Movimento quer Ponte Livre

Share Button

[h4]Universo Ufes entrevista, com exclusividade, a organizadora do Movimento Ponte Livre, que reivindica o fim do pedágio na Terceira Ponte e promove discussão sobre a Rodosol.[/h4]

Henrique Montovanelli e Eduardo Dias – A diversidade de pautas, ou a dificuldade em organizá-las, é uma das principais críticas às manifestações que ocorrem em todo o país. Entretanto, com reivindicações voltadas à Rodosol, nasce, no Espírito Santo, o Movimento Ponte Livre (MPL), que levanta novamente a discussão a respeito dos pedágios cobrados na Terceira Ponte, desde 1992, e na Rodovia do Sol (ES-60).

Para atravessar a maior (3,3 Km) e mais importante ponte do estado, com um carro de passeio, é preciso desembolsar R$ 1,90. O valor é cobrado na ida e na volta, totalizando R$ 3,80. Isso significa que cada quilômetro da ponte custa R$ 0,57. De acordo com o estudo “Rodovias brasileiras: Investimentos, concessões e tarifas de pedágio, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), realizado em 2012, a Terceira Ponte tem, proporcionalmente, a tarifa mais cara do país. Na Rodovia do Sol (ES-60), de 67 km, trecho que liga Vitória a Guarapari, a concessionária cobra o valor de R$ 7,20. Segundo o estudo, a tarifa média cobrada no Espírito Santo, de R$ 12,44/100km, é a terceira mais cara, ficando atrás apenas de São Paulo (R$ 12,76) e Rio de Janeiro (R$ 12,93).

O Movimento Ponte Livre surgiu oficialmente no Facebook, convocando manifestantes para o primeiro protesto, que ocorreu na última segunda-feira (24). O texto da descrição da página questiona: “Já que saem pelas ruas com cartazes ‘fora corrupção’ por que não apontar, nas ruas, um caso prático e explícito no Espírito Santo? A Terceira Ponte é nossa e queremos Passe Livre por ela, porque já pagamos, não? Será que o preço cobrado para sua manutenção é justo? Cadê a CPI da Rodosol?”. O movimento reivindica:

  • Esclarecimento imediato, por parte do governo e da concessionária, sobre contrato da Rodosol;
  • Auditoria para analisar as contas da concessionária Rodosol, que administra o trecho entre a 3 ª ponte e Guarapari;
  • Suspensão do contrato do governo com a Rodosol visto sua legalidade questionável;
  • Fim do pedágio na Terceira Ponte;

Após os protestos, o Ministério Público do Espírito Santo (MP-ES) solicitou a realização de uma auditoria para averiguar os serviços prestados pela concessionária. Realizada em 2003, o relatório final da CPI da Rodosol apontou uma série de irregularidades:

  • Falta de estudos de viabilidade de econômica para a concessão;
  • Acréscimo indevido da dívida da Terceira Ponte, causando um prejuízo de R$ 5.328.920, 21 ao erário público;
  • Pagamento de indenização à empresa ORL, no valor de R$ 11,5 milhões sem computar a redução do prazo de concessão em três anos;
  • Alteração do critério de julgamento da licitação;
  • Ausência de estudos técnicos para o valor inicial do pedágio;
  • Recebimento prévio de receitas sem previsão ilegal;
  • Abusiva remuneração do capital investido;
  • Subestimação do fluxo de veículos;
  • Ausência de sistema regular de controle e fiscalização da concessão pelo poder público;
  • Destruição de dados, de forma intencional, por funcionários da Rodosol;

Protesto

DSC_2808 - CópiaA manifestação ocorreu no dia em que a empresa, por conta das cabines destruídas na manifestação de quinta-feira (20), insistiu em cobrar o pedágio manualmente, provocando um congestionamento recorde que irritou os motoristas.  O protesto teve início com a reunião na Praça do Papa, a partir das 17h. Às 18h30, bloqueando parcialmente o trânsito, os manifestantes caminharam pacificamente pela Avenida Nossa Senhora dos Navegantes, com destino à praça do pedágio da Terceira Ponte. No caminho, motoristas e moradores dos prédios incentivavam a manifestação buzinando e piscando luzes das varandas. Uma Kombi com sistema de som direcionava o movimento e expandia gritos e paródias musicais. No evento na rede social, mais de 12 mil confirmaram presença. Segundo a Polícia Militar, entretanto, o protesto reuniu cerca de 500 manifestantes, em uma segunda-feira nublada e fria na Grande Vitória.

