O blues capixaba mais vivo do que nunca

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(Larissa Fafá e Laila Martins)

Gaita e guitarra combinados, em um clima que pode variar do melodramático e chegar até no frenético. Para quem conhece e gosta, essa pequena descrição já é suficiente para saber que se trata de blues, um precursor de muitos estilos musicais bem mais conhecidos como rock’n roll, soul music e o jazz. Surgido das canções gospel das comunidades de escravos e seus descendentes no sul dos Estados Unidos, foi moldado pelo sofrimento destas pessoas.

O blues tomou forma como uma maneira de exaltar o cotidiano e os sentimentos de seus autores. Trabalho, religião, amor; tudo virava música. Caracterizado pela sua melodia melancólica, o blues enfrentou preconceitos raciais ainda presentes nos EUA em seu surgimento, no início do século passado. Foi a partir da década de 40, com Muddy Waters, que o blues ganhou notoriedade dento e fora dos Estados Unidos, iniciando um processo de reconhecimento do estilo musical.

Mas, para muitos no Brasil, o estilo permaneceu desconhecido. As letras de grandes autores, a maior parte em inglês, dificultavam o entendimento; e o ritmo, em geral pesado e melancólico, já tinha sido preenchido pelo sertanejo, que cumpria exatamente o papel de traduzir a vida difícil no campo e a realidade dos interiores de nosso país. Para boa parte da geração dos mais novos, sons como o blues eram muito lentos para a tendência musical da época, tendo que competir com a animação do fim dos anos 80, saindo do dance music e chegando nos 90, com suas músicas eletrônicas e uma volta ao rock mais visceral com o grunge.

Apesar de toda essa história difícil em terras verde-amarelas, a realidade é que nos últimos tempos o blues tem conquistado muita gente, deixando de ser música de gente mais velha e tornando-se alvo da preferência de muitos jovens que procuram algo diferente. A capacidade de troca de informações que a internet permite, fez com que o blues conquistasse uma legião de amantes da música, que cresce cada vez mais.

No Espírito Santo não é diferente. Uma cena “bluseira”, antes restrita, tem tomado força e ocupado os bares e palcos da capital e arredores. Todo esse movimento é capaz de ser percebido pelo surgimento de novos espaços musicais que abrem lugar para esse estilo, provando que há público na Grande Vitória para alimentar sua reprodução.

Na rádio

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Comandando o programa Cidade do Blues, Cláudio acredita que contribiu para a difusão do blues no Estado

Integrante do importante grupo Big Bat Blues Band como slide guitar e amante do estilo, o designer Cláudio França decidiu que sua paixão merecia um programa de rádio, no qual pessoas com o mesmo interesse que o dele pudessem receber informações sobre o cenário atual do blues, além de escutar as músicas preferidas em uma rádio. Cláudio começou com um projeto parecido na Rádio Universitária em 93, hoje apresenta semanalmente o programa Cidade do Blues, na Rádio Cidade.

Segundo o apresentador, sempre houve um grupo que curtia o gênero musical, mas com o acesso à informação este número de pessoas cresceu. “Já havia um grupo que gostava de blues e afins, mas com informações bastante simplórias. A informação completa o quebra-cabeça.

O público recebe bem se houver um canal onde a informação possa ser difundida e é o que eu tento manter em evidência com o programa de rádio”, explica Claudio. Para ele, a prova disso é que recebe cada vez mais pedidos e comentários na rádio através de seu canal na rede social Facebook, além de ter conquistado ouvintes assíduos que crescem cada vez mais.

“O Cidade do Blues é um forte termômetro disto que falamos. Realmente, noto um crescimento na procura sobre o assunto e tenho recebido cada vez mais indicações e referências de blues que só quem escuta com uma certa regularidade desenvolve”, completa.

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Big Bat Blues Band com seu segundo álbum de estúdio lançado no ano passado

Com a banda, na carreira há 20 anos, Cláudio também acredita que é capaz de levar o blues feito com vontade para outras pessoas. A banda já tem na bagagem dois discos gravados, o último, foi lançado em pleno Festival de Jazz e Blues de Rio das Ostras, no ano passado, com participação especial do gaitista brasileiro de fama internacional Jefferson Gonçalves.

“A apresentação da Big Bat Blues Band em Rio das Ostras estava lotada, em especial pelo pessoal do ES. Isso é demais e foi percebido pelos críticos e produtores de revistas e do circuito de shows pelo Brasil que acompanhavam apresentação por apresentação, destacando o ES como um local diferente”, diz o slide guitar, frisando que esse último lançamento do disco provou que existe muita gente gostando de blues de verdade aqui no estado.

No Festival

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Cenas da segunda edição do Manguinhos Jazz & Blues Festival

Como toda cena musical, mais cedo ou mais tarde aparecem os festivais. No caso do Espírito Santo, esse começo foi no ano passado com um primeiro grande festival, o Manguinhos Jazz & Blues Festival. Moldado pelos padrões do famoso festival que acontece em Rio das Ostras, o festival capixaba começou com dois dias de atrações nacionais e internacionais, em apresentações gratuitas. Além da música, o festival promoveu uma integração com os restaurantes de Manguinhos, incentivando ainda mais o turismo.

Para a gestora de projetos e produtora do evento Júlia Sódré, o envolvimento começou quando o idealizador do festival, Fernando Santana, a convidou para executar o projeto, por meio do Instituto Colibri, que preside, juntamente com o músico Paulo Sodré. Na edição deste ano, o Instituto Colibri em parceria com a Faculdade de Música do Espírito Santo, a FAMES, organizaram a segunda edição, realizada nos dias 28 a 30 de março deste ano, com com resposta do público tão grande quanto a da primeira edição do festival, provando que o blues tem seu espaço no gosto do capixaba.

Segundo Julia, a aceitação do público já era esparada, uma vez que não existia nenhum grande festival nesta área. “Viajo sempre para outros festivais e sempre havia muitos capixabas. No ES não existia um projeto dessa magnitude, mesmo na área de jazz e blues que temos uma alta qualidade técnica e artístitca, com duas Faculdades de Música importantes no Estado. Sem dúvida, havia uma carência dessa temática”, completa a gestora de projetos, que avalia com bons olhos o crescimento do Festival. “O Manguinhos Jazz & Blues Festival já se tornou parte do calendário dos principais eventos do Espírito Santo. As pessoas me param na rua, elogiam, fazem críticas e, sem dúvida, é um momento muito aguardado”, completa.

 

 

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