 costurando uma calça branca para uma de suas clientes. No dia seguinte, quando foi passar o ferro, acabou queimando e estragando todo o trabalho. “Não deu pra eu aproveitar e aí foi difícil para falar com ela. Tivemos que fazer outra correndo, porque ela queria a calça branca pra ir pra praia assistir ao réveillon. E isso eram mais ou menos umas 14h, tive que entregar a calça até às 17h”, relembra com muito bom humor.

O interessante é que Nadia não perdeu sua cliente, que até hoje faz encomendas com ela. O que fez essa moça não ter deixado a lista de clientes de Tia Nadia eu não sei. Mas desconfio… Pode ter sido pelo bom humor, pelo abraço fraterno, pela forma carinhosa como costuma chamar as pessoas ou até mesmo pela humildade, pelo amor com que faz cada um de seus trabalhos.

Tia Nadia

 

Deixe uma resposta