O estudante de Ciência da Computação da UFES, Ricardo Julião, 28, não costuma usar a Terceira Ponte, mas não deixou de ir e apoiar o movimento. “Eu acho importantíssimo vim e ajudar uma causa tão nobre como essa, porque é um absurdo o preço que se cobra”. Para Ricardo, um dos pontos mais importantes nas manifestações nacionais e estaduais é a consciência que está se formando nos brasileiros. “Se a gente se juntar a gente vai ser ouvido, como está sendo. Tem que parar com isso de que não vai dar em nada, vai dar sim! Não vai acabar em pizza! Tem aquele ditado de que o ‘Brasil é o país do futuro’, que na verdade é uma piada de muito mau gosto. O Brasil é o país de agora. Chega de enrolação, vamos ver essa por#@ funcionar”.

O MPL tinha como intenção realizar uma manifestação diferente, uma “intervenção poética na cidade”, sem impedir vias, e conscientizando os motoristas quanto às reivindicações. E assim ocorreu na maior parte do protesto. Entretanto, depois de ocupar a praça do pedágio, permitindo a passagem dos carros que seguiam para Vila Velha – o fluxo Vila Velha-Vitória foi obstruído pela polícia -, o confronto entre policiais e manifestantes começou, progressivamente, por volta das 20h. A Tropa de Choque usou bombas de gás lacrimogêneo, tiros de borracha e bombas de efeito moral. De acordo com a polícia, 30 manifestantes foram detidos.

Ponte Livre - 4
Manifestantes correm da Tropa de Choque. Foto: Henrique Montovanelli

A contestável ação da polícia gerou revolta e polêmica. 16 policiais foram detidos e encaminhados à corregedoria da corporação por suspeita de exercer atividade irregular em horário de folga, prestando segurança particular para a Rodosol. Em nota, a Polícia Militar informou que eles foram afastados, serão investigados e deverão responder a procedimento administrativo. A PM também informou que vai averiguar se os militares usaram armas de paintball durante a ação irregular. Na terça-feira (25), a TV Gazeta afastou seu comentarista de segurança, Marcos Du Val. Segundo a PM, o empresário seria o responsável por contratar os policiais. Em entrevista para o G1, Du Val negou qualquer tipo de envolvimento com os militares detidos, informando que foi contratado pela Rodosol para proteger o patrimônio da concessionária, mas apenas como consultor.

Entrevista

Jamille conversa com motorista
Jamille conversa com motorista. Foto: Henrique Montovanelli

Jamille Ghil, integrante do coletivo Los Conquistadores del Nada, é a principal organizadora do MPL, mas não se considera líder. Ela concedeu entrevista exclusiva ao Universo Ufes para falar sobre o novo movimento que surge no estado, o cenário atual de protestos pelo país, e o que a levou a convocar a primeira manifestação. Confira a seguir a entrevista na íntegra.

Universo Ufes – Jamille, o que te levou a criar o Movimento Ponte Livre e o evento da manifestação no Facebook?

O Movimento Ponte Livre existe há anos, só não tinha esse nome, só não estava no Facebook. O movimento e o evento são a mesma coisa. Eu, movida pela paixão, por uma indignação que borbulhava na rede, tomei coragem e pronto, tava lá. O Ponte Livre somos todos nós que já pagamos, fomos e ainda iremos marchar até a Terceira Ponte, abrir suas cancelas e exigir a devolução  da vista mais bonita da cidade. Para além da rodovia, a Rodosol tem a concessão de um patrimônio paisagístico, o maior símbolo da corrupção no Espírito Santo. Se, durante os protestos, havia cartazes “Fora Corrupção”, é hora de nomeá-la, apontando seu exemplo mais cotidiano; caso contrário, o discurso é vazio.

Universo Ufes – Mais de 12 mil pessoas no Facebook confirmaram presença na manifestação. Você esperava a confirmação de tantos usuários pelas redes sociais?

Eu não esperava nada e esperava tudo. Criar esse evento horizontalmente, cuja pauta contempla reivindicações pertinentes a diferentes classes sociais, foi uma montanha russa de emoções, uma tentativa de reacender esse debate histórico.

Universo Ufes – Apesar disso, segundo a Polícia Militar, cerca de 500 pessoas participaram do protesto. Você ficou decepcionada com a pouca quantidade de manifestantes em relação ao número de usuários confirmados pela página na rede social? Para você, o que coibiu a participação de mais adeptos ao movimento?

Os mais de 12 mil cliques no Facebook representam 12 mil pessoas que compartilham um mesmo sentimento de insatisfação, uma mesma certeza de que somos enganados há anos por uma lógica que faz o usuário de 3,3 Km de ponte pagar pela manutenção de uma rodovia.  São mais de 12 mil pedindo a suspensão imediata do pedágio. Agora, ficar de frente para os simpáticos policiais do BME, sob ameaça de bombas e balas de borracha, não é pra qualquer usuário do Facebook não. Os caras estão ali defendendo o interesse privado com tanta garra e determinação, que estão dispostos a tocar o terror, independente da presença de crianças, idosos, famílias…

Universo Ufes – De acordo com a descrição do evento, o movimento Ponte Livre pretendia fazer uma “intervenção poética” na cidade, uma manifestação diferente, permitindo o fluxo dos carros. Sendo assim, o protesto de segunda-feira (24) ocorreu da forma que você planejava?

É muito bom que as coisas não aconteçam exatamente como planejamos, é assim que a vida se mostra mais surpreendente do que a arte. Por tê-lo criado, emprestei um discurso ao movimento para, quem sabe, recriar aqui e agora, em meio ao caos, uma outra forma de manifestação via Terrorismo Poético. O mote era inverter a lógica, ao invés de atrapalhar, permitir o trânsito, dizendo a cada cidadão “passe livre, já pagamos”. Maquiamos crianças e “magrins” (os meninos do morro), performamos junto aos motoristas, pedindo para exigirem nota fiscal, sobretudo nesses dias de cobrança manual. Além disso, aconteceu o “Pessoa na Ponte”, convencendo cada um de que podemos vencer essa causa, afinal “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. E, pra fechar com chave de ouro, tivemos mais policiais presos do que manifestantes. Foram 16 detidos por suspeita de fazer um “bico” para a Rodosol, atirando na gente com armas de paintball. Acho que o Ato saiu melhor do que a encomenda, uma verdadeira inversão nos papéis

Universo Ufes – O que você achou da ação da polícia durante o protesto? Quatro manifestantes detidos, e dezesseis policiais militares de folga trabalharam para a Rodosol…

Eu já tinha notícias de que na polícia há profissionais esclarecidos, mas nunca tinha conseguido conversar com um. Fiquei surpresa com a forma amigável como eles dialogaram com os estudantes na realização do ato, demonstrando que existe possibilidade de acordo utilizando a linguagem verbal. Por outro lado, ficou claro que o marginal é mesmo estereotipado, ou seja, se você é preto, pobre e usa cordão de prata, é melhor ficar preso…em casa ou será garfado pela polícia. Para os excluídos, não existe palavra, a linguagem é outra.

Universo Ufes – Qual sua opinião a respeito da situação atual que o Brasil vive em meio a tantos protestos históricos? Neste cenário, qual a importância dos capixabas reivindicarem a resolução de pautas ainda mais próximas da nossa realidade, como o fim do pedágio da Terceira Ponte?

O que eu acho sobre a situação atual do Brasil? É “O diabo na rua no meio do redemoinho”, como diz o jagunço Riobaldo, na obra Grande Sertão: Veredas. Mas essa desconstrução é um presente que me faz pensar: quem nasceremos depois dessa experiência? Sob o ponto de vista local, acredito muito na eficiência da micro política, ou seja, nas associações de bairro, nas assembleias populares. É a partir de um olhar atento para nossa realidade que conseguiremos mudar uma estrutura macro. Isso, claro, reconhecendo e respeitando os movimentos sociais que nunca dormiram, enquanto o “Gigante” hibernava. Pensar em uma atuação política micro é uma possibilidade objetiva de mudar o mundo que está ao nosso redor, caso contrário continuarão zombando da nossa cara cobrando um pedágio absurdo, defecando minério de ferro nas nossas cabeças, violentando mulheres, exterminando a juventude negra e por aí vai.

Universo Ufes – O Movimento Ponte Livre fará outras manifestações? Quando?

Enquanto a Terceira Ponte simbolizar a corrupção, ocorrerão manifestações, independente do nome do movimento. O Ponte Livre pode ter a duração de uma bolha de sabão, de um post no Facebook, porque não tem liderança, é horizontal. Porém, a pauta é velha, está cristalizada entre os capixabas e, por isso, alimenta e alimentará a indignação do povo enquanto essa concessão “vitalícia” durar, com todos os seus paradoxos